domingo, 30 de novembro de 2008

Boa Noite, e Boa Sorte - ***** de *****

Assisti a este filme, junto de um amigo meu, durante este último mês de julho enquanto encontrava-me de férias universitárias. Segundo este meu amigo, o filme era obrigatório a todas as pessoas que se dizem apaixonadas por Direito Processual Civil (o que não é o meu caso, já que faço curso de Direito, mas confesso não nutrir a menor paixão pelo mesmo, diferentemente dele que cursa e ama incondicionalmente a matéria) e por Jornalismo (este sim um curso que me atrai muito mais e passará a ser prioridade minha assim que encerrar a faculdade de Direito). Enfim, locamos o filme e durante uma noite de terça assistimos ao mesmo. Confirmei que o longa era realmente quase tão sensacional quanto ele afirmara, com a diferença de que não achei-o perfeito, conforme o leitor poderá conferir no texto a seguir.

Ficha Técnica:
Título Original: Good Night, and Good Luck.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 93 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 2005.
Estúdio: Warner Independent Pictures / 2929 Productions / Redbus Pictures / Section Eight Ltd. / Metropolitan / Participant Productions / Davis-Films / Tohokashinsha Film Company Ltd.
Distribuição: Warner Bros.
Direção: George Clooney.
Roteiro: George Clooney, baseado em roteiro de Grant Heslov.
Produção: Grant Heslov.
Fotografia: Robert Elswit.
Desenho de Produção: James D. Bissell.
Direção de Arte: Christa Munro.
Figurino: Louise Frogley.
Edição: Stephen Mirrione.
Elenco: David Strathairn (Edward R. Murrow), Robert Downey Jr. (Joe Wershba), Patricia Clarkson (Shirley Wershba), Ray Wise (Don Hollenbeck), Frank Langella (William Paley), Jeff Daniels (Sig Mickelson), George Clooney (Fred Friendly), Tate Donovan (Jesse Zousmer), Thomas McCarthy (Palmer Williams), Matt Ross (Eddie Scott), Reed Diamond (John Aaron), Robert John Burke (Charlie Mack), Grant Heslov (Don Hewitt), Alex Borstein (Natalie) e Rosie Abdoo (Millie Lerner).

Sinopse: Edward R. Morrow (David Strathairn) é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande confronto público que trará consequências à recém-implantada TV nos Estados Unidos.

Good Night and Good Luck – Trailer:

Crítica:

Filmes do tipo “Boa Noite e Boa Sorte” representam o estilo de filme que eu mais detesto criticar. Assim como “Forrest Gump – O Contador de Estórias”, “Chinatown” e “Nascido Para Matar”, este longa bem dirigido por George Clooney não possui um defeito propriamente dito, mas ainda assim não pode ser rotulado como “perfeita obra-prima” (apesar de eu reconhecer que ele possa ser rotulado como uma “pequena obra-prima”, mas nada além disso). Sei que está soando exacerbadamente paradoxal de minha parte afirmar que um filme, apesar de não possuir defeitos, não poder ser considerado perfeito, mas foi a estranha sensação que tive ao assistir a este “Boa Noite e Boa Sorte” e, sinceramente, não há sensação que me cause mais incômodo na condição de crítico de Cinema do que esta.

“Boa Noite e Boa Sorte” é um filme dificílimo de ser analisado, principalmente na pele de um brasileiro que não está completamente a par dos acontecimentos que se sucederam na época (e mesmo pesquisando bastante a respeito do protagonista do longa (encontrei, inclusive, no site Wikipédia, um texto em inglês e de seis páginas de Word (ou Open Office, caso o usuário utilize o Linux como Sistema Operacional) sobre a vida deste), não obtive tanta informação quanto gostaria de ter obtido a fim de me possibilitar um prévio conhecimento de causa antes de analisar o filme em si (algo que sempre faço antes de assistir a um filme histórico, ou uma biografia, como é o caso desta obra). E falando nisso, talvez seja este o maior, ou provavelmente o único, problema com o filme: o fato de seu foco estar voltado mais aos seus contemporâneos do que ao restante da população mundial.

Sim, da mesma forma como “Forrest Gump – O Contador de Estórias” (que em uma grande ironia citei no intróito deste texto) se mostra um filme voltado mais à população estadunidense (já que o restante da população mundial não conhece, necessariamente, a estória daquele país asqueroso nos mínimos detalhes), “Boa Noite e Boa Sorte” conta com a mesma falha: se revela um filme feito de estadunidenses para estadunidenses. “___ Mas qual o problema nisso?” ___ Me pergunta o leitor. O problema é que o longa não conseguiu definir o seu público alvo. “Boa Noite e Boa Sorte” foi um filme vendido para o mundo todo, só que o roteiro esqueceu-se de que pouquíssimas pessoas têm um prévio conhecimento da estória que irá abordar, sendo assim, o filme simplesmente arremessa o espectador na trama e proporciona duas opções a este: ou ele se familiariza com a mesma (que no meu caso, acabou dando certo, pois adoro jornalismo político (conforme citei na pré-crítica) e já havia tido um prévio, embora não suficiente, estudo sobre o protagonista) ou simplesmente desiste de tentar compreender o que está assistindo, o que é uma pena, tendo em vista que o filme é extraordinário.

Explicando o meu raciocínio de maneira exemplificada, diria que o longa não faz como “Tróia” (e confesso ser uma heresia comparar uma porcaria épica destas com o sensacional longa de George Clooney, mas a analogia torna-se necessária aqui), por exemplo, onde temos uma prévia explicação antes do intróito do filme sobre o que se passava naquela época e os motivos pelos quais os personagens do filme encontravam-se naquela situação. Talvez o roteiro deste “Boa Noite e Boa Sorte”, apesar de ser voltado a um público mais intelectual ao de “Tróia”, devesse ter realizado algumas explanações sobre o período em que os Estados Unidos da América se encontrara naquela época: a caça às bruxas organizada pelo repugnante senador do estado do Wisconsin: Joseph McCarthy e à maneira como Edward R (‘R’ de Roscoe) Murrow conduziu uma série de reportagens e comentários que conduziram à cassação do mandato do mesmo.

Traçando um perfeito paralelo à situação em que os Estados Unidos se encontravam na época de seu lançamento (refiro-me à impossibilidade de um estadunidense ir de encontro aos ideais de um dos piores presidentes da história dos Estados Unidos da América, o incompetente George W. Bush, e ser alcunhado de simpatizante do terrorismo), o longa merece ser aplaudido de pé por trazer à tona a polêmica discussão entre o senador e o jornalista supracitados. E por mais fria que seja a postura adotada pelo longa a fim de retratar tal disputa (afinal de contas, a obra não poderia, sob hipótese alguma, deixar de ser parcial), não há como não se empolgar com o mesmo, principalmente quando este se volta às críticas que Murrow realiza contra McCarthy em seu programa See It Now e o roteiro magnificamente bem escrito por George Clooney, baseado em um outro roteiro composto por Grant Heslov, se mostra imprescindível para a elaboração de tal teor político da trama, já que os diálogos por ele apresentados são secos, ríspidos, ácidos e altamente aprofundados, além de realçarem bastante a tensa discussão política sugerida.

Mas as qualidades do roteiro não se resumem apenas aos diálogos entre os personagens do longa, ou aos monólogos proferidos por Murrow, ou ainda ao forte clima de tensão política abordada aqui. O trabalho de Clooney como roteirista também prima por explorar o seu protagonista da maneira mais eficaz o possível, abordando Murrow da maneira como ele realmente era: um sujeito extremamente sério, comprometido com o serviço, intrépido e um apaixonado pela defesa dos direitos cívicos.

A atuação de David Strathairn como Edward R. Murrow também não poderia ser mais concisa e real. Adotando aqui uma composição que muito me remeteu à frieza de Al Pacino como Michael Corleone em “O Poderoso Chefão – Parte II” e à facilidade de disparar diálogos ásperos de Humphrey Bogard em “Casablanca”, encarnando o papel de Richard Blane, o californiano Strathairn realiza uma atuação mágica, fazendo jus à indicação ao Oscar® de Melhor Ator em 2005. As demais atuações também são soberbas, em especial o ótimo Robert Downey Jr. como Joe Wershba.

George Clooney, como diretor, também se mostra eficiente e, apesar de não criar nenhum ângulo fantástico com as câmeras ou de não realizar nenhuma movimentação realmente satisfatória com as mesmas, o astro do Kentucky realiza um trabalho firme e consistente, seguindo bem de perto o roteiro que fôra concebido por ele mesmo. Conseguindo nos remeter todo o clima de angústia presente na época (entre outubro de 1953 e maio de 1954), causado, sobretudo, por dois fatores: a opressão que o projeto “Caça às Bruxas”, liderado por Joseph McCarthy, impusera às pessoas que iam de encontro aos ideais do senador e à falta de liberdade de expressão que a imprensa tinha na época, Clooney utiliza diversos artifícios extremamente eficazes a fim de mergulhar o espectador dentro do filme, dentre os quais destaco a angustiante fotografia preto e branco (algo que eu detesto quando é utilizada em filmes contemporâneos, mas neste caso caiu muitíssimo bem de acordo com a proposta do longa).

O grande destaque da produção, contudo, fica por conta da maneira como o mesmo opta por abordar à importância que um jornalismo realmente competente possui para a política do país e o modo como a ausência deste colabora negativamente com o progresso de uma nação. Através de uma direção detalhista e de um roteiro bem explorado, “Boa Noite e Boa Sorte” apresenta fortes críticas às frivolidades jornalísticas que são apresentadas com o intento de alienar o público (não sei porque, mas lembrei-me do programa “Fantástico” agora. Por que será?) e à dificuldade que um profissional disposto à apresentar um jornal de credibilidade sofre diante de uma sociedade fútil e consumista (repare nas cenas em que o longa nos apresenta a Murrow tendo de comandar um programa extremamente leviano, à lá “TV Fama”, a fim de obter recursos financeiros com este e poder produzir o politizado “See It Now”. Fazendo uma analogia mais palpável de ser absorvida em nossos cotidianos, Murrow fazia a mesma coisa que o excelente Paulo Henrique Amorim realiza atualmente como profissional: apresenta um programa fútil na Record (com um carisma peculiar, diga-se) a fim de poder financiar o jornalismo inteligente abordado em seu excelente site: o “Conversa Afiada”).

Em suma, “Boa Noite e Boa Sorte” é um filme independente de curtíssimo orçamento (US$ 7,5 milhões) e que em um curtíssimo prazo de duração (93 minutos) conseguiu a façanha de se mostrar eficaz e detalhista o bastante a fim de retratar todo um embate político ocorrido entre um gigante das comunicações e um outro gigante da política, resultando, inclusive, na cassação do mandato deste como senador. George Clooney realiza uma direção discreta, embora eficiente, o roteiro do longa aborda toda a crise vivenciada durante a época, incluindo a total falta de liberdade de expressão, sobretudo de imprensa e David Strathairn encarna Edward Roscoe Murrow de um modo magistral, merecendo, e muito, a indicação ao Oscar de Melhor Ator que obteve em 2005. Infelizmente o longa conta com um defeito (e sinceramente, não sei se posso chamá-lo de defeito): a dificuldade que o mesmo tem em familiarizar o público com a estória, já que torna-se altamente recomendável que o mesmo tenha um razoável conhecimento sobre os personagens que compõe a trama. No mais, temos aqui um excelente filme e uma aula de jornalismo verdadeiro e lição cívica.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Star Wars - The Clone Wars - *** de *****

Estava completamente atrasado (e ainda estou, diga-se) com relação à publicação das críticas dos filmes recentes aqui no Papo Cinema em virtude ao tempo que tive de me dedicar aos textos especiais que estive escrevendo recentemente sobre a saga “Star Wars”. Uma vez finalizados tais textos, nada melhor do que ser demasiadamente oportunista e regressar à sessão “Filmes Recentes” entrando no embalo da saga criada por George Lucas e escrevendo sobre o mais novo episódio desta, cujo título vem a ser: “Star Wars – The Clone Wars”. Quem leu os meus textos sobre os demais episódios da franquia deve ter percebido que, apesar de não conferir nota máxima a nenhum dos filmes, sou fã incondicional dos mesmos, sendo assim, é praticamente impossível eu ser objetivo, deixar o lado fanzóide inerte e, por mais que reconheça que este novo episódio contenha uma infinidade de defeitos, não há como negar o quanto ele conseguiu cativar-me, a ponto de me fazer sonhar com o mesmo durante esta noite (assisti ao longa no cinema, no dia 30 de agosto de 2008 às 19hs da noite).

Ficha Técnica:
Título Original: Star Wars: The Clone Wars.
Gênero: Animação/Aventura/Ficção Científica.
Tempo de Duração: 98 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 2008.
Site Oficial: http://www.starwars.com/clonewars
Estúdio: LucasFilm Ltda.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation.
Direção: Dave Filoni.
Roteiro: Henry Gilroy, Steven Melching, Scott Murphy e George Lucas.
Produção: George Lucas, Catherine Winder e Sarah Wall.
Desenhista: Sianoosh Nasiriziba.
Música: Kevin Kiner.
Desenho de Produção: Dawn Turner.
Direção de Arte: Russell G. Chong e Darren Marshall.
Edição: Jason Tucker.
Elenco (vozes): Matt Lanter (Anakin Skywalker), Ashley Eckstein (Ahsoka Tano), James Arnold Taylor (Obi-Wan Kenobi), Dee Bradley Baker (Capitão Rex, Clones, Cody), Tom Kane (Mestre Yoda), Christopher Lee (Conde Dookan), Nika Futterman (Asajj Ventress), Ian Abercrombie (Chanceler Palpatine, Lorde Darth Sidious), Corey Burton (General Loathsom, Ziro, o Hutt), Catherine Taber (Padmé Amidala), Matthew Wood (Dróides de Batalha), Kevin Michael Richardson (Jabba, o Hutt), David Acord (Rotta, o Hutt), Samuel L. Jackson (Mace Windu) e Anthony Daniels (C3P-O).


Sinopse: Após ter o seu filho seqüestrado, o gangster Jabba, o Hutt, do planeta Tatooine, contata a República e o Conselho Jedi para fazer um trato com estes: caso consigam resgatar a criança, eles terão livre acesso às terras do planeta desértico, poderão realizar operações estratégicas e militares no mesmo e, principalmente, contarão com o apoio de Jabba na guerra contra os separatistas. Para obter êxito em tal resgate o Conselho Jedi envia Anakin Skywalker e a sua jovem Padawan, Ahsoka Tano, para liderarem um grupo de soldados que irão se empenhar na libertação do seqüestrado. Contudo, os separatistas, liderados por Conde Dookan, também têm um forte interesse em adquirir o apoio de Jabba e tentarão o possível a fim de prejudicar a missão liderada por Skywalker.

Star Wars – The Clone Wars – Trailer:



Crítica:

De tanto ouvir a crítica especializada desmoralizar este “Star Wars - The Clone Wars” (agora o megalomaníaco George Lucas não autorizou nem mesmo a tradução do subtítulo do longa) acabei indo ao cinema sem muita expectativa para conferir o mesmo, mas ainda assim, na condição de fã absoluto da série, estava gratificado pela vida ter me dado mais uma oportunidade de poder assistir a mais um episódio desta incrível saga nas telonas. O resultado? Surpreendentemente, adorei o filme.

Que o mesmo conta com uma infinidade de defeitos, em especial os diversos furos de seu roteiro, isso não é nenhuma novidade, mas ainda assim considerei-o um longa divertidíssimo, além, é claro, de nos ofertar outra oportunidade de ficarmos frente a frente com personagens que nos cativaram outrora, como é o caso de Obi-Wan Kenobi, Anakin Skywalker e, certamente, Mestre Yoda.

A estória não deixa de ser interessante, em especial a premissa, mas há um grave problema inserido nela antes mesmo de o filme ter o seu início: a incompatibilidade desta com o subtítulo do longa. Quem vai aos cinemas imaginando que irá presenciar uma ampla abordagem sobre as famosas Guerras Clônicas (mencionadas por Luke Skywalker no quarto episódio da saga, no momento em que ele conhece Obi-Wan Kenobi e fica impressionado quando o segundo lhe revela que participou de tais conflitos) com certeza será negativamente surpreendido.

O roteiro, de fato, aborda ligeiramente as tais Guerras Clônicas, mas estas acabam sendo relegadas ao segundo plano, uma vez que a animação opta por retratar o rapto do filho de Jabba, o Hutt, e os esforços realizados pela República com o intento de resgatar a criança. Certamente é muito interessante assistirmos ao salvamento liderado por Anakin Skywalker e sua nova aprendiz, Ahsoka Tano, mas o problema maior está no propósito do mesmo.

Segundo os membros do Conselho Jedi, caso o resgate do filho de Jabba seja bem sucedido, o Hutt irá colaborar com eles na guerra contra os separatistas e o apoio deste é indispensável para a vitória da República. No entanto, há uma visível discrepância contida nesta missão: se o grande líder do planeta Tatooine é tão poderoso quanto os membros do Conselho Jedi prevêem, por que ele mesmo não se vê capaz de formar o seu próprio exército e resgatar o filho? Ao invés disso, a criatura pede auxílio aos Jedi que, utilizando unicamente dois de seus membros e mais alguns pouquíssimos soldados do gigantesco exército dos Clones, conseguem cumprir a tarefa que um exército inteiro, que aparentava ser tão poderoso a ponto de ser indispensável aos olhos da Federação, não se vê capaz de cumprir com êxito.

Mas os furos do roteiro, infelizmente, não param por aí. Principalmente se analisarmos este “The Clone Wars” da maneira que ele deve ser analisado, como um episódio de ligação entre o segundo e o terceiro capítulo da saga. Em “A Vingança dos Sith”, ficou mais do que claro que um dos maiores motivos que fizeram com que Anakin pendesse ao lado escuro da Força foi justamente a falta de confiança que o Conselho Jedi lhe depositava, relegando-o à posição de um mero coadjuvante, quando na verdade, este, em virtude de seu forte orgulho, almejava ser o protagonista de muitas missões.

Neste “The Clone Wars”, no entanto, o mesmo Conselho que, futuramente, viria negar a Anakin a liderança de missões menos complexas alegando que o jovem Padawan era muito pré-potente, impulsivo e despreparado para tal, atribui ao mesmo, incongruentemente, a responsabilidade de liderar uma tarefa de alta periculosidade, cujo fracasso poderia vir a resultar na derrota da República, durante um dos momentos mais conturbados de toda a sua história.

Incongruente também é a decisão do roteiro que opta por inserir duas personagens cujos destinos ficam em aberto com o término da película. Refiro-me à Ahsoka Tano (que, ao contrário da grande maioria das pessoas, não me irritou profundamente. Longe disso, gostei da inserção da mesma na trama, conforme comentarei mais em breve) e a vilã Asajj Ventress. Se a intenção deste “The Clone Wars” era funcionar como um episódio de liga ao segundo e ao terceiro capítulo, por que então tivemos a inserção de duas personagens que nem ao menos voltariam a aparecer em qualquer um dos dois episódios (“O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) da saga? Se ao menos o roteiro tivesse se incumbido de dar um destino às mesmas, mas nem isso ele fez, simplesmente as inseriu na estória e esqueceu-se de que, no terceiro episódio, nenhuma das duas nem ao menos aparecem e / ou recebem uma singela menção, que seja.

Mas nem tudo no filme são defeitos. Não, muito pelo contrário. É verdade que o roteiro de “The Clone Wars” conta com uma infinidade de furos e erros, conforme fora previamente mencionado, e a animação falha gravemente ao tentar funcionar como amálgama entre “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”, mas se o analisarmos apenas como uma obra de entretenimento, este se revela uma ótima opção.

Contando com seqüências de aventura cujo alto nível de adrenalina somente uma animação poderia nos proporcionar (uma vez que esta confere uma vasta gama de movimentos aos personagens que, se fossem feitos de carne e osso, não contariam com a mesma flexibilidade), o filme é pura tensão, do intróito ao cabo, e suas cenas de ação são extremamente cativantes e envolventes, sobretudo as lutas de sabre de luz.

Evidentemente que nenhuma luta de sabre de luz inserida neste “The Clone Wars” se equipara ao conflito travado entre Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi e Darth Maul em “A Ameaça Fantasma”, ou ainda ao duelo entre Mestre Yoda e Conde Dookan em “O Ataque dos Clones” e, principalmente, à luta travada entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker em “A Vingança dos Sith”, mas não há como negar que a adrenalina proporcionada através dos duelos travados entre Obi-Wan Kenobi e Asajj Ventress, Anakin Skywalker e Conde Dookan (este, inclusive, infinitamente superior à luta ocorrida entre os mesmos protagonistas no início de “A Vingança dos Sith”) e o dificílimo combate entre Ahsoka Tano e três dróides de última geração é fortíssima e faz com que o filme valha cada centavo de seu ingresso.

Muito tem-se comentado também sobre a personagem Ahsoka Tano e o quão irritante esta é. Particularmente, a mesma não conseguiu causar-me quaisquer espécies de neurastenia ou coisas do tipo. Muito pelo contrário, confesso ter me surpreendido com a jovem Padawan. As habilidades presentes nela são incríveis e o trabalho desempenhado pela garota revela-se de suma importância para o êxito da missão. É claro que as vestimentas e os trejeitos egípcios que a caracterizam se mostram um tanto o quanto artificiais e oportunistas (uma vez que Ahsoka caminha, durante boa parte do filme, pelos extensos desertos de Tatooine, que muito nos remete à lembrança do Egito), mas creio que este seja o único detalhe que tenha me deixado verdadeiramente indiferente com a presença da garota (além, é claro, de o roteiro não ter previamente justificado o porquê desta simplesmente não aparecer e, nem ao menos ser mencionada, no terceiro episódio da saga, conforme já fora citado alguns parágrafos acima).

Um outro aspecto que tem sido muito criticado negativamente neste mais novo episódio que carrega o nome da brilhante franquia cinematográfica “Star Wars” é a qualidade técnica de sua animação. Em tempos onde personagens desenhados se mostram quase tão reais quanto personagens de carne e osso, tamanha a evolução tecnológica desenvolvida pelos estúdios da Pixar e da Dreamworks (em especial o primeiro), como é o caso do carismático robozinho protagonista do excelente “Wall-E”, era de se esperar que este “The Clone Wars” conta-se com uma qualidade gráfica bem mais avançada do que a que fora definitivamente apresentada aqui.

No entanto, não sou destes críticos que analisam um filme tomando por base uma outra obra cinematográfica. Olhando por este prisma e analisando “The Clone Wars” individualmente, podemos chegar à conclusão que, se a animação não faz jus a um “Wall-E” ou a um “Kung Fu Panda” no que diz respeito à sua parte gráfica, ela, ao menos, se mostra demasiadamente satisfatória neste quesito e, além de seus personagens terem sido muito bem desenhados, a movimentação destes é bastante convincente (salvo a movimentação ocular, que é a única restrição que faço aos mesmos).

A trilha-sonora também tem sido alvo de críticas extremamente negativas, principalmente vindas por parte dos saudosistas que idolatravam John Williams. Certamente, a genialidade de Kevin Kiner nem ao menos arranha a do compositor responsável pela trilha da saga original, em especial quando o filme se inicia e tomamos ciência de que a clássica música de abertura teve alguns acordes acrescentados, fato que adiciona algumas “gordurinhas” desnecessárias à mesma, mas não há como negar que a mescla de New Metal com Heavy Metal foi uma idéia genial de Kiner (apesar de eu detestar o primeiro sub-gênero musical citado) e torna as seqüências de ação do longa ainda mais eletrizantes do que elas já seriam por si só.

A direção de Dave Filoni também é uma característica que se revela bastante satisfatória. Durante o início do filme, as câmeras se movimentam com bastante versatilidade a fim de acompanhar as batalhas travadas entre a República e os separatistas no planeta Kristophsis. Com o desenrolar da trama, no entanto, a direção de Filoni vai perdendo o seu ritmo, mas ainda assim se mostra satisfatória e convincente o bastante a ponto de chamar a atenção do público até o seu último segundo de projeção, conferindo sempre muita dinamicidade ao longa.

Em suma, “Star Wars – The Clone Wars” é uma animação que conta com inúmeras falhas e furos em seu roteiro e se revela demasiadamente frágil se a analisarmos como um capítulo que serve de amálgama entre o segundo e o terceiro episódios. Contudo, analisando-a individualmente, a animação é bem feita e funciona com bastante eficácia se tomarmos esta apenas como uma obra descompromissada de entretenimento. Seus aspectos técnicos são muito satisfatórios, Dave Filoni realiza uma direção competente, a trilha-sonora, apesar de não se equiparar à de John Williams nem nos sonhos mais bizarros que o espectador possa ter, confere ainda mais ritmo às fascinantes e estonteantes seqüências de ação (estas que, de longe, são a maior qualidade do filme) e os personagens, apesar de conterem algumas falhas, são interessantes em sua maioria.

Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.

sábado, 29 de novembro de 2008

Star Wars - Episódio VI - O Retorno do Jedi - **** de *****

Provavelmente, uma das despedidas mais tristes da história do Cinema. Não que o filme em si, ou o seu desfecho, seja melancólico, longe disso, mas a verdade é que não deve ter sido nada fácil para os fãs da saga (que em 1983 já eram muitos espalhados por todo o mundo) se acostumarem com a idéia de que jamais ouviriam novamente nos cinemas a respiração profunda, assustadora e ofegante do mais marcante vilão que a sétima Arte já nos apresentou. O que seriam dos milhões de nerds lucasmaníacos sem os golpes de sabre de luz desferidos por Luke Skywalker? Sem as batalhas espaciais magistralmente comandadas por Han Solo? Sem o charme e a independência feminina de Leia Organa? Sem os rugidos incompreensíveis de reclamação de Chewbacca? Sem a dinâmica da atrapalhada dupla de dróides R2-D2 e C3PO? Pois é, em 1983 eu nem ao menos havia nascido, ou melhor, nasci apenas no final deste ano, quando o filme já havia estreado, mas mesmo assim já posso imaginar toda a melancolia que se alastrou nos fãs do mundo todo acerca desta magnífica saga que revolucionou o modo de se fazer os chamados “filmes-pipoca”.


Ficha Técnica:
Título Original: Return of the Jedi.
Gênero: Aventura/Ficção Científica.
Tempo de Duração: 131 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 1983.
Site Oficial: www.starwars.com/episode-vi
Estúdio: LucasFilm Ltda.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation.
Direção: Richard Marquand.
Roteiro: George Lucas e Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas.
Produção: Howard G. Kazanjian.
Música: John Williams.
Direção de Fotografia: Alan Hume.
Desenho de Produção: Norman Reynolds.
Direção de Arte: Fred Hole e James L. Schoppe.
Figurino: Aggie Guerard Rodgers e Nilo Rodis-Jamero.
Edição: Sean Barton, Duwayne Dunham e Marcia Lucas.
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic.
Elenco: Mark Hamill (Luke Skywalker), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa), Billy Dee Williams (Lando Calrissian), David Prowse (Darth Vader), James Earl Jones (Darth Vader - Voz), Ian McDiarmid (Imperador Cos Palpatine), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2/Paploo), Peter Mayhew (Chewbacca), Sebastian Shaw (Anakin Skywalker), Frank Oz (Yoda) e Michael Pennington (Moff Jerjerrod).

Sinopse: Após ter sido raptado pelo caçador de recompensas Borba Fett, Han Solo (Harrison Ford) é levado como refém até o gangster Jabba, o Hutt. Luke Skywalker (Mark Hamill) e seus amigos partem em uma missão com o objetivo de resgatar o importante general. Enquanto isso, o Imperador Cos Palpatine (Ian McDiarmid) e Lorde Darth Vader (atuação: David Prowse, voz: James Earl Jones) lideram o projeto de construção de uma nova “Estrela da Morte” (estação espacial super poderosa que havia sido destruída pelos soldados da Aliança Rebelde em “Uma Nova Esperança”) ainda mais poderosa que a anterior. Em uma desesperada e arriscada tentativa de defesa, os líderes da Aliança Rebelde nomeiam Lando Calrissian (Billy Dee Williams) para comandar um ataque à nova estação espacial imperial e Luke Skywalker se prepara para o grande desafio de sua vida: enfrentar e derrotar Darth Vader e Cos Palpatine, tornar-se um verdadeiro cavaleiro Jedi e encerrar com esta guerra de uma vez por todas, trazendo paz e liberdade ao universo.

Return of the Jedi – Trailer:



Crítica:

“O Retorno de Jedi” se inicia com a tentativa frustrada, organizada por Luke, Leia, Lando, Chewbaca, R2-D2 e C3PO, de salvar Han Solo das garras de Jabba, o Hutt. Durante este resgate mal-sucedido, o filme brinda o espectador com figurinos, maquiagem e efeitos visuais simplesmente vislumbrantes. Nunca, em toda a trilogia, os realizadores se mostraram capazes de aproveitar todas as qualidades técnicas da obra a fim de criar uma diversificação tão ampla de criaturas quanto às que nos são apresentadas no início deste último episódio, no reduto de Jabba e os responsáveis pelos efeitos visuais e pela maquiagem se revelam extremamente competentes ao darem um ar ainda mais realista às bizarras criaturas.

Outro ponto forte inserido em tal seqüência inicial reside na criatividade que o roteiro e a direção tiveram ao construí-la. Preste atenção, por exemplo, na riqueza de detalhes utilizada para compor as coreografias e os números de dança realizados na residência de Jabba. Observe também os acordes musicais tocados, remetendo-nos à lembrança de um gênero no melhor estilo free jazz. Tudo aparenta ter sido minuciosamente bem pensado, escrito e executado. O resultado não poderia ter sido melhor.

A entrada de Luke Skywalker em cena também colabora muito para que esta ganhe muito ritmo, uma vez que os poderes de Jedi do jovem protagonista ampliaram-se consideravelmente e a evolução técnica da obra, principalmente no que diz respeito aos efeitos visuais desta, faz com que as seqüências de luta com sabre de luz se tornem muito mais reais e empolgantes e contem com movimentos muito mais ousados que os dos episódios anteriores.

Mas se por um lado tal seqüência revela-se extremamente interessante, analisando-a apenas como entretenimento, por outro lado a mesma revela-se fraca e parcialmente desnecessária do ponto de vista narrativo. Justifico tal afirmativa tomando por base que, apesar de nos mostrar o resgate do general Han Solo (que primeiramente se revela frustrado, mas com a entrada de Luke em cena toma um outro rumo), os minutos iniciais do filme fogem completamente da proposta principal da trilogia que é narrar a guerra estelar entre o Império Intergaláctico e a Aliança Rebelde.

Evidentemente, é uma excelente pedida presenciarmos em um blockbuster (ainda mais um com as proporções de um “Star Wars”) cenas de ação fantásticas regadas com impecáveis efeitos visuais, além, é claro, de contar com uma atriz formosíssima (bem, ao menos, na época, ela era muito formosa, gostosérrima (me desculpem pela vulgaridade, garotas, mas estou sendo sincero), para falar a verdade), do naipe de uma Carrie Fisher, trajando vestimentas apertadíssimas e minúsculas, mas sejamos francos, para que uma seqüência destas dure longos vinte minutos, é necessário, ao menos, que esta tenha um propósito muito maior dentro da trama do que simplesmente mostrar o resgate de um dos protagonistas da mesma, algo que poderia ter sido realizado em cerca de cinco minutos.

Outro defeito presente em tal seqüência é o modo desonroso como Bobba Fett, que havia se revelado um importante e interessante personagem até então, sai de cena: o mesmo é derrotado por Han Solo através de um golpe de sorte e o que já era ridículo consegue piorar ainda mais devido ao fato de o longa utilizar tal cena como alívio cômico. Aliás, a maneira como este “O Retorno de Jedi” se “desfaz” de muitos de seus personagens é um dos maiores defeitos do mesmo. Note, por exemplo, a seqüência que ilustra a morte de um certo personagem, cuja identidade manterei em segredo, que havia cativado imensamente o público. Ele simplesmente diz: “___ Estou velho, preciso descansar.”, e pronto, sai de cena, sem mais nem menos, da maneira menos sutil o possível.

O roteiro, escrito por George Lucas e Lawrence Kasdan, optou, desta vez, por explorar menos os seus protagonistas, inclusive o próprio Darth Vader, e devo reconhecer que esta fora uma sábia decisão, uma vez que o desenvolvimento dos personagens principais já havia sido realizado com maestria nos longas anteriores. Sendo assim, não há nada mais conveniente então, do que o roteiro tomar a inteligente decisão de focar-se, principalmente, em amarrar as pontas deixadas em aberto pelos dois episódios anteriores, deixando os seus protagonistas em segundo plano (salvo o Imperador Cos Palpatine que, pela primeira vez na trilogia, é abordado de uma maneira demasiadamente ampla e torna-se um dos personagens principais deste episódio final), e é justamente isto o que ocorre aqui.

Mas o roteiro conta com diversas falhas e estas, infelizmente, não se resumem aos minutos iniciais do longa, conforme já consta citado neste texto. A artificial revelação sobre o grau de parentesco entre Luke e Leia é o exemplo mais claro disso. Francamente, poucas revelações soaram tão artificiais, desnecessárias e formulaicas na história do Cinema quanto à cena em que Luke revela a Leia que possui um forte grau de parentesco com esta.

A direção de Richard Marquand, que em sua totalidade se revela muito boa, também comete alguns deslizes imperdoáveis e torna os defeitos que já vinham do roteiro ainda mais alarmantes. Vide os alívios cômicos. Em sua grande maioria, são todos infantis, desnecessários, tolos. Ao menos desta vez o casal Leia e Han se mostra mais maduro e Marquand dirige o romance entre ambos de maneira convincente e nada irritante. Sem dúvida alguma foi a melhor química entre ambos durante toda a saga.

As seqüências de aventura foram extremamente bem distribuídas pelo roteiro e estas colaboram, e muito, para que o filme jamais se torne cansativo e/ou visivelmente longo (salvo a seqüência inicial, conforme já fora comentado). Contudo, o roteiro se esquece de algo importantíssimo ao criar tais cenas: deve-se sempre dar prioridade ao qualitativo e relegar o quantitativo ao segundo plano. “O Retorno de Jedi” é o episódio da saga que conta com mais cenas de ação, contudo, nenhuma destas chega aos pés da perseguição espacial entre Han Solo e as naves imperiais dentro de uma tempestade de asteróides no episódio anterior, ou, principalmente, do ataque que a Aliança Rebelde realiza à estação espacial “Estrela da Morte” no episódio original. Parte desse defeito deve-se ao diretor Richard Marquand que, apesar de criar ângulos satisfatórios enquanto dirige tais cenas, não se mostra capaz de dar a estas a mesma sensação de urgência e perigo imediato que os diretores George Lucas e Irvin Kershner conseguiram fazer com maestria nos, respectivamente, quarto e quinto episódios.

Mesmo com todos os defeitos já relatados neste texto, não há como negar que “O Retorno de Jedi” é um ótimo filme e conta com muito mais qualidades do que defeitos. A maior qualidade do longa, muito provavelmente, fica por conta da maneira como este consegue amarrar algumas pontas deixadas pelos episódios anteriores de maneira natural. Certamente, a morte de muitos personagens (dois em especial) aqui soa extremamente artificial e parece ser mais uma jogada do roteiro, como se este tivesse a obrigação de dar fim a tais personagens e, seja pela falta de tempo, criatividade, ou até mesmo, força de vontade, o faz de modo nada convincente. Ainda assim, os roteiristas Lucas e Kasdan se preocupam em criar um desfecho extremamente interessante à trama e aos seus respectivos protagonistas.

A dinâmica desenvolvida entre Luke Skywalker e Darth Vader também é outro ponto extremamente forte e relevante deste episódio final, principalmente depois da revelação ocorrida em “O Império Contra-Ataca”. E se no longa anterior a luta entre ambos já se mostrava extremamente tensa e dramática, imagine só neste “O Retorno do Rei” o impacto emocional que a mesma causa, principalmente quando sabemos que ali, um dos dois irá encontrar o seu trágico fim, além, é claro, desta vez estarmos cientes do grau de parentesco entre ambos, uma vez que no longa anterior Vader faz a revelação a Luke somente após a luta ter se encerrado.

E a carga dramática entre Vader e Skywalker certamente não reside apenas no dramático combate final entre ambos (que se revela a melhor luta de sabres de luz de toda a trilogia, apesar de não chegar aos pés da maioria das seqüências de ação dos dois episódios anteriores), muito pelo contrário. O âmago de tal química encontra-se nos diálogos entre o mocinho e o vilão da estória. O primeiro, tenta convencer o outro de que ainda há bondade nele e há a possibilidade deste voltar a atuar pelo lado iluminado da Força, ao passo que o segundo, tenta desesperadamente compenetrar o jovem Jedi a seguir o lado escuro da Força e derrotar o Imperador de uma vez por todas, assumindo o controle total do império ao seu lado.

Falando no imperador Cos Palpatine, a aparição deste também aumenta, e muito, o peso dramático do filme. Nos longas anteriores víamos Palpatine apenas através de hologramas, neste episódio de encerramento, presenciamos o mesmo em carne e osso, durante muitas cenas do filme e pode apostar, apesar deste não possuir traços tão marcantes quanto os de Vader, ele se revela tão assustador quanto o seu subordinado. Outra característica marcante de Palpatine reside na oratória deste. Sempre disposto a persuadir às pessoas a seguirem os seus ideais ao invés de simplesmente descarregar seus poderes nestas, o imperador apela a Luke para que este se junte a ele utilizando sempre diálogos extremamente convincente, como por exemplo a cena em que mostra ao rapaz as terríveis baixas que a Aliança Rebelde está sofrendo no confronto direto com o Império e que a única possibilidade de salvá-los é justamente unindo-se ao lado escuro da Força. O imperador também desempenha um papel muito importante para o destino final de Vader e Skywalker e colabora para que o combate entre ambos tenha um resultado final tão dramático quanto teve no longa anterior.

Apesar de ficar bem aquém aos outros dois episódios da saga, “O Retorno de Jedi” conta com um roteiro que se preocupa em amarrar, de maneira fascinante (salvo em um outro caso onde se mostra extremamente artificial ao fazê-lo), as pontas que os seus antecessores deixaram em aberto e desenvolve a química entre Luke Skywalker e Darth Vader de um modo épico. O imperador Cos Palpatine, que antes só nos era apresentado via hologramas, aparece em carne e osso neste episódio final e ganha uma abordagem digna de líder de Darth Vader. Os aspectos técnicos do filme são fantásticos, a direção de arte cria cenários inesquecíveis e os efeitos visuais são os melhores de toda a trilogia, além, é claro, de possibilitarem com que as lutas de sabre de luz sejam mais realistas e empolgantes que as dos filmes anteriores. O longa, no entanto, se revela falho em muitos de seus aspectos, sobretudo pelo início desnecessariamente longo, pelos alívios cômicos pífios e, principalmente, por não contar com seqüências de aventura realmente marcantes, como os episódios anteriores conseguiram fazer. Um ótimo filme, mas não há como negar que a saga “Star Wars” merecia um desfecho bem mais digno.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Star Wars - Episódio V - O Império Contra - Ataca - ***** de *****

É uma grande honra e um grande esmero para mim, poder, finalmente analisar este quinto episodio da saga “Star Wars”. Que venerei veementemente a mesma durante a minha infância, isso todos que acompanham o meu trabalho já sabem, agora, o meu carinho em especial por este quinto episódio está sendo revelado em primeira mão aqui, nesta pré crítica do longa. Sinceramente, não consigo descrever, demonstrar em palavras, o quão importante esta verdadeira Obra-Prima do Cinema fora para o desenvolvimento de minha paixão pela Sétima Arte. Meu pai lembra-me até hoje da minha reação enquanto assistia ao filme pela primeira vez e, ao ver o protagonista Luke desconcentrando-se de seu treinamento para se tornar um Jedi, acabara, involuntariamente, derrubando o simpático dróide R2-D2. Curioso como sempre fui (e agora, sabe-se lá o porquê, não sou mais), tratei de perguntar ao meu progenitor: “Pai, por que o R2 caiu?”. Sei que a frase é clichê, mas enfim: “Bons tempos aqueles”.

Ficha Técnica:
Título Original: The Empire Strikes Back.
Gênero: Aventura / Ficção Científica.
Tempo de Duração: 124 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 1980.
Estúdio: LucasFilm Ltda.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation.
Direção: Irvin Kershner.
Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas.
Produção: Gary Kurtz.
Música: John Williams.
Direção de Fotografia: Peter Suschitzky.
Desenho de Produção: Norman Reynolds.
Direção de Arte: Leslie Dilley, Harry Lange e Alan Tomkins.
Figurino: John Mollo.
Edição: Paul Hirsch e Marcia Lucas.
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic.
Elenco: Mark Hamill (Luke Skywalker), David Prowse (Darth Vader), James Earl Jones (Darth Vader - Voz), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa), Frank Oz (Yoda - Voz), Jeremy Bulloch (Boba Fett/Tenente Sheckil), Billy Dee Williams (Lando Calrissian), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2), Peter Mayhew (Chewbacca) e Clive Revill (Imperador Cos Palpatine - Voz).
Sinopse: Após ser descoberta pelos exércitos imperiais, a Aliança Rebelde opta por montar a sua base de operações militares em um local discreto, onde o império jamais possa encontrá-los com facilidade. Entretanto, o Senhor do Mal: Lorde Darth Vader (atuação: David Prowse, voz: James Earl Jones), envia sondas aos sistemas solares mais longínquos do espaço sideral a fim de localizar seus inimigos e o plano funciona perfeitamente. Após uma batalha fortíssima contra o Império, os rebeldes têm muito de seu potencial enfraquecido e decidem fugir para não serem capturados. Luke Skywalker (Mark Hamill) recebe uma visita de seu antigo tutor Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) e este lhe aconselha a procurar por Mestre Yoda (Frank Oz) dando início ao seu treinamento para tornar-se um Jedi. Han Solo (Harrison Ford), Princesa Leia Organa (Carrie Fischer), Chewbaca (Peter Mayhew), R2-D2 (Kenny Baker) e C3PO (Anthony Daniels) conseguem escapar ilesos da frota espacial imperial, mas a sua nave é seriamente atingida e necessita fazer reparos. Para isso, Han Solo decidi ir até Curoscant, encontrar-se com Bobba Fett (Jeremy Bulloch), um velho conhecido, e solicitar-lhe auxílio com os reparos.

Star Wars – Episode V – The Empire Strikes Back – Trailer:


Crítica:

Peço ao leitor que me responda rapidamente a seguinte questão: qual é a primeira coisa que lhe vem à mente quando se pensa em “Star Wars”? Aposto que 90% das pessoas que leram esta pergunta responderam: Darth Vader, estou errado? Pois é, não há como negar que, por mais que personagens como Luke Skywalker, Capitão Han Solo, Princesa Leia, Chewbaka, Mestre Yoda, Obi-Wan Kenobi, e até mesmo os robôs R2-D2 e C3PO nos cativem amplamente, a alma da trilogia é o senhor das trevas: Lorde Darth Vader. Só para se ter uma idéia, em quase todas as listas, elaboradas por cinéfilos, com o intento de eleger os melhores vilões da estória do Cinema, adivinhe só quem encabeça as mesmas com unanimidade? Sim, ele mesmo, Lorde Darth Vader.

Mas o que faz de Vader este personagem tão marcante? Tão onipresente na memória da grande maioria dos fãs da sétima Arte? Seria a sua respiração assustadora e ofegante? Seria a sua fantasia aterrorizadoramente sombria e escura? Seria sua voz vibrante e penetrante? Seriam seus poderes devastadores de Lorde Sith (vide o modo como ele é capaz de sufocar um sujeito que está a anos luz de distância dele)? Creio que seja tudo isso e muito mais, em especial o lado psicológico deste. Vader passa a causar interesse no espectador a partir do momento em que, no episódio anterior, exatamente no intróito do filme, ficamos sabendo, através de Obi-Wan Kenobi, que o vilão já fora um promissor Jedi outrora, mas converteu-se ao lado negro da Força e exterminou a grande maioria dos mestres Jedi. Quais os motivos que levariam um promissor defensor do lado iluminado da Força a tornar-se aquilo que mais odiava? Particularmente, creio que seja exatamente isto que torna Vader um objeto de estudo tão interessante, o modo como o roteiro explora o seu lado psicológico e o transforma em um simples produto do meio e das circunstâncias que este lhe proporcionou. Por mais poderoso que Vader seja, não há como negar que ele possuía inúmeras fraquezas a ponto de ter sua ideologia de vida drasticamente convertida, deslocando-se de uma polaridade para outra, fato que o torna um vilão vulnerável, ou seja, muito mais palpável de se absorver em um contexto real.

Contudo, conforme mencionei em minha crítica, em “Uma Nova Esperança” o grande vilão desta saga acabou não sendo explorado da maneira profunda com que deveria ter sido. Se por um lado o episódio anterior ganha pontos ao conferir vulnerabilidade a Vader, tornando-o um reles subordinado do Comandante Vanden Willard, por outro lado falha na construção do personagem, fazendo-o não cativar o público tanto o quanto deveria. Neste “O Império Contra-Ataca” a situação se inverte. Optando sabiamente por escreverem um roteiro que dá total ênfase ao vilão, Leigh Brackett e Lawrence Kasdan fazem de Vader o âmago deste quinto episódio e, indiscutivelmente, a maior qualidade deste.

A direção de Irvin Kershner é outro ponto fortíssimo do longa e se mostra extremamente competente ao conduzir as cenas protagonizadas por Vader, fazendo com que as mesmas causem o impacto que o roteiro tanto almeja. Note, por exemplo, a perfeição que é o primeiro plano-seqüência, onde vemos o Senhor do Mal dar as caras neste quinto episódio pela primeira vez. Começamos com a brusca movimentação das naves do império pela galáxia, procurando insaciavelmente por membros da Aliança Rebelde. A música Imperial March, brilhantemente orquestrada pelo mestre John Willians, é ressoada de maneira que cause um impacto direto no espectador e, finalmente, vemos Lorde Darth Vader sentado em sua majestosa poltrona. Uma cena arrepiante, marcante, magistralmente bem realizada por Kershner, que confere uma união perfeita entre vários aspectos do longa (direção, direção de arte, trilha-sonora, fotografia, figurino e, é claro, roteiro) e que, por si só, já faz com que o espectador necessite dar uma conferida na obra, mesmo que este não se interesse pela trilogia.

Mas é óbvio que “O Império Contra-Ataca” não se resume apenas a Darth Vader. Contando com um roteiro fabuloso que apresenta uma carga dramática maior que o filme original, este quinto episódio se mostra inquestionavelmente formidável em quase todos os seus aspectos. Comecemos pelo desenvolvimento de seus demais personagens. Em “Uma Nova Esperança”, o longa contava com um ponto indispensável a todo o episódio de abertura de série (ou saga, caso o leitor prefira) que se preze: a aprofundada abordagem de seus protagonistas (salvo Darth Vader, conforme fora previamente mencionado). Este “O Império Contra-Ataca”, contudo, opta engenhosamente por não tentar desenvolver seus personagens de uma maneira individual (coisa que o filme anterior fizera com maestria), o que faria com que o mesmo perdesse muito tempo inutilmente, e o faz através da química elaborada entre dois ou mais personagens e/ou mediante as situações as que os mesmos são respectivamente submetidos.

Há, no entanto, uma falha gravíssima contida no roteiro de “O Império Contra-Ataca” quando este desenvolve a química existente entre dois determinados personagens do longa. Refiro-me a Han Solo e Leia. O flerte entre ambos que havia se iniciado de maneira conveniente e satisfatória no filme anterior, beira o ridículo aqui, obrigando o espectador a se conformar com diálogos forçados e artificiais do tipo: “___ Sei que você me ama, não adianta disfarçar.” ou “___ No fundo você adoraria ficar com um cara bonitão como eu.”. Não bastasse isso, temos uma série de piadinhas ridículas em cima do romance entra ambos e, francamente, não há como não se irritar com a química desenvolvida entre os personagens de Ford e Fisher, pois eles formam o típico casal clichê: “nos odiamos, mas, no fundo, nos amamos!”.

Menos artificial e mais satisfatória é a fantástica química desenvolvida entre o protagonista Luke Skywalker e seu mais novo mentor, o ex-líder do Conselho Jedi: Mestre Yoda. Contando com diálogos cuja superioridade se mostra ululante aos de Han e Leia, o bizarro, mas ainda assim estranhamente cativante, Mestre Yoda dá a Luke (e a nós, espectadores), lições sobre paciência, autoconfiança, plenitude e estabilidade emocional e racional. A inserção do mestre Jedi na trilogia antiga foi um dos pontos mais altos da mesma e não é a toa que este tornou-se um personagem quase tão marcante quanto o próprio Darth Vader. Luke Skywalker também é muito bem desenvolvido em função de tal química, sobretudo a rebeldia do mesmo (note a maneira como este reluta em relação a algumas exigências de Yoda e no modo como ele não segue o conselho do mentor, abandonando-o para salvar os amigos) que muito difere dos dogmas estoicistas adotados por seu pai no primeiro episódio da saga.

As seqüências de aventura também são ótimas e, apesar de ficarem bem aquém das do quarto episódio, se revelam altamente dinâmicas. Ao contrário da grande maioria dos filmes de aventura, a saga “Star Wars” parece preocupar-se em criar situações onde os protagonistas realmente se encontrem em total perigo e nós, espectadores, consigamos desenvolver um elo emocional com os mesmos, praticamente adentrando na pele destes e passando pelos mesmos perigos que eles também passam. A seqüência em que Solo e Léia, a fim de fugir e despistar as naves imperiais, adentram uma tempestade de meteoros e correm seriíssimo risco de vida é uma prova cabal disto. Ainda mais emocionante e tensa é a seqüência inicial em que o Império descobre a nova base de operações da Aliança Rebelde e comanda um ataque à mesma (esta seqüência torna-se ainda mais eficiente quando Darth Vader entra em cena).

“O Império Contra-Ataca” conta também com uma direção de arte que beira à perfeição (principalmente se levarmos em conta a época em que o filme fora produzido). Desta vez, as naves são ainda mais bem detalhadas que no episódio anterior, conferindo ainda mais realismo às mesmas. Os cenários também são fantásticos, em especial Curoscant vista do alto, uma cidade incrivelmente futurística entre as nuvens, algo que incita à imaginação do espectador e confere um crédito ainda maior a toda magia que envolve a obra. Simplesmente fantástico.

Os efeitos visuais também não ficam muito atrás. Da mesma forma que a caracterização do gangster Jabba, the Hutt, impressionava os espectadores pela sua aparência quase real, o mesmo ocorre com o inesquecível Mestre Yoda, mas com uma grande diferença: Yoda, aqui, é ainda mais convincente e real que Jabba, uma vez que seus movimentos são muito menos lentos que os daquele. Outra grande evolução que o filme obteve neste quesito foram as lutas com sabres de luz que ganharam muito mais dinâmica graças aos efeitos visuais. Tais efeitos colaboraram, e muito, para que a luta ocorrida entre Luke e um personagem cuja identidade manterei oculta fosse extremamente emocionante (é claro que se compararmos tal duelo com os ocorridos nos filmes da nova trilogia, estes empalidecem bastante) e se tornasse a cena mais importante de toda a saga “Star Wars”, além, é claro, de ser considerado uma das 10 cenas mais importantes da história do Cinema.

E já que mencionei tal cena, creio que deveria destinar um parágrafo inteiro apenas a esta, tamanha a importância da mesma. Conferindo uma carga dramática extremamente importante e envolvente à seqüência em questão, os roteiristas Leigh Brackett e Lawrence Kasdan souberam perfeitamente como criar de maneira extremamente sutil o clima necessário para que a mesma soasse surpreendente (na verdade, ela é surpreendente apenas para quem ainda não assistiu aos Episódios I, II e III) e emocionante na medida certa. A inserção do diálogo “___ Luke, você é meu filho” também não poderia ter sido realizada de maneira mais conveniente e impactante. Irvin Kershner também se mostra competente o bastante na condução da cena, pois sabe da importância que ela tem para a trilogia de um modo geral e proporciona ao espectador um dos maiores espetáculos já promovidos pela Sétima Arte.

Por fim, a sensação lúgubre que este quinto episódio nos proporciona em relação às incertezas acerca dos futuros dos respectivos protagonista da estória é, não menos, que majestosa e fantástica, pois faz com que roamos as unhas de tensão ao imaginar o que virá pela frente, com o sexto e último (ao menos por enquanto) episódio da saga. E, convenhamos, não há maior toque de genialidade que um filme pertencente à uma trilogia pode causar em seu espectador do que este: deixá-lo assíduo para conferir o próximo episódio sem precisar apelar para artificialidades de roteiro.

Abordando o mais carismático personagem de toda a saga de um modo demasiado aprofundado, “Star Wars – Episódio V – O Império Contra-Ataca” se mostra amplamente matreiro no desenvolvimento deste e, de quebra, cria o maior e mais importante vilão de toda a história do Cinema. Apresentando uma carga dramática bem superior ao filme anterior, este quinto episódio ainda ganha um importantíssimo destaque devido a uma revelação bombástica ocorrida no terceiro ato de sua trama. O desenvolvimento entre os personagens é perfeito, uma vez que este é realizado a partir da química existente entre dois ou mais deles, salvo, é claro, a química desnecessariamente infantil elaborada entre Han Solo e Léia Organa. As seqüências de aventura deixam um pouco a desejar comparadas ao filme anterior, mas são excelentes e tensas o bastante, analisando-as individualmente. O melhor filme de toda a saga.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Star Wars - Episódio IV - Uma Nova Esperança - ***** de *****

Uma das questões mais polêmicas envolvendo a crítica de Cinema encontra-se na eterna discussão sobre a avaliação de um filme ser realizada tomando por base a época de lançamento deste ou o modo como o mesmo envelheceu. Sempre fui crítico ferrenho das análises que levam em conta o envelhecimento do filme. Em primeiro lugar, porque a crítica, na grande maioria dos casos, avalia filmes que estão estreando nos cinemas de seu respectivo país e, muito dificilmente, avaliará os mesmos daqui a cinco anos, que seja. Sendo assim, se a grande maioria dos filmes que são criticados têm por base o período em que foram lançados, por que não fazer o mesmo com os clássicos? Em segundo lugar temos os filmes que revolucionam em sua parte técnica, como é o caso de obras do naipe de um “Metropolis”, “King Kong”, “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e, obviamente, este “Star Wars – Episódio IV – Uma Nova Esperança”. Em 1977 ninguém ousaria dizer que este quarto episódio da saga (quarto cronologicamente falando, pois foi o primeiro a ser lançado nos cinemas do mundo todo) conta com efeitos visuais obsoletos, muito pelo contrário, o filme era altamente inovador na época no que diz respeito a este quesito. Entretanto, se o analisarmos fazendo um paralelo com os filmes atuais (inclusive com a nova trilogia – “Star Wars”, que engloba os episódios I, II e III da saga, cujas críticas encontram-se nesta seção do site, logo mais abaixo), o longa, muito bem dirigido por George Lucas, poderá ser tido como obsoleto no que se refere a efeitos visuais. E sejamos francos, podemos considerar uma obra-prima desta magnitude obsoleta? Certamente que não.


Ficha Técnica:
Título Original: Star Wars.
Gênero: Aventura/Ficção Científica.
Tempo de Duração: 121 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 1977.
Estúdio: LucasFilm Ltda.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation.
Direção: George Lucas.
Roteiro: George Lucas.
Produção: Gary Kurtz.
Música: John Williams.
Direção de Fotografia: Gilbert Taylor.
Desenho de Produção: John Barry.
Direção de Arte: Leslie Dilley e Norman Reynolds.
Figurino: John Mollo.
Edição: Richard Chew, Paul Hirsch e Marcia Lucas.
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic.
Elenco: Mark Hamill (Luke Skywalker), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa), Peter Cushing (Grand Moff Wilhuff Tarkin), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2), Peter Mayhew (Chewbacca), David Prowse (Darth Vader), Phil Brown (Tio Owen Lars), Shelagh Fraser (Tia Beru Lars), Alex McCrindle (General Jan Dodonna), Eddie Byrne (Comandante Vanden Willard) e James Earl Jones (Darth Vader - Voz).

Sinopse: Após o seu tio adquirir dois andróides para auxiliá-lo nos afazeres de sua fazenda, Luke Skywalker (Mark Hammil) descobre em um deles uma mensagem gravada pela belíssima princesa Leia Organa (Carrie Fisher) para o cavaleiro Jedi Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness). Luke decide então procurar o velho Jedi para informar-lhe sobre a mensagem e é a partir deste momento que ambos ficam sabendo que Leia fora seqüestrado e que o Império Galáctico (que assumiu o controle absoluta da Federação no episódio anterior), comandado por Lord Darth Vader (atuação de David Prowse e voz de James Earl Jones), planeja construir uma poderosa estação espacial alcunhada de Estrela da Morte, cuja capacidade de ataque é tão potente que se mostra capaz de destruir um planeta inteiro em fração de segundos. Ambos procuram pelo capitão Hans Solo (Harrison Ford), um piloto mercenário que os leva até a Estrela da Morte e os ajudará a resgatar a princesa Leia e a destruir esta terrível ameaça.
Star Wars - Episode IV - A New Hope - Trailer:

Crítica:

A sensação que se tem ao assistir a este “Uma Nova Esperança” é a de que estamos assistindo a três filmes diferentes, conectados em um só, tamanha a riqueza de detalhes inserida no mesmo. O primeiro “filme” visa desenvolver os seus personagens e nos apresentar a estória de um modo menos amplo. O segundo “filme” já tem como objetivo principal explorar a estória abordada na primeira parte e delinear mais a mesma. O terceiro “filme”, por fim, visa ampliar a outra estória também discutida na primeira parte do longa mostrando o embate final entre a Aliança Rebelde e o Império Galáctico auxiliado pela sua estação espacial alcunhada de “Estrela da Morte”.

A abordagem de todos os personagens é simplesmente fantástica. Ao contrário dos três primeiros episódios da saga, todos os personagens que fazem parte da estória têm uma função importante para o desenvolvimento e conclusão da mesma e isso inclui até mesmo os dróides R2-D2 (Kenny Baker) e C3PO (Anthony Daniels) que, além de servirem como alívio cômico em muitos casos (e, desta vez, a maioria das gags protagonizada por ambos funcionam muito bem e extraem risos do público, ao contrário dos episódios anteriores onde tínhamos empregado um humor demasiado infantilóide em muitas cenas), desempenham, em muitos casos, um papel importantíssimo na trama.

Os personagens principais da estória também são abordados magistralmente pelo roteiro. Luke Skywalker (Mark Hammil), como protagonista da trama, convence muito mais que seu pai Anakin. O jovem é um típico adolescente sonhador cujo conservadorismo do tio, que é tutor do mesmo, o impede de ir para uma faculdade e seguir uma carreira que realmente lhe atraia. Bem diferente de Anakin Skywalker do primeiro episódio, que também residia no planeta Tatooine, Luke é um jovem de bom caráter, mas ainda assim se mostra impulsivo, rebelde, contestador e possui uma personalidade forte.

Os demais personagens também são muito bem desenvolvidos pelo roteiro e merecem destaque nesta análise. Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), que terminara o episódio anterior como um grande herói da República, agora, com a queda desta, aparece aqui como um velho eremita, tido como louco e bruxo aos olhos daqueles que não o conhecem, e nem fazem questão de o conhecer mais amplamente. A princesa Leia (Carrie Fisher), apesar de ser a mocinha que precisa ser resgatada, não segue, nem de longe, o estereotipo desta. Destemida, contestadora e de forte personalidade, mas ainda assim bela, garbosa e inteligente, a personagem é extremamente marcante e se mostra capaz de cativar o público.

Há, no entanto, dois personagens cujo desenvolvimento deixou um pouco a desejar. Refiro-me ao capitão Hans Solo (Harrison Ford) e, acreditem ou não, ao comandante Darth Vader (atuação de David Prowse e voz de James Earl Jones). Começarei pelo primeiro, uma vez que o segundo, certamente, gerará mais polêmica. Solo é um personagem deveras interessante. Seu código de ética e moral parece ter graves falhas e suas atitudes nem um pouco altruístas o tornam um personagem interessantíssimo, principalmente se levarmos em conta que ele é um dos heróis da estória. Todas estas características o colocam em uma posição bem distante do estereotipo do herói altruísta e estóico que estamos acostumados a ver repetidamente nos filmes do gênero. Contudo, há uma passagem ocorrida no final do filme onde Solo toma uma atitude tão discrepante com relação aos seus princípios morais que põe em jogo todo esta concepção de “mercenário que só se preocupa com dinheiro” que havíamos absorvido do mesmo durante a projeção inteira. A justificativa utilizada por este (“___ Não deixaria você (Luke) ficar com a glória toda só para si”) torna a sua atitude um pouco menos artificial, mas ainda assim a mesma não deixa de ser discrepante.

Darth Vader, por sua vez, conta com características para lá de notáveis, que variam deste a sua vestimenta, que nos remete à sensação de estarmos diante de um personagem meio-humano, meio-máquina, à sua assustadora respiração lenta e profunda, passando por seu tom de voz marcante e suas habilidades de ex-cavaleiro Jedi, agora importante Lord Sith. Sempre que Vader está em cena o filme ganha ainda mais destaque, mas o roteiro, infelizmente, não deu a devida importância ao mesmo, sendo que as suas aparições na película acabam sendo poucas, comparadas à importância que este tem para toda a saga “Star Wars”.

O elenco está extremamente bem entrosado e a química entre os atores é um dos pontos mais altos do longa. Note, por exemplo, como as cenas em que Luke Skywalker contracena com Obi-Wan Kenobi conferem um tom bastante especial à trama. O mesmo ocorre com a química existente entre o capitão Hans Solo e a princesa Leia Organa ou então a dinâmica ocorrida nas cenas em que o mesmo Hans Solo contracena com o já citado Luke Skywalker. E é claro que não poderia deixar de destacar a dupla de dróides R2-D2 e C3PO e, até mesmo a cena onde Obi-Wan Kenobi enfrenta Darth Vader que, apesar de curtíssima, confere um tom especial à trama e a química decorrente da transigência das atuações.

Do ponto de vista individual o elenco também demonstra atuações magníficas, em especial por parte de Mark Hammil e Alec Guiness. O primeiro, se mostra um ator extremamente convincente e chama para si a responsabilidade de protagonizar o longa, sem que, para isso, precise roubar a cena dos demais atores. Hammil demonstra um tom de voz seguro, profere seus diálogos com extrema segurança, é hábil em sua interpretação, se mostra extremamente expressivo e carismático. Guiness também realiza uma atuação segura e confere ao seu personagem uma participação muito mais marcante do que a de McGregor nos primeiros episódios (nada contra o ator escocês, já que o ator realizou uma atuação convincente, mas nada que se aproxime da que Guiness realizou neste quarto episódio). O tom de voz empregado pelo ator também outorga ao seu personagem todo o ar de sapiência que lhe é inerente, uma vez que, neste quarto episódio, Obi-Wan adota uma postura de mentor intelectual (fato que também colabora para que o espectador se envolva bem mais com este mestre Kenobi que o protagonista dos episódios anteriores).

As seqüências de ação são todas bem empolgantes e Lucas as dirige de maneira sublime, ainda que movimente a câmera de maneira apenas satisfatória (salvo em uma ou outra seqüência quando arrisca realizar algum travelling) na grande maioria das vezes, o diretor sempre se mostra capaz de conferir mais tensão às mesmas, criando ângulos fantásticos a fim de acompanhá-las (vide, por exemplo, a seqüência em que Luke e Solo confrontam as naves imperiais durante o início do terceiro ato do filme). Dentre as cenas de aventura, destaco, é claro, uma das cenas mais clássicas de toda a saga: o ataque das naves rebeldes realizado à estação espacial “Estrela da Morte”. Francamente, não me recordo de ter assistido a outra cena produzida pela sétima Arte onde os heróis da trama se mostravam expostos a um perigo de vida tão iminente quanto George Lucas os expôs na seqüência em questão.

Há outras cenas de aventura também que merecem muitíssimo destaque, tais como: o resgate da princesa Léia, os tiroteios ocorridos nos corredores da “Estrela da Morte”, a seqüência em que os personagens caem no compartimento de lixo da estação espacial (um exemplo de que pode-se realizar uma cena perfeitamente tensa sem apelar ao uso de efeitos visuais mirabolantes ou gastar rios de dinheiro para tal), a conturbada fuga dos heróis que resulta em uma das perseguições espaciais mais marcantes da história do Cinema (e que empalidece a ótima perseguição espacial ocorrida entre Obi-Wan Kenobi e Jango Fett em “Ataque dos Clones”) e, como não poderia deixar de ser, a luta final de sabres de luz travada entre o Jedi Kenobi e o Sith Darth Vader que, apesar de ter envelhecido mal em virtude dos efeitos especiais da época estarem obsoletos nos tempos atuais, principalmente se levarmos em conta os efeitos empregados para conduzir as lutas do gênero ocorridas na trilogia atual, é extremamente marcante em virtude da maneira como se encerra e marcou uma geração inteira, aja visto que fora a primeira luta com armas desta categoria exibida nos cinemas.

Encerrando este texto, gostaria de comentar outros qautro aspectos que também marcaram este filme e o elevou à mais do que merecida intitulação de clássico absoluto do Cinema: refiro-me à trilha-sonora, ao figurino, à direção de arte e aos efeitos visuais. A primeira, como todos sabem, é marcante e figura facilmente entre as melhores da história do Cinema. A música tema é cativante, parece ter vida própria, só falta respirar (será?). As demais músicas também são fantásticas e realizam um casamento praticamente perfeito com as respectivas cenas em que são empregadas. O figurino, por sua vez, não poderia ser mais perfeito. Quem imaginaria, em plena década de 70, ver nos cinemas um homem com um traje igual ao de Darth Vader? Ou um uniforme igual ao do exército imperial? A direção de arte também é impecável, repare, por exemplo, na riqueza de detalhes das espaço-naves ou nos edifícios do planeta Tatooine. Os efeitos visuais, apesar de estarem ultrapassados se comparados aos filmes atuais foram revolucionários na época, e não é para menos. Imagine a sensação que se tem, em pleno ano de 1977, você ir ao cinema e se deparar com uma criatura como Jabba – The Hutt? E o que dizer então da perfeição com que os efeitos visuais construíram o personagem, dando ao mesmo movimentos bastante naturais?

Considerado pela grande maioria dos cinéfilos como a Ficção Científica de Cultura Pop definitiva, “Uma Nova Esperança” pode ser encarado como um marco na história do Cinema por ter dado início a uma das mais bem sucedidas (tanto do ponto de vista comercial como artístico) franquias já realizadas até os dias de hoje. O longa conta com algumas falhas na construção de alguns poucos personagens e a estória de resgate adotada aqui é um pouco batida, mas os seus protagonistas são bastante cativantes e o roteiro os aborda de um modo que os torna ainda mais marcantes. As atuações de todo o elenco são mais do que satisfatórias e os atores possuem uma química fantástica entre si. O filme se enriquece ainda mais com a ótima direção de George Lucas e outros aspectos tais como: edição, trilha-sonora, direção de arte, figurino, efeitos sonoros, efeitos visuais e, é claro, suas seqüências de aventura, que são tensas e memoráveis na medida certa. Uma aventura indiscutivelmente digna de toda a badalação que possui.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Star Wars - Episódio III - A Vingança dos Sith - **** de *****

Lembro-me que quando fui assistir a este terceiro episódio no cinema (desta vez sozinho, como eu gosto) meu fanatismo pela saga “Star Wars” havia sido reduzido consideravelmente (foi em 2.005, eu estava com 21 anos na ocasião), principalmente em virtude do impacto que a trilogia “O Senhor dos Anéis” havia causado em mim e também pelo fato de, na época, os meus gostos cinematográficos estarem completamente voltados aos filmes cult de Arte, sendo assim, ao invés de passar algumas horas assistindo a um blockbuster eu preferia muito mais aproveitar o tempo assistindo a um Kubrick, ou um Bergman, ou um Fellini. Felizmente venci o preconceito que possuía na época e, atualmente, apesar de preferir muito mais os chamados cult de Arte, valorizo, e muito, os blockbusters. Tendo em vista isso, vejo-me capaz agora de avaliar este longa como o mesmo realmente deve ser avaliado: como um ótimo filme comercial.


Ficha Técnica:
Título Original: Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith
Gênero: Aventura / Ficção Científica
Tempo de Duração: 146 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2005
Estúdio: Lucasfilm Ltd.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corp.
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Produção: Rick McCallum
Música: John Williams
Fotografia: David Tattersall
Desenho de Produção: Gavin Bocquet
Direção de Arte: Ian Gracie, Phil Harvey, David Lee e Peter Russell
Figurino: Trisha Biggar
Edição: Roger Barton e Ben Burtt
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic

Elenco: Hayden Christensen (Anakin Skywalker / Darth Vader), Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Ian McDiarmid (Chanceler Supremo / Imperador Palpatine / Darth Sidious), Natalie Portman (Senadora Amidala / Padmé Naberrie-Skywalker), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Christopher Lee (Conde Dooku / Darth Tyranus), Anthony Daniels (C-3PO), Kenny Baker (R2-D2), Peter Mayhew (Chewbacca), Frank Oz (Yoda - voz), Jimmy Smits (Senador Bail Organa), Genevieve O'Reilly (Senador Mon Mothma), Ahmed Best (Jar Jar Binks), Jay Laga'aia (Capitão Typho), Joel Edgerton (Owen Lars), Oliver Ford Davies (Governador Whitesun-Lars), Temuera Morrison (Comandante Cody / Comandante Thire / Comandante Bly), Keisha Castle-Hughes (Rainha Apailana), Rebecca Jackson Mendoza (Rainha de Alderaan), Bruce Spence (Tion Medon), Kee Chan (Senador Male-Dee), Ling Bai (Senadora Bana Breemu), Warren Owens (Senador Fang Zar), Rena Owen (Senadora Nee Alavar), Christopher Kirby (Senador Giddean Danu), Matt Sloan (Plo Koon), Rohan Nichol (Capitão Antilles), Matthew Wood (General Grievous - voz), James Earl Jones (Darth Vader - voz) e George Lucas (Barão Papanoida).

Sinopse: Após salvar o Senador Palpatine, que fora seqüestrado pelos exércitos rebeldes, Anakin Skywalker se torna ainda mais íntimo deste. Entretanto, o jovem aprendiz de Obi-Wan Kenobi não sabe que o Senador almeja tomar o poder absoluto e utilizá-lo como principal ferramenta para tal.

Star Wars: Episode 3 – Revenge of the Sith – Trailer:


Crítica:

A sensação que este “A Vingança dos Sith” deixou nos fãs da saga “Star Wars” durante o seu lançamento nos cinemas foi provavelmente a mesma sensação de angústia que “O Retorno do Rei” deixou nos fãs da saga “O Senhor dos Anéis” ou “A Última Cruzada” deixou nos fãs da trilogia “Indiana Jones” (que recentemente fora estendida com um interessante quarto episódio). Afinal de contas, os milhões de fãs que a mesma possui já não poderiam mais lotar as salas de cinema do mundo todo a fim de se reencontrar com o mundo mágico criado por George Lucas em uma aventura inédita. Mas ao menos serve de consolo o fato destes fãs saberem que a saga, a partir do momento que este terceiro episódio estreasse nos cinemas do mundo todo, estaria completa e que, agora, todas as pontas existentes entre a antiga e a atual trilogia encontravam-se, finalmente, completamente amarradas.

É uma tarefa muito árdua, no entanto, amarrar todas as pontas de ambas as trilogias de um modo realmente convincente e satisfatório. Pode-se confirmar isto neste “A Vingança dos Sith” onde, ironicamente, as maiores falhas e os maiores acertos do mesmo residem, justamente, na tentativa do roteiro criar elos entre uma trilogia e outra. Vide o maior erro do roteiro, por exemplo, que consiste em mostrar o principal motivo que teria levado Anakin Skywalker a abraçar o lado escuro da Força. Após ter uma visão, durante um sonho seu, onde sua esposa Padmé Amidala (que agora encontra-se grávida) perde a vida após dar a luz a um filho seu, o jovem Padawan passa a buscar medidas desesperadas a fim de evitar que tal fato seja concretizado. Ao saber da situação em que o jovem se encontra, o Senador Palpatine, Chanceler Supremo da Federação e Mestre dos Lords Sith (uma espécie de Jedi que utiliza a Força apenas para benefício próprio), propõe a Skywalker que este se una a ele no combate contra os Jedi e em troca, o político ensinará ao jovem os poderes do lado escuro da Força que poderão salvar a vida de Padmé. Francamente, uma lastimável e artificial solução que o roteiro encontrou para fazer com que o jovem muda-se completamente de posição ideológica.

Por outro lado, o mesmo roteiro que apresenta uma solução tão simplória e artificial para a mudança de caráter repentina de Skywalker, se revela extremamente satisfatório ao trabalhar os demais pontos que fizeram com que o aprendiz de Obi-Wan Kenobi sofresse tal mutação ideológica. Uma vez que o episódio anterior já cumprira a excelente tarefa de desenvolver Anakin de maneira bastante convincente, este terceiro episódio opta inteligentemente por não tentar desenvolver o personagem ainda mais. Ao invés disso, o roteiro toma a brilhante decisão de desenvolver o Senador Palpatine e o jogo psicológico que este realiza em Anakin, fazendo-o mudar completamente de lado (e sinceramente, se o roteiro não tivesse tomado tal atitude, a mudança de lado do protagonista soaria extremamente artificial e o filme se revelaria extremamente falho).

Conforme pudemos testemunhar em “Ataque dos Clones”, Anakin Skywalker era um jovem talentoso, mas extremamente arrogante e precipitado. Neste “A Vingança dos Sith” a sua impaciência aumenta cada vez mais levando em conta a insistência do Conselho Jedi em não conferir a ele o título de Cavaleiro Jedi (os membros do Conselho têm dúvidas quanto a Anakin em virtude à arrogância do rapaz e aos fortes laços que este tem com o Chanceler Palpatine, algo que, indiretamente, quebra a independência dos Jedi para com os políticos) e designar-lhe missões que realmente ponham em teste as suas inúmeras habilidades. Aproveitando-se da impaciência do aprendiz de Obi-Wan Kenobi e do gênio vaidoso deste, Palpatine trabalha, através de argumentos convincentes, a mente do jovem rapaz e o incentiva a auxiliá-lo a tomar o poder absoluto. A maneira como o roteiro desenvolve Palpatine, suas táticas de persuasão (salvo as que envolvem Padmé que, conforme fora citado, soam artificiais) e seus diálogos é, não menos, do que excelente. Tudo foi cuidadosamente arquitetado pelo roteiro, para que a maior parte das alterações de caráter de Anakin não soassem artificiais.

O grande trunfo do roteiro, no entanto, consiste na virada espetacular que este dá na estória, a partir do início de seu segundo ato. A sensação que temos quando Palpatine põe em prática a sua “Ordem 66” (cuja descrição não irei fazer a fim de não estragar algumas surpresas) é a de que Lucas utilizou magistralmente os dois episódios anteriores (e, francamente, as pessoas que afirmam que este terceiro episódio tornou os outros dois desnecessários, simplesmente não sabem o que estão falando) a fim de mover estrategicamente todas as suas peças pelo tabuleiro e, quando chegasse o momento oportuno, utilizaria este terceiro episódio para dar o xeque-mate. E é justamente isto o que ocorre, cada peça movida nos longas anteriores teve importância vital para a conclusão desta trama, para o clássico desfecho da mesma. Simplesmente fascinante. Tão fascinante quanto à tristeza que nos assola ao ver a Ordem Jedi sendo completamente destruída.

As seqüências de aventura também são outra característica do filme que alternam entre altos e baixos. Logo no início somos apresentados à dupla de Jedis de “Ataque dos Clones”, Anakin e Obi-Wan, em uma missão de extrema importância: libertar o Senador Palpatine, que fora raptado pelo temível Conde Dookan. É exatamente nesta cena que podemos, pela primeira vez em toda a trilogia, notar a habilidade de Lucas na movimentação de câmeras. Pela primeira vez nesta trilogia vemos o “padrinho de todos os nerds” (como é conhecido o diretor) acompanhando as seqüências de ação de uma maneira realmente incrível. Note o modo como Lucas acompanha as naves espaciais durante a batalha, a movimentação com a câmera é perfeita e dá muita credibilidade à cena em si. Outro aspecto que conta muitos pontos a favor desta cena é a direção de arte que constrói, de maneira estupenda, uma nave espacial gigantesca fantástica. Tal seqüência parece ter sido sublimemente montada por Lucas a fim de homenagear as antigas batalhas intergalácticas contra um dos símbolos máximos da série, a Estrela-da-Morte, ocorridas na trilogia anterior.

Contudo, nem todas as cenas envolvendo aventura são tão magistrais quanto a seqüência acima citada (milagre eu não ter escrito “supracitada”, não?). Vide o duelo de sabres de luz travado entre Anakin Skywalker e Conde Dookan, apenas para citar um exemplo. Em virtude do que vimos no filme anterior, esperava-se uma luta bem mais consistente, empolgante, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma luta interessante, bem coreografada, mas que deveria ter sido mais bem trabalhada, principalmente do ponto de vista emocional, do que acabou sendo. Outra luta decepcionante é a ocorrida entre Obi-Wan Kenobi e o General Grievous, principalmente se levarmos em conta o interesse que a mesma nos desperta ao ficarmos sabendo que o segundo combatente, por possuir quatro braços, irá utilizar quatro sabres de luz simultaneamente, tornando a tarefa de derrotá-lo praticamente impossível ao destemido Jedi. No entanto, Kenobi derrota-o muito facilmente, o que torna a seqüência pouco emocionante. Por outro lado, as demais seqüências de ação envolvendo sabres de luz são fantásticas, em especial a mirabolante e empolgante luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker, agora Lord Darth Vader. Simplesmente um dos mais empolgantes duelos já proporcionados pelo Cinema e que, infelizmente, devido à baixa tecnologia da época e orçamento nem tão estrondoso quanto o utilizado nos filmes atuais, viria a se repetir de um modo bem menos interessante durante o quarto episódio da saga. Devo destacar também a luta entre Mace Windu e Lord Darth Sidious cujos cuidados com o resultado final foram tantos que acabaram envolvendo 102 movimentos e três grandes salas para ser filmada.

A direção de arte, como já era de se esperar (uma vez que esta se revela o ponto alto de toda a trilogia), é, não menos, do que estupenda, e mais: é empregada aqui de maneira ainda mais eficiente do que havia sido empregada nos filmes anteriores. Repare na beleza plástica que é Coruscant à noite, ou no salão de ópera onde Anakin tem uma das conversas mais importantes do filme com o Senador Palpatine, ou no verde natural estonteante do Planeta Utapau e ainda na beleza vulcânica do Planeta Mustafar (a propósito, a direção de arte majestosa do cenário aqui engrandece ainda mais a magnífica e dramática luta de sabres entre Obi-Wan Kenobi e Darth Vader).

Os demais aspectos técnicos do longa também não decepcionam. A fotografia, como sempre, é belíssima e dá ainda mais realce aos fabulosos cenários criados pela estupenda direção de arte, a trilha-sonora engrandece ainda mais as seqüências de aventura, suspense e drama do filme e o figurino também é sensacional, bastante diversificado e riquíssimo em detalhes, algo que fertiliza ainda mais a magia por trás do longa.

As atuações, no entanto, decepcionam e, se comparadas a “O Ataque dos Clones”, empalidecem consideravelmente. Se por um lado Ian McDiarmid realiza um trabalho supremo ao assumir a pele do Senador Palpatine e do Lord Darth Sidious (sinceramente, não vejo melhor ator para cumprir tal função), por outro lado o excelente Christopher Lee aparece muito pouco e os demais atores, nem de longe, conseguem criar uma atuação tão marcante quanto a que ele realizou no longa anterior. Ewan McGregor, se revela um bom ator neste longa, mas falha em algumas cenas onde precisaria fazer uma entonação de voz mais dramática. Natalie Portman só atua de maneira definitivamente convincente ao final do filme, que é justamente quando o roteiro confere uma carga dramática muito mais forte a sua personagem. Nas demais cenas, a atriz jerusalense não adota uma carga dramática forte o bastante para fazer com que a sua personagem se aproxime do público.

E quanto à atuação de Hayden Christensen? Bem, digamos que esta merece um parágrafo único para ser comentada de forma mais aprofundada. Christensen realiza uma atuação bastante irregular no longa e, assim como as cenas de aventura e as artimanhas utilizadas pelo roteiro a fim de amarrar a trama, seu trabalho aqui alterna constantemente entra altos e baixos (só que, neste caso ao menos, devo dar mais ênfase à palavra “baixos” que à palavra “altos”). Note, por exemplo, a maneira artificial como ele emprega um tom de voz ridiculamente grave e sombrio quando diz: “___ Eu lhe ofereço o meu empenho em troca de vossos ensinamentos!”. Por outro lado, o ator canadense emprega, durante muitas cenas, a expressão de uma pessoa realmente frustrada, cujas esperanças naquilo que julgava ser o certo a se fazer se revelam cada vez mais nulas, escassas e minguantes. Contudo, faltou a Christensen mais talento, mais expressividade, mais dramatização em sua composição, faltou algo que realmente convencesse o público de que ele é Darth Vader, ele é a alma de toda a trilogia.

Preparando a finalização deste texto, comentarei sobre outro ponto que também alterna entre altos e baixos (sim, mais um, este filme definitivamente se revelou uma montanha russa artística): os diálogos. Ao mesmo tempo em que temos diálogos extremamente inteligentes do tipo “O Bem é apenas um ponto de vista” (algo que Lucas, voluntaria ou involuntariamente, extraiu de filosofia nieztschiana) e “Era para você trazer equilíbrio à Força, não jogá-la na escuridão”, Lucas quase joga seu roteiro no lixo com absurdos do tipo: “Não, você vai tentar me matar!” (resposta de Skywalker a Kenobi quando o segundo diz que irá matá-lo). Para piorar a situação, o tom de voz empregado por Christensen a fim de declamar tal oração é tão artificial que torna a cena ainda mais ridícula do que ela já seria por si só. Ah, e é claro que não poderíamos ficar sem o clássico e clichê “Nããããããããããão!” proferido da maneira mais piegas o possível pelo protagonista.

Resumindo, “A Vingança dos Sith” é um filme que alterna entre altos e baixos, mas o saldo final acaba sendo incontestavelmente positivo. Utilizando algumas táticas incríveis a fim de preencher as lacunas deixadas em aberto na unificação da trilogia antiga com esta nova, Lucas se revela um roteirista de mão cheia, mas que erra gravemente algumas vezes, quando tenta, por exemplo, criar um motivo para que Anakin Skywalker opta-se por pender ao lado escuro da Força envolvendo a sua amada esposa. As seqüências de aventura são, em sua maioria, muito boas, mas decepcionam completamente o público em alguns casos. As atuações em sua maioria são boas (e nada além de boas), salvo Hayden Christensen que se mostra completamente irregular durante o filme inteiro. A parte técnica deste terceiro episódio é irretocável e o longa encerra a saga com maestria, servindo como uma perfeita ponte que dá liga as duas trilogias.

Ah, e como não poderia deixar de ser, encerrarei definitivamente este texto realizando um rápido comentário sobre a trilogia inteira. Diria, antes de tudo, que nenhum dos três episódios se revela dispensável, desnecessário ou fraco (conforme muitas pessoas dizem), muito pelo contrário, cada um possui a sua função. O primeiro trata de oferecer ligeiras explicações sobre vários pontos que viriam a ser abordados futuramente, tais como: o que vem a ser a Força, como fora a infância de Anakin Skywalker, como Obi-Wan Kenobi passou a treiná-lo e muitas outras coisas que ficariam completamente vagas sem este primeiro episódio. “Ataque dos Clones”, por sua vez, encarregou-se de explorar os personagens principais da trilogia, amarrar algumas pontas deixadas, propositadamente, em aberto pelo primeiro filme, iniciar (ainda que de maneira artificial) o importante romance entre Anakin e Padmé, e, acima de tudo, dar início à demonstração das falhas de caráter apresentadas pelo aprendiz de Obi-Wan Kenobi, fato que o levaria ao destino que teria de traçar em um futuro não muito distante. O terceiro episódio, finalmente, se revela o ponto alto da trama e preenche todas as lacunas deixadas em aberto pelos dois longas anteriores. A trilogia nova realmente não faz jus à antiga, mas ainda assim se mostra altamente importante para uma melhor compreensão daquela, além, é claro, de se revelar uma ótima experiência cinematográfica se fizermos um balanço geral da mesma.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

Star Wars - Episódio II - Ataque dos Clones - **** de *****

Lembro-me muito bem da primeira vez em que assisti a este filme. Fui ao cinema junto de dois amigos (algo raro de se acontecer, pois geralmente vou ao cinema sozinho) e encontrava-me no auge de meu fanatismo incondicional por “Star Wars”. Lembro-me que, na época (foi em 2002, eu possuía 18 anos), só havia uma coisa que me atraia mais do que a saga dirigida por George Lucas: o estilo musical Heavy Metal, em especial o melódico produzido na Alemanha (não citei o substantivo “mulher” aqui, pois soaria clichê demais). No mais, tudo que me vinha à mente estava, direta ou indiretamente, voltado à saga “Star Wars”, tudo mesmo. Quando assisti ao filme pela primeira vez, como não poderia deixar de ser, achei-o perfeito. Hoje em dia, com o fanatismo pela série bem menor que durante a época supracitada, pude conferir o mesmo utilizando a razão acima de tudo e constatar que, apesar de ótimo, o filme conta com algumas visíveis falhas, conforme o leitor poderá constatar no texto a seguir.


Ficha Técnica:
Título Original: Star Wars: Episode II - Attack of the Clones
Gênero: Aventura / Ficção Científica
Tempo de Duração: 144 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2002
Estúdio: Lucasfilm Ltd. / JAK Productions Ltd.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: George Lucas
Roteiro: Jonathan Hales e George Lucas
Produção: Rick McCallum
Música: John Williams
Fotografia: David Tattersall
Desenho de Produção: Gavin Bocquet
Direção de Arte: Phil Harvey e Jonathan Lee
Figurino: Trisha Biggar
Edição: Ben Burtt
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic

Elenco: Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Natalie Portman (Senadora Padmé Amidala), Ian McDiarmid (Chanceler Palpatine), Pernilla August (Shmi Skywalker), Jack Thompson (Cliegg Lars), Anthony Daniels (C-3PO / Tenente Faytonni), Christopher Lee (Conde Dooku), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Frank Oz (Yoda - voz), Andrew Secombe (Watto - voz), Oliver Ford Davies (Sio Bibble), Silas Carson (Viceroy Nute Gunray / Ki-Adi-Mundi), Kenny Baker (R2-D2), Ahmed Best (Jar Jar Binks / Achk Med-Beq - vozes), Jimmy Smits (Senador Bail Organa), Ayesha Dharker (Rainha Jamillia), Joel Edgerton (Owen Lars), Bonnie Piesse (Beru Whitesun), Temuera Morrison (Jango Fett) e Daniel Logan (Boba Fett).

Sinopse: Com uma crise assolada por toda a República, rebeldes separatistas ameaçam iniciar uma guerra civil intergaláctica. Para evitar que tal tragédia ocorra, a, agora, Senadora do planeta Naboo, Padmé Amidala (Natalie Portman), desembarca em Coruscant, a fim de votar a favor da criação de um exército para ajudar os valentes cavaleiros Jedi a manter a paz por toda a Federação. Entretanto, um inesperado atentado contra a Senadora ocorre na plataforma de desembarque e, após escapar ilesa, a mesma é posta aos cuidados do Jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGergor) e de seu Padawan Anakin Skywalker (Hayden Christensen). O primeiro deverá investigar quem está por trás de tal atentado, ao passo que o segundo deverá escoltar a política até o seu planeta natal e protegê-la a todo custo. Contudo, um perigoso romance passa a acontecer entre Anakin e Padmé.

Star Wars - Episode II - Attack of the Clones - Trailer:



Crítica:

Não sei ao certo se foi George Lucas quem decidiu dar ouvido às críticas negativas direcionadas ao episódio anterior a este “Ataque dos Clones” ou se foi ele mesmo quem decidiu repensar por si próprio nos diversos erros que havia cometido em “A Ameaça Fantasma”. A única coisa que sei é que o consagrado diretor parece ter aprendido com os erros cometidos no primeiro episódio e os corrigido durante a produção deste segundo (entre tais erros corrigidos, cito ligeiramente a feliz decisão de conferir bem menos importância à irritante criatura Jar Jar Binks). O problema é que, ainda assim, Lucas não foi capaz de evitar certos erros que nem ao menos existiam no episódio antecessor e surgiram pela primeira vez aqui.

Ao contrário de “A Ameaça Fantasma”, este “Ataque dos Clones” conta com atuações ótimas e carismáticas, fazendo com que nos cativemos com a grande maioria de seus personagens, diferentemente do que acontecia no longa anterior. Ewan McGregor e Natalie Portman tiveram uma, mais do que visível, evolução em suas respectivas atuações e o estreante Hayden Christensen também não faz feio ao assumir o personagem de Anakin Skywalker. A química e o entrosamento entre as peças do elenco também tiveram uma relevante evolução, e isso acabou colaborando, e muito, para o resultado final do filme.

Mas não apenas as atuações de todo o elenco, como também o próprio roteiro, teve uma contribuição indispensável para que a relação público-personagens se saísse da melhor maneira o possível. Conseguindo criar subtramas que acabam desenvolvendo seus protagonistas de maneira bastante convincente, Lucas traça o perfil dos três personagens principais tomando por base as atitudes que estes adotam de acordo com uma determinada situação vivenciada por cada um.

Anakin Skywalker é, indubitavelmente, o personagem mais bem explorado pelo roteiro. Precipitado, arrogante (infelizmente o roteiro erra um pouco na dose de tal arrogância, tornando o personagem artificial demais durante alguns pouquíssimos minutos de projeção), irracional e de temperamento explosivo e imprevisível, o jovem aprendiz de Jedi nem de longe lembra o garoto estoicista e altruísta do longa anterior. Por outro lado, o roteiro também prima por distanciar o Anakin deste “Ataque dos Clones” do personagem que ele virá a se transformar no terceiro episódio. O Anakin Skywalker deste segundo episódio é o perfeito intermédio entre o garoto de índole inquestionável de “A Ameaça Fantasma” e o adulto frustrado com os seus sonhos que será abordado no episódio sucessor a este. Skywalker é a prova definitiva de que o ser humano, por melhor que seja, pode ser convertido e influenciado pelo meio e pelas circunstâncias que o cercam.

Obi-Wan Kenobi, que havia passado meio batido no longa anterior, também é muito bem aproveitado pelo roteiro deste longa e a atuação consistente e carismática de McGregor colabora muito para isso. Revelando-se um homem racional, sério, comprometido com o serviço, mas extremamente precipitado e involuntariamente autoritário e possessivo, o caráter do mestre Jedi é amplamente exposto neste filme e colabora muito para que percebamos o quão este personagem influencia, tanto negativamente quanto positivamente, Anakin Skywalker, colaborando imensamente para o destino cruel e sombrio reservado a este.

Padmé Amidala, muito provavelmente, é a protagonista que menos foi aproveitada pelo roteiro, apesar de ter sido muitíssimo bem empregada pelo mesmo. Antes, rainha de Naboo, agora, senadora deste mesmo planeta, a garota se mostra amável, honesta, empenhada, determinada, mas é sempre extremamente racional e faz o possível para evitar um previsível romance com Anakin Skywalker imaginando que isto causaria danos irreversíveis a ambos.

E aproveitando a menção que fiz ao romance entre Anakin e Padmé, devo dizer que o mesmo alterna entre altos e baixos constantemente. O casal não possui muita química, diga-se a verdade, mas ainda assim acaba, estranhamente, nos cativando (talvez seja pelo simples fato de sabermos a importância fundamental que tal envolvimento terá nos episódios posteriores). O relacionamento entre ambos, infelizmente, se apóia em alguns planos clichês imperdoáveis, com direito a cenas em que ambos rolam na grama de um local altamente paradisíaco e, é claro, ao primeiro beijo trocado entre ambos (também em um local de vista paradisíaca) com direito a um artificial pós-arrependimento por parte da jovem senadora que diz: “___ Não, não está certo fazermos isso!”. Ainda assim, tal envolvimento amoroso é de suma importância para a hexalogia inteira (e, provavelmente, é um dos pontos mais importantes que foram abordados por esta nova trilogia).

Outro fato importantíssimo ocorrido neste “Ataque dos Clones” e que, posteriormente, irá colaborar, e muito, para a transformação de Anakin Skywalker no temível personagem que o destina, é o falecimento de uma determinada pessoa muito querida por ele (cujo nome, obviamente, não irei revelar). Contudo, da mesma forma que o romance entre Anakin e Padmé alterna entre altos e baixos, a seqüência da morte de tal pessoa segue o mesmo caminho. Abusando de um clássico clichê hollywoodiano, Lucas dirige a cena com uma dose de pieguice, com direito a presenciarmos a pessoa morrendo nos braços de Anakin, dizendo: “Eu te amo!”. Por outro lado, o modo como o roteiro trabalha a influência que tal baque causa ao personagem é sensacional e sentimos na pele todo o ódio despertado dentro deste. Infelizmente tal seqüência se encerra com uma falha que poderia, e deveria, ter sido facilmente evitada por Lucas: o excesso na atuação de Christensen. A fim de demonstrar toda a sua ira, o jovem ator exagerou nas expressões de cólera e na tentativa de se revelar um bad ass, tornando a seqüência toda um tanto o quanto exagerada. O roteiro também não colabora muito com o desfecho da cena e cria diálogos patéticos do tipo: “___ Matei a todos eles. Não só aos homens, como também mulheres e crianças!”.

A estória, por sua vez, é ótima e é justamente ela que se revela o grande diferencial desta obra. Ao contrário do primeiro longa que não se preocupou em criar uma estória complexa e profunda (já que nem precisava disto, uma vez que a intenção do filme, conforme citei em minha crítica, era introduzir o espectador no universo “Star Wars” e isto ele se revelou capaz de fazer), este “Ataque dos Clones” conta com uma trama bem complexa e, por que não dizer, misteriosa. Logo no intróito da película somos lançados em um atentado completamente inesperado à Senadora Amidala, a fim de impedir com que esta vote na formação de um exército que irá impedir com que grupos rebeldes separatistas iniciem uma guerra civil intergaláctica. A partir daí, Obi-Wan Kenobi é designado para descobrir quem está por trás de tal tentativa de assassinato e Anakin Skywalker recebe a missão de proteger Padmé Amidala.

A sorte do roteiro, no entanto, é que a sua estória se revela suficientemente interessante para prender o público alvo e ele a desenvolve muito bem, pois se fossemos depender das cenas de ação para tal (conforme ocorreu no episódio anterior), o filme certamente teria encontrado sérios problemas em cativar o espectador. Não que as seqüências de aventura não sejam boas, muito pelo contrário, são ótimas e diria que superam facilmente todas as cenas de ação do longa anterior, mas o problema é que neste segundo episódio elas são muito más distribuídas, diferentemente de “A Ameaça Fantasma”.

Certamente cenas como a perseguição de carros ocorrida logo no início do longa, a perseguição espacial ocorrida entre Jango Fett e Obi-Wan Kenobi, as lutas na arena, o ataque que o exército de clones (cena esta que intitula o filme) realiza contra os rebeldes separatistas e, é claro, as lutas com sabres de luz (estas, inclusive, contam com uma sensacional, embora curta e, até mesmo, decepcionante, participação inesperada e inusitada de um personagem altamente surpreendente que manterei no anonimato por razões óbvias) empolgam, e muito, o espectador.

O grande problema, no entanto, é o fato de elas estarem concentradas mais no primeiro e terceiro atos do filme, tornando o segundo ato um tanto o quanto cansativo durante alguns minutos de projeção. A trama, conforme já havia mencionado, é interessante o bastante para prender o espectador, mas até mesmo ela acaba não evoluindo o bastante sem as seqüências de ação que deveriam conter no segundo ato.

Uma vez comentadas as seqüências de ação do longa, vale ressaltar também a direção de George Lucas durante estas. Não apenas o modo como o diretor conduz o seu elenco, como também a maneira que ele conduz as cenas de aventura, tiveram uma visível e agradável melhora. Se antes Lucas havia se revelado um patético diretor, aqui ele se mostrou muito mais competente ao conduzir o filme e, apesar de não realizar movimentações com a câmera acima da média, se revelou capaz de criar ângulos muito interessantes, principalmente durante o ataque dos clones, onde ele cria fantásticas tomadas aéreas, posicionando as câmeras dentro das espaçonaves, colaborando assim para um considerável aumento no clima de tensão de tais seqüências.

A parte técnica do longa também conta muitos pontos para a sua avaliação final. Os efeitos visuais, desta vez, se mostram ainda mais superiores que os do longa anterior e tornam todas as seqüências de ação ainda mais eletrizantes do que elas já seriam por si só. A direção de arte, no entanto, não se mostra capaz de criar cenários tão magníficos quanto os do longa anterior e não conta com a mesma criatividade demonstrada anteriormente, mas ainda assim nos apresenta a lugares fantásticos como o chuvoso Planeta Kamino (em especial o interior dos palacetes deste. Note como é impossível não se encher os olhos face ao excelente emprego do branco futurista como decoração interna), a arena e a fábrica de robôs do planeta Geonosis, além, é claro, de Coruscant e Naboo, que aqui contam com alguns lugares fantásticos que ainda não haviam sido explorados pelo longa anterior.

Outra agradável surpresa inserida neste filme é a fantástica atuação de Christopher Lee. Empregando um tom de voz simplesmente fabuloso, o ator faz de seu Conde Dookan um dos personagens mais marcantes desta nova trilogia. Sua atuação, como sempre, é consistente e convincente e a cada momento em que o ator aparece em cena o filme evolui consideravelmente.

Por fim, gostaria de comentar uma cena em especial do filme que foi capaz de me arrepiar inteiro, e provavelmente arrepiou, ou irá arrepiar (caso a pessoa ainda não tenha assistido ao longa) a todos os starwarsmaníacos. Refiro-me à cena onde vemos todos os principais membros do lado escuro da Força reunidos em um camarote, avistando de cima, a marcha de um gigantesco grupo de clones. O grande marco desta cena, certamente, reside nos primeiros acordes tocados da fantástica Marcha Imperial, tema composto pelo genial John Willians (que não bastasse ter composto a fantástica trilha-sonora da hexalogia “Star Wars”, compôs também a inesquecível trilha-sonora da ótima trilogia “Indiana Jones”). Cronologicamente falando, é a primeira vez que escutamos a música sendo tocada e, só isso, já basta para encher os olhos de qualquer fanzóide da série (isto inclui este que vos escreve) de lágrimas.

Optando sabiamente por corrigir os erros que havia cometido em “A Ameaça Fantasma”, George Lucas se redime aqui e extrai de seu elenco ótimas atuações (salvo Hayden Christensen que falha algumas vezes, mas nada que comprometa o seu ótimo desempenho geral), além de conduzir muito bem as seqüências de ação do longa, criando ângulos muito bons para isso. A estória é bastante interessante e o roteiro a desenvolve muito bem, tal como os seus respectivos protagonistas, mas, infelizmente, o longa inicia o romance entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala de maneira deveras artificial, fazendo com que aja pouca química entre ambos e o relacionamento destes só nos cative por levarmos em conta a importância que o mesmo terá à hexalogia inteira. As seqüências de ação são todas excelentes, mas acabam sendo má distribuídas durante o filme, que só não deixa o espectador entediado em virtude à maneira inteligente como o roteiro trabalha a sua estória principal.

Avaliação Final: 8,3 na escala de 10,0.

Star Wars - Episódio I - A Ameaça Fantasma - *** de *****

Pois é, sei muito bem que este primeiro episódio da saga “Star Wars” está longe de ser um clássico absoluto da Sétima Arte, ao contrário dos episódios IV, V e VI que são um marco na história da mesma, mas decidi postar a crítica deste longa (e as dos outros dois episódios que acompanham esta nova trilogia filmada nos anos de 1.999, 2.002 e 2.005) na subseção de “filmes clássicos” acreditando ser interessante manter as análises de todos os seis filmes bem próximas uma da outra. Quanto à atitude que me levou a analisar todos os seis filmes, esta reflete a quatro fatores. Primeiro: adquiri recentemente a tão falada edição comemorativa de 30 anos de lançamento do quarto episódio da série e decidi, é claro, assisti-la o quanto antes, só que para isso achei que seria interessante assistir aos episódios iniciais, fazendo-o na ordem cronológica, e não na ordem de lançamento; segundo: a animação “Star Wars – Guerras Clônicas” estréia nos cinemas do Brasil muito em breve (próximo dia 15), nada mais conveniente então do que entrarmos no mágico clima “Guerra nas Estrelas”; terceiro: nunca critiquei nenhum dentre os seis filmes da saga em toda a minha vida; quarto e último: sou fã incondicional da saga e torna-se vergonhoso, na condição de crítico de Cinema, nunca ter analisado a mesma, portanto, é uma obrigação moral a minha fazê-lo agora.

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Ficha Técnica:
Título Original:
Star Wars - Episode 1: The Phantom Menace
Gênero: Aventura/Ficção Científica
Tempo de Duração: 131 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
1999
Site Oficial: www.starwars.com/episode-i
Estúdio: LucasFilm Ltda.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Produção: Rick McCallum
Música: John Williams
Direção de Fotografia: David Tattersall
Desenho de Produção: Gavin Bocquet
Direção de Arte: Phil Harvey, Fred Hole, John King, Rod McLean e Ben Scott
Figurino: Trisha Biggar
Edição: Ben Burtt e Paul Martin Smith
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic
Elenco: Liam Neeson (Qui-Gon Jinn), Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman (Padmé), Jake Lloyd (Anakin Skywalker), Ian McDiarmid (Senador Palpatine/Darth Sidious), Pernilla August (Shmi Skywalker), Keira Knightley (Rainha Amidala), Oliver Ford Davies (Sio Bibble), Hugh Quarshie (Capitão Panaka), Ashmed Best (Jar Jar Bink) (voz), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Bater (R2D2), Frank Oz (Yoda) (voz), Terence Stamp (Chanceler Finis Valorum), Andrew Secombe (Watto) (voz), Ray Park (Darth Maul), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Sofia Coppola (Saché) e Dominic West.

Sinopse: Após sofrer um forte boicote econômico por parte da gananciosa Federação Comercial, o planeta Naboo solicita a ajuda do bravo cavaleiro Jedi Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e seu jovem aprendiz Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) para resolver o impasse. Contudo, as negociações não saem justamente como eles esperavam e uma guerra é instaurada contra o planeta Naboo. Os dois Jedi recebem então uma outra missão, escoltar a jovem Rainha Amidala (Keira Knightley) e sua auxiliar Padmé (Natalie Portman) a Coruscant, capital da Federação, para solicitar ao Chanceler Finis Valorum (Terence Stamp) o fim de tal guerra sem propósito. Porém, após tentar trespassar o bloqueio espacial que a Federação realizou ao planeta Naboo, a nave real é atingida e o grupo se vê obrigado a realizar uma parada no planeta Tatooine, onde eles encontram o garoto Anakin Skywalker (Jake Lloyd), única pessoa capaz de conseguir as peças necessárias para que a nave seja devidamente reparada e possa seguir a viagem.

Star Wars - Episode I - The Phantom Menace - Trailer:

Crítica:

“Star Wars – Episódio I – A Ameaça Fantasma” foi um longa que teve tudo, absolutamente tudo, para se tornar um grande marco na história da Sétima Arte. Temos aqui um competente elenco, um grande orçamento (US$ 115mi), uma sensacional equipe responsável pelos efeitos visuais e, acima de tudo, um roteiro que conta com personagens para lá de interessantes de serem devidamente abordados e explorados. Sem contar, é claro, a magia contida por trás de toda a obra (ocasionada pela trilogia que teve seu início nos fins da década de 70), algo que seria capaz (e foi) de arrastar milhões de fãs para os cinemas do mundo inteiro, a fim de testemunharem como toda a saga começou. Enfim, era um longa que tinha tudo para entrar para a história do Cinema, mas não entrou. Por qual motivo? Duas palavras: George Lucas.

Sim, ele mesmo, o tão aclamado patrono de todos os nerds, o grande responsável pelo mais importante blockbuster da história do Cinema (me refiro, certamente, ao episódio de número 4 da saga: “Uma Nova Esperança”) e por uma das mais bem sucedidas e aclamadas trilogias já lançadas pela Sétima Arte. Enfim, o maior responsável pelo insucesso deste primeiro episódio (e até mesmo dos outros dois episódios posteriores, diga-se a verdade) é, justa e ironicamente, o maior responsável pelo sucesso da saga anterior, George Lucas, o pai da série.

“___ Mas onde foi que Lucas falhou?” ___ Me pergunta o leitor. “___ Naquilo que ele menos sabe fazer” ___ Respondo eu ___ “Na condução do elenco”. As falhas de Lucas como diretor de atores soavam gritantes até mesmo nos episódios anteriores da saga, mas ainda assim, não se mostravam tão visíveis como se mostram aqui. Atores talentosíssimos como Liam Neeson (este ainda se salva em algumas cenas), Ewan McGregor, Natalie Portman, Samuel L. Jackson e Keira Knightley tiveram quase toda a sua competência desperdiçada devido a atuações fracas, sem o menor carisma e expressividade.

Para citar um exemplo, repare no semblante de Natalie Portman ao (tentar) demonstrar um ar de preocupação relacionada à crise que seu planeta estava passando no presente momento. Uma hora depois, repare no mesmo semblante, da mesma Natalie Portman, ao (tentar) demonstrar satisfação total por ter resolvido tal crise que tanto a atormentava no início da projeção. Pois é, eu sei, não há mudança alguma. Mas não, a inexpressividade de todo o elenco (isso inclui tanto os atores primários, como secundários e, até mesmo terciários, para não dizer também os figurantes e extras) não é o maior defeito do longa no que diz respeito à atuações. Temos um problema ainda mais grave aqui: a entonação das vozes de todos (e eu disse todos, sem exceções) os atores.

Sempre gostei muito de assistir a um filme no idioma original do mesmo, para que pudesse, desta maneira, analisar o tom de voz que os atores empregaram a fim de compor os seus respectivos personagens e as situações pelas quais estes estão passando. Contudo, nunca imaginei que, em toda a minha vida, pudesse utilizar isto um dia a fim de defini-lo como maior qualidade, ou maior defeito (como é o caso com este longa) de uma determinada obra cinematográfica. Sinceramente, não há como não notar, e é claro, se irritar veementemente, com a falta de dicção dos atores em várias cenas do longa.

Vide, por exemplo, a seqüência onde a personagem de Pernilla August diz a seu filho Anakin Skywalker (sim, ele mesmo): “___ Any, estou tão orgulhosa de você! Você trouxe esperança a quem não mais a tinha!”. O problema é que, uma frase que deveria ter sido proferida da maneira mais vigorosa o possível, acabou soando tão insossa quanto se a mesma personagem dissesse ao filho: “___ Any, vá dormir que já é tarde e amanhã você deve acordar cedo!”. Mas antes o tom de voz mono tônico fosse apenas um defeito correspondente ao elenco secundário do filme, isso seria uma verdadeira benção. Note a cena em que a personagem de Natalie Portman (uma das peças mais importantes não só deste longa, como da trilogia inteira) diz a seguinte frase: “___ Peço, ou melhor, imploro com todas as forças que nos ajudem!”. Francamente, um pedido de ajuda com uma entonação de voz daquelas não seria capaz nem ao menos de convencer uma criança com os bolsos cheios de dinheiro a comprar um doce, quiçá incentivar seres tão orgulhosos quanto os suplicados, no caso, a oferecerem ajuda.

Não bastasse as falhas supracitadas, a direção de Lucas não falha apenas no que diz respeito à condução do elenco. Sem demonstrar a menor capacidade para criar ângulos satisfatórios com a câmera, ou acompanhar as seqüências de ação realizando travellings que as tornaria muito mais convincentes e realistas, ou ainda conduzir o filme de uma maneira que fosse capaz de fugir do convencional, George Lucas nos apresenta a uma direção verdadeiramente falha e incompetente do ponto de vista geral, merecendo, incontestavelmente, o prêmio Framboesa de Ouro® de pior diretor que concorreu em 2.000.

Além da direção patética de Lucas e das atuações nada convincentes por parte de todo o elenco (salvo Liam Neeson que salva-se em muitas cenas), o longa investe em um humor recheado de gags previsíveis e totalmente desnecessárias que, durante muitas cenas, acabam até mesmo quebrando um clima de tensão que o filme está tentando conferir ao seu público durante as suas seqüências de ação. Pior ainda é constatarmos que tais gags vêem de um personagem nem um pouco inerente à trama, refiro-me, é claro, ao insuportavelmente irritante Jar Jar Bink.

Na verdade, confesso ter exagerado ligeiramente quando mencionei que Bink é “insuportavelmente irritante”. Não creio que Bink seja um personagem tão irritante quanto a maioria esmagadora das pessoas que assistem ao filme o considera, mas que ele incomoda muito, isso incomoda. Principalmente se prestarmos atenção na falta de uma justificativa realmente convincente para que o personagem se torne inerente à trama. Parece que o único propósito de Jar Jar no longa foi realmente o de servir de subterfúgio para os produtores explicarem o alto custo gasto com os efeitos visuais deste, já que a criatura fora o primeiro personagem 100% digital que a Sétima Arte já nos apresentou (fato que foi muito ressaltado e comentado durante a época).

E aproveitando o ensejo, uma vez que mencionei os efeitos visuais do longa, talvez seja esta a melhor ocasião para listar as qualidades do mesmo que, sim, são muitas. Falemos um pouco mais sobre os efeitos visuais do filme, sobretudo os que compõem a criatura Jar Jar Binks que, sim, é perfeita, em especial se levarmos em conta a inovação que a mesma trouxe para o Cinema, possibilitando com que mais tarde outros personagens 100% digitais pudessem ser confeccionados, como é o caso de Gollum, da excelente trilogia: “O Senhor dos Anéis”.

Para se comentar sobre a criatura Jar Jar, deve-se esquecer que esta foi criada anteriormente ao Gollum e que, naturalmente, não é tão bem animada quanto o anti-herói da saga de Peter Jackson. Bink é bem animado, seus movimentos são todos naturais, mas a algo de errado com o semblante da criatura: a falta de brilho em seus olhos. Entretanto, devemos levar em conta que fora a primeira criatura 100% digital criada pelo Cinema, e só isto já basta para que o personagem seja totalmente respeitado por nós (me refiro do ponto de vista técnico, já que do ponto de vista artístico a criatura não têm nenhuma função na trama).

Os demais efeitos visuais também são muito bem empregados e, ao contrário da maioria dos filmes do gênero, eles não são utilizados apenas com o intento de cobrir os buracos no roteiro ou a falta de uma estória verdadeiramente decente. Aqui, a grande maioria dos efeitos visuais são utilizados a fim de conferir mais dinamicidade e realismo às seqüências de aventura (estas que são muito má dirigidas por Lucas, conforme consta supracitado). Vide a clássica corrida de pods, por exemplo, que apesar de perder muita tensão graças à câmera pesada de Lucas, se mostra bastante emocionante devido ao uso extremamente de efeitos visuais que a engrandece e a torna uma das cenas mais marcantes de toda a saga.

A fotografia e a direção de arte são outros aspectos que engrandecem, e muito, o filme. Não há como não se cativar com a beleza plástica que é o reino subaquático de Gunga City, ou com a suntuosidade dos palácios contidos na capital do planeta Naboo, ou as paisagens áridas de Tatooine, o saguão onde ocorre a luta entre Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi e Darth Maul, e, principalmente, com a maravilha gráfica que é o planeta Coruscant (principalmente quando se tem a visão noturna do planeta, a capital da Federação. Aliás, a fotografia e a direção de arte que nos apresentam a Coruscant deveriam ser comentadas individualmente, já que o planeta está recheado de cenários deslumbrantes, como é o caso da pista de pouso, da sala de reuniões do Conselho Jedi e, especialmente, a sala onde ocorre a Assembléia entre os Senadores que representam os planetas ligados à Federação. Não restam duvidas de que, visualmente, “A Ameaça Fantasma” é um filme perfeito e tanto a sua direção de arte quanto a sua fotografia merecem ocupar um lugar entre as 50 melhores de todos os tempos.

George Lucas, por mais incrível que isso possa parecer, também colabora um pouco para que o filme se torne agradável. Se por um lado Lucas se mostra incompetente na condução de câmeras, por outro lado o diretor se mostra sabiamente oportunista no que diz respeito à maneira como ele utiliza os efeitos visuais do longa a fim de nos proporcionar seqüências de ação absurdamente fantásticas, dentre as quais menciono a já citada corrida de pods e a batalha final, ocorrida no planeta Naboo (esta, aliás, uma seqüência fantástica, que confere um ritmo incrível ao filme).

No entanto, é como roteirista que Lucas quase se redime de todas as suas falhas como diretor. Injustamente criticado por sua estória aparentemente fraca, o roteiro deste “A Ameaça Fantasma” cumpre muito bem o seu propósito, que nada mais é do que simplesmente iniciar a saga. Para isso, era necessário que uma estória altamente complexa e bem desenvolvida nos fosse apresentada (como a trama contida nos episódios IV, V e VI)? Certamente que não. Bastava apenas o roteiro nos introduzir ao “mundo Star Wars” completando algumas informações que acabaram ficando incompletas ou vagas com o desfecho da trilogia anterior, tais como: o que vem a ser a tão comentada Força? Qual é a origem de Anakin Skywalker? Por que um jovem tão humilde e repleto de valores morais viria a se tornar o vilão mais temido da história do Cinema (esta questão, na realidade, será melhor desenvolvida nos dois episódios posteriores a este)? Como Obi-Wan Kenobi conheceu Anakin Skywalker? Como o conselho Jedi se organizava? “___ E o roteiro concebido por Lucas consegue responder as questões supra?” ___ Me pergunta o leitor. Eu respondo que não apenas consegue as responder, como o faz de um modo bastante natural e convincente e, de quebra, conta com uma trama dinâmica que, mesmo estando longe de ser tão grandiosa como a dos demais episódios da saga, se revela suficientemente divertida.

Em suma, este primeiro episódio da saga “Star Wars” se revela uma experiência suficiente e individualmente divertida, apesar de empalidecer muito perante os demais episódios da saga. Lucas se mostra extremamente incompetente na direção do longa, sobretudo na condução do elenco, mas consegue conceber seqüências de aventura (em especial as lutas com sabres de luz, estas que, devido à falta de tecnologia na época, não eram tão empolgantes na trilogia anterior, se tornam o ponto alto do filme em questão) que tornam a experiência bastante dinâmica e agradável e, principalmente, divertida. O longa se revela narrativamente interessante, uma vez que cumpre o seu papel de nos introduzir no mundo “Guerra nas Estrelas” e é de uma beleza visual estonteantemente arrebatadora.

Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Kung Fu Panda - ** de *****

Ironicamente, na pré-crítica do fantástico “Wall-E”, havia comentado o quão enfadonha se tornaram as animações atuais em virtude à falta de criatividade que compunha os seus roteiros. Ao invés de uma estória bem desenvolvida vinda a partir de um argumento bem escrito, os produtores pareciam dar mais crédito à parte gráfica da obra, que sim, se mostrava perfeita em sua maioria. Agora, assistindo a este “Kung Fu Panda”, pude testemunhar mais uma vez a mesmíssima coisa: roteiro fraco, qualidade gráfica perfeita, conforme o leitor poderá constatar mais abaixo.

Ficha Técnica:
Título Original: Kung Fu Panda.
Gênero: Animação.
Tempo de Duração: 92 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 2008.
Estúdio: DreamWorks Animation / Pacific Data Images.
Distribuição: DreamWorks Animation / Paramount Pictures / UIP.
Direção: Mark Osborne e John Stevenson.
Roteiro: Jonathan Aibel e Glenn Berger, baseado em estória de Ethan Reiff e Cyrus Voris.
Produção: Melissa Cobb.
Música: John Powell e Hans Zimmer.
Fotografia: Yong Duk Jhun.
Desenho de Produção: Raymond Zibach.
Direção de Arte: Tang Kheng Heng.
Edição: Clare Du Chenu.
Efeitos Especiais: PDI DreamWorks.
Elenco (Vozes): Jack Black (Po), Dustin Hoffman (Shifu), Angelina Jolie (Tigresa), Ian McShane (Tai Lung), Jackie Chan (Macaco), Seth Rogen (Louva-deus), Lucy Liu (Víbora), David Cross (Garça), Randall Duk Kim (Oogway), James Hong (Sr. Ping), Dan Fogler (Zeng), Michael Clarke Duncan (Comandante Vachir), Wayne Knight (Chefe da gangue), JR Reed (JR Shaw) e Kyle Grass (KG Shaw).

Sinopse: Po (Jack Black) é um urso panda desengonçado cujo maior sonho é tornar-se um grande lutador de kung fu. Entretanto, além da falta de habilidade que possui para a prática de qualquer atividade física, o urso não deseja magoar o pai, que decidiu lhe atribuir o destino de administrar o restaurante de massas, que pertence à sua família há gerações. Porém, Po não contava que havia algo além do futuro que o seu pai havia destinado a ele e, inesperadamente, é eleito “O Guerreiro do Dragão” por um grande mestre do kung fu. Agora, cabe somente a ele defender o Vale da Paz da cólera do vingativo leopardo da neve Tai Lung (Ian McShane).

Kung Fu Panda – Trailer:

Crítica:

“Kung Fu Panda” é um longa que começa muito bem. A princípio, adentramos o sonho do protagonista, logo em seguida nos é revelado que o maior desejo deste é ser um grande lutador de kung fu. É durante tal sonho que o roteiro insere aquela que talvez seja a piada mais interessante do longa. Trata-se da seqüência em que, após ser provocado, o protagonista se mantém inerte, saciando a sua refeição com toda a naturalidade do mundo. O leitor me pergunta: “___ Oras, mas onde está a graça nisso?”, “___ Nos dizeres sarcásticos da narrativa em off.” ___ Respondo eu (não vou citar os dizeres do narrador sob pena de estragar a piada, caso alguma pessoa que esteja lendo esta crítica no momento ainda não tenha tido a dúbia oportunidade de conferir o filme em questão). Infelizmente tal narrativa some. Pois é, logo ela que aparentava ser uma das grandes qualidades do filme, simplesmente desaparece e, com isso, dá espaço a uma animação nada engraçada, muito menos original.

Não que o longa não consiga propiciar ao leitor alguns sorrisos (todos sem dentes, diga-se) fora este que comentei no parágrafo acima (uma outra cena que me divertiu bastante foi a em que o pai do Panda nos é apresentado. Reparem na hilária bizarrice que é constatar que o pai de um urso panda é uma... bem, melhor deixar para lá, não quero estragar surpresas, e falo sério), mas a verdade é que ele se mostra pouco capaz de ir além disso.

O filme vai se desenvolvendo (será?) e as piadinhas e gags que se mostravam originalmente engraçadas e dinâmicas em seu intróito, dão espaço a um humor previsível, nada original e, o que é pior, sem graça. Todo o humor do filme passa a ser alicerçado nas condições físicas de Po (protagonista do filme), que é obeso. Logo, o filme torna-se altamente previsível, pois sabemos exatamente que, apenas para citar um exemplo, ao tentar se exercitar em um aparelho de ginástica deveras pequeno comparado ao tamanho de Po, o panda certamente ficará entalado no mesmo. E o que dizer então das seqüências patéticas onde ele tenta adentrar o Palácio de Jade, local onde irá ocorrer a eleição do Guerreiro do Dragão? Lastimável, um humor repleto de gags batidas e nada engraçadas.

Não bastasse isso, o roteiro ainda conta com mudanças de caráter artificiais em quase todos os seus personagens, sobretudo Shifu (explorado sob a estereotipada imagem do “professor” severo e frustrado). Se durante metade do filme Shifu move montanhas a fim de tirar Po de seu caminho, basta a saída brusca, repentina e artificial de um importante personagem da estória e algumas poucas palavras para fazer o rigoroso mestre mudar completamente a sua opinião sobre o panda desajeitado.

E se as piadas, as reviravoltas do roteiro e as bruscas mudanças de caráter de certos personagens se mostram altamente artificiais, a caracterização de Po não fica muito atrás. Além de seguir o estereotipo do sujeito desajeitado e frustrado por não conseguir realizar o grande sonho de sua vida (ser um grande lutador de kung fu), o panda é uma criatura exacerbadamente irritante (e a voz insuportável que Jack Black empregou para o compor, torna-o ainda mais irritante). É incrível notarmos como o mesmo grita a todo instante, muito me fez lembrar dos protagonistas do fraco “Madagascar” (falando nisso, será que algumas animações da Dreamworks relacionam o grau de entretenimento de seus filmes com o grau de histeria de seus personagens?).

Mas nem tudo em “Kung Fu Panda” são espinhos. Não, muito pelo contrário, o filme conta com diversas e importantes qualidades. Além da parte gráfica ser praticamente perfeita (nada que se compare a um “Wall-E”, mas tudo bem), a direção de Mark Osborne e John Stevenson é ótima, principalmente no que diz respeito à movimentação de câmeras. É, no mínimo, fascinante vermos o cuidado que ambos os diretores possuem com a criação de ângulos perfeitos e à maneira como ambos filmam as seqüências de ação, dando muito ritmo às mesmas.

Até mesmo o roteiro, que julgo como sendo o pior defeito do filme, possui qualidades que colaboram muito para a avaliação final da animação. Refiro-me às sub-estórias contidas no mesmo, sobretudo, as que explicam as pequenas lendas deste, algo que dá muito mais credibilidade à estória.

No geral, “Kung Fu Panda” é um filme nada original, sem graça, irritante, artificial, previsível, histérico e que conta com uma lição de moral explorada pelo roteiro da maneira mais clichê o possível. Aspectos como a direção, a alta qualidade de sua parte gráfica, as pequenas estórias muito bem desenvolvidas pelo roteiro, as cenas de luta e as pouquíssimas gags e/ou piadas que realmente funcionam fazem com que o filme ganhe muita credibilidade, mas não há como negar que este conta com muito mais erros do que acertos.

Avaliação Final: 4,5 na escala de 10,0.

O Cavaleiro das Trevas - ***** de *****

Tendo em vista a imensidão da crítica que redigi, desta vez (teve 2.009 palavras contra as aproximadamente 700 ou 800 que meus textos costumam ter), serei o mais breve o possível nesta pré-crítica. Muito tem se falado do sucesso de bilheteria que este “O Cavaleiro das Trevas” vem alcançando recentemente e, sempre que um fenômeno comercial desta magnitude ocorre eu gosto muito de comentar se o filme em questão merece tanto esplendor ou não. Pois no caso desta continuação de “Batman Begins” eu digo que merece, e muito, não apenas possuir uma bilheteria extremamente lucrativa, como também entrar para o ranking das três maiores bilheterias da história do Cinema, superando até mesmo o ótimo “Piratas do Caribe – O Baú da Morte”.

Ficha Técnica:
Título Original: The Dark Knight
Gênero: Aventura
Tempo de Duração: 142 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Estúdio: Warner Bros. Pictures / Legendary Pictures / DC Comics / Syncopy
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Christopher Nolan.
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane.
Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas.
Música: James Newton Howard e Hans Zimmer.
Fotografia: Wally Pfister.
Desenho de Produção: Nathan Crowley.
Direção de Arte: Mark Bartholomew, James Hambidge, Kevin Kavanaugh, Simon Lamont, Naaman Marshall e Steven Lawrence.
Figurino: Lindy Hemming.
Edição: Lee Smith.
Efeitos Especiais: Double Negative / BUF / Gentle Giant Studos / New Deal Studios.
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne / Batman), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Heath Ledger (Coringa), Gary Oldman (Tenente James Gordon), Aaron Eckhart (Harvey Dent / Duas-Caras), Maggie Gyllenhall (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox), Eric Roberts (Salvarote Maroni), Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane / Espantalho), Anthony Michael Hall (Mike Engel), Monique Curnen (Detetive Ramirez), Nestor Carbonell (Prefeito), Joshua Harto (Reese), Colin McFarlane (Comissário Gillian B. Loeb), Melinda McCraw (Barbara Gordon), Nathan Gamble (James Gordon Jr.) e Michael Jai White (Jogador).

Sinopse: Após dois anos desde o surgimento do Batman (Christian Bale), os criminosos de Gotham City têm muito o que temer. Com a ajuda do tenente James Gordon (Gary Oldman) e do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), Batman luta contra o crime organizado. Acuados com o combate, os chefes do crime aceitam a proposta feita pelo Coringa (Heath Ledger) e o contratam para combater o Homem-Morcego.

The Dark Knight - Trailer:

Crítica:

“O Cavaleiro das Trevas” revelou-se um filme tão perfeito em sua totalidade que fica até difícil escolher por onde começo a redigir este texto. Não sei quais aspectos da obra deveria comentar primeiro, já que todos mantêm um equilíbrio tão forte entre si que torna-se praticamente impossível priorizar um. Pois é, pelo jeito terei de fazer algo que não estou nem um pouco acostumado a fazer e me render aos apelos do mainstream, ou seja, terei de começar analisando aquilo que todos almejam saber: qual Coringa é o melhor, o de Ledger ou o de Nicholson?

Incrível ver como o falecimento do ator australiano em janeiro do corrente ano colaborou, de uma maneira estranhamente macabra, para a promoção do filme. A fim de testemunhar a última atuação da carreira deste jovem grande talento do cinema contemporâneo, espectadores do mundo inteiro, mesmo os que não se mostram fãs do Homem-Morcego, fizeram filas imensas às portas dos cinemas. Até mesmo em uma roda entre cinéfilos o assunto não é outro, a não ser: o Coringa de Heath Ledger e a sua respectiva atuação. É mister, ao comentar sobre Cinema, que se mencione o nome do jovem ator talentoso falecido no intróito deste ano. Mas enfim, pondo as tergiversações de lado e respondendo à pergunta que não quer calar, o melhor coringa é o de... bem, vejamos... depende. Sim, sei muito bem que esta é a resposta de praxe de todo indivíduo que almeja “sair pela tangente” (como está sendo o meu caso agora), mas esta é a pura realidade.

Se analisarmos em termos de atuação, Ledger vence na interpretação de uma maneira geral, mas perde em termos de carisma. Contudo, devemos levar em conta que o novo Coringa está muito além de ser um vilão simpático (conforme ocorreu com o personagem de Nicholson no filme de 1989), muito pelo contrário, aqui, o roteiro almejou criar um vilão assustador, doentio, psicótico, insano ao extremo. Em outras palavras, um personagem mais plausível de ser absorvido em um contexto real (minha frase predileta), principalmente se tomarmos como cenário os Estados Unidos da América, pós 11 de setembro de 2001.

Finalizando esta analogia entre os personagens de Nicholson e Ledger, diria que se o segundo não é tão original quanto o primeiro (sim, pois este não possui as bugigangas peculiares daquele, tais como: um saquinho de dar risadas, balões cheios de gases venenosos, um tônico que estica os lábios de quem os toma, dando a impressão de que a vítima está sorrindo), ao menos ele se mostra um vilão muito mais convincente e assustador, além de possui uma carga dramática infinitamente superior àquele, o que o torna ligeiramente superior ao Coringa do filme de Tim Burton.

E quanto à atuação de Ledger, é tudo isso o que estão comentando? Bem, Ledger encarna o personagem com maestria e confere uma fortíssima carga dramática ao mesmo, mas discordo completamente do que o diretor Christopher Nolan afirmou durante uma entrevista, onde mencionava que o ator australiano faz uma atuação tão cativante quanto a que Jack Nicholson realizara em “Um Estranho no Ninho”. O ator, é claro, mostra um talento bem acima da média durante a sua composição, tornando o seu personagem ainda mais real e marcante do que ele já seria por si só.

A fim de conferir total verossimilhança ao seu Coringa, Ledger adota maneirismos que condizem plenamente com o estado psicológico do vilão, sem apelar a clichês e a trejeitos artificiais. Note, por exemplo, as alterações constantes de tom de voz do ator (fato que nos remete à lembrança de uma pessoa com forte grau de insanidade), e na dificuldade que este encontra em fixar seu olhar em um determinado objeto ou pessoa, o que indica o quão perturbado é o personagem.

Contudo, o ápice da atuação de Ledger reside quando este contracena com Christian Bale, que, por sinal, teve uma evolução artística muito notável do filme anterior, onde já havia realizado um trabalho seguro, para este segundo episódio. A seqüência em que Batman interroga o seu arqui-rival é, provavelmente, a que exige um maior esforço de Ledger, pois é durante esta parte do longa que o ator necessita mesclar loucura, medo e sarcasmo, todos os três ingredientes na medida certa, para que a composição de seu personagem soe certeira de acordo com os sentimentos que está vivenciando naquele momento.

Outro aspecto da obra que tem sido muito comentado são as ideologias de cada um dos personagens de “O Cavaleiro das Trevas” e não é para menos. Todos (todos mesmo) os personagens do filme em questão possuem uma ideologia, desde o mais revolucionário ao mais reacionário, e isto tudo torna o roteiro muito mais complexo (e falo isso positivamente, é claro). Harvey Dent (futuro Duas-Caras), por exemplo, é um promotor público conservador e que crê no sistema como um agente neutralizador do crime. Entretanto, durante o desenrolar da película, o próprio sistema em que ele tanto confiava acaba traindo-o, tirando-o tudo o que mais lhe era importante na vida e isso acaba fazendo com que ele mude completamente a sua personalidade (e vale ressaltar que o roteiro aborda tal mutação da maneira mais natural o possível).

Batman, por sua vez, segue uma ideologia que, de certa forma, se revela altamente reacionária. E é inegável que um dos maiores acertos do longa resida justamente na construção do alter ego do jovem milionário Bruce Wayne. Longe de ser um super-herói tão politicamente correto quanto o patético Superman, ou tão estoicista quanto o ótimo Homem-Aranha, Batman explicita neste longa todo o seu lado obscuro de uma maneira jamais vista anteriormente. A fim de obter informações que o levem à captura de perigosos marginais ou ao salvamento de pessoas indefesas, o cavaleiro das trevas não hesita em esmurrar a face de uma pessoa que não possua quaisquer chances de revide, ou arremessar esta mesma pessoa contra a parede, ou ainda jogar uma outra pessoa do quarto andar de um prédio quebrando-lhe as duas pernas com o único propósito de intimidá-la. Em outras palavras, o famoso super-herói (herói?) adota neste longa uma postura maquiavélica: “os fins justificam os meios”.

Outro ponto forte do caráter de Batman abordado aqui são as crises existenciais deste, posteriores a um trágico acontecimento que ocorre no início do terceiro ato da trama. E falando em terceiro ato e desenvolvimento do protagonista, a atitude (que não irei revelar qual é, por razões óbvias) que o Homem-Morcego toma no final deste longa é algo digno dos mais fortes aplausos, pois dramatiza ainda mais o personagem e a estória desenvolvida acerca deste.

E, por fim, voltemos ao Coringa. Sim, eu sei, já abordei demasiadamente este personagem no intróito deste texto, mas a verdade é que não há meios de definir e/ou descrever um personagem tão importante apenas com os adjetivos supracitados. Carregado de um forte humor negro (muito bem empregado diga-se. Notem a cena do lápis, logo no início da película) e uma dramatização intelectual de fazer inveja a qualquer vilão de histórias em quadrinhos, a caracterização do arqui-rival do Homem-Morcego pode se equiparar, sem medo de fazer analogias exageradas e/ou desmedidas, a personagens importantíssimos da história do Cinema, como por exemplo, Tyler Durden e Alex De Large. E levando-se em conta que o Coringa deste “O Cavaleiro das Trevas” se revela um verdadeiro agente do caos, a analogia entre este e os protagonistas dos sensacionais “Clube da Luta” e “Laranja Mecânica” (ambos fazem parte de meu “Top 10 - Melhores Filmes de Todos os Tempos”), torna-se mais do que pertinente.

O roteiro também acerta a mão ao não deixar claro os motivos que levam o antagonista a agir de tal modo, adotando esta filosofia anarco-niilista como estilo de vida. Ao invés de amarrar as pontas, o que soaria muito formulaíco, o roteiro brilhantemente bem escrito pelos irmãos Cristopher (que também assina como diretor da obra) e Jonathan Nolan opta por deixar que o público o faça. À primeira vista, temos a impressão de que Coringa tivera uma infância sofrida, vira o pai violentar a mãe e cortar-lhe a face com uma faca, mas a película se desenvolve e outras novas hipóteses completamente diferentes desta anterior nos são apresentadas, fazendo com que não saibamos ao certo o que o levou realmente a se tornar o que é, fato que o torna ainda mais misterioso.

A maior qualidade deste “O Cavaleiro das Trevas”, no entanto, reside no embate, tanto psicológico quanto físico, entre herói e vilão. A direção de Nolan se mostra sensível o bastante para conferir ao espectador muita tensão com tal embate desde o começo do filme, quando somos apresentados a um audacioso assalto a banco, arquitetado pelo vilão mor desta obra cinematográfica. Daí em diante, temos uma disputa entre o Homem-Morcego e seu arqui-rival que muito nos remete aos duelos travados entre personagens importantíssimos da história da Literatura, tais como Sherlock Holmes e Professor Moriart, e da história do Cinema também, como é o caso entre Vincent Hanna e Neil McCauley no interessante “Fogo Contra Fogo”.

Presenteando o público com dois personagens inteligentíssimos, o filme, como já fôra mencionado, firma seu destaque no confronto entre Batman e Coringa. Quando não contamos com as cenas de ação que, ao contrário de “Batman Begins”, são sensacionais, tensas, eletrizantes e muitíssimo bem dirigidas por Cristopher Nolan, alem, é claro, de serem regadas por uma trilha sonora fascinante que aumenta ainda mais o clima de tensão das mesmas, o roteiro nos brinda com um embate psicológico ainda mais tenso entre ambos os personagens.

O indivíduo que afirmar que o embate entre herói e vilão é não menos que sensacional deve ter a sua sanidade questionada. Não tem como não ficarmos tensos e roendo as unhas durante o filme todo (sem exagero, o clima de tensão está ali presente do primeiro ao último segundo de projeção) com cenas como a que o, desde já memorável e imortalizado, personagem de Heath Ledger arquiteta e põe em prática um assalto a banco (logo no começo da película), ou a seqüência incluída no final do longa onde ele planeja a explosão de um navio carregado de pessoas e, principalmente, a maneira como o vilão prepara a sua fuga da prisão (a propósito, se o leitor havia achado inteligentíssima a cena em que Magneto foge da prisão em “X-Men II”, prepare-se para a ainda mais inteligente e bem arquitetada fuga que Coringa realiza neste longa).

Batman também não fica muito atrás no que diz respeito à inteligência. Se por um lado o vilão tem sempre um plano mirabolante em mente, o herói possui sempre um “antídoto” para os mesmos, e o fato deste “contragolpe” nem sempre funcionar da maneira esperada, faz com que o protagonista do filme se torne mais humano, devido à sua visível e claudicante vulnerabilidade, o que não pode deixar de contar pontos para a avaliação final da película.

Por fim, como venho me acostumando ao redigir os últimos textos de minha autoria, aproveitarei este parágrafo de encerramento para condensar tudo o que fôra supracitado até então. “O Cavaleiro das Trevas” é, desde já, uma incontestável obra-prima do Cinema mundial e merece todo o sucesso que vem fazendo até o presente momento. Muito superior à grande maioria das adaptações de histórias em quadrinhos, este longa se revela uma agradabilíssima surpresa, respeitando imensamente o espectador, fugindo da grande maioria dos clichês e estereótipos do gênero e, o que é melhor, inovando o mesmo, nos apresentando a personagens completamente bem desenvolvidos pelo roteiro. A ação é estarrecedora e cresce ainda mais graças à extraordinariamente competente direção de Christopher Nolan e à cativante e tensa trilha-sonora composta magistralmente por, ninguém mais, ninguém menos, que Hans Zimmer e James Newton Howard. E mesmo com tantas qualidades visíveis e explicitadas, “O Cavaleiro das Trevas”, assim como o seu antagonista, possui uma carta na manga, que vem a ser sua maior qualidade: o embate, sobretudo psicológico, entre vilão e herói, além de nos propiciar questionamentos sobre a situação caótica que a sociedade capitalista se encontra.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Escafandro e a Borboleta - ***** de *****

Há alguns filmes que mexem conosco de uma forma, digamos, pessoal. Este “O Escafandro e a Borboleta”, por exemplo, me remeteu a uma lembrança bem parecida com a experiência passada pelo protagonista: as reflexões deste durante o seu período de internação hospitalar. Não, o meu caso nem passou perto dos problemas que Jean-Dominique Bauby teve de enfrentar, mas a semana em que fiquei internado no hospital serviu, ao menos, para que eu pudesse repensar a minha vida e dar mais valor a mesma, assim como o personagem de Mathieu Amalric o faz neste longa. Tendo em vista isso, foi impossível eu não criar uma relação pessoal com a obra magistralmente dirigida por Julian Schnabel.


Ficha Técnica:
Título Original: Le Scaphandre et le Papillon
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento (França / EUA): 2007
Site Oficial: http://www.lescaphandre-lefilm.com/
Estúdio: Pathé Renn Productions / France 3 Cinéma / Canal+ / Région Nord-Pas-de-Calais / The Kennedy/Marshall Company / C.R.R.A.V. Nord Pas de Calais / Ciné Cinémas / Banque Populaire Images 7
Distribuição: Miramax Films / Europa Filmes
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby
Produção: Kathleen Kennedy e Jon Kilik
Música: Paul Cantelon
Fotografia: Janusz Kaminski
Desenho de Produção: Michel Eric e Laurent Ott
Figurino: Olivier Bériot
Edição: Juliette Welfling
Elenco: Mathieu Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage), Niels Arestrup (Roussin), Olatz Lopez Garmendia (Marie Lopez), Jean-Pierre Cassel (Lucien / Vendeur Lourdes), Marina Hands (Joséphine), Max von Sydow (Papinou), Isaach De Bankolé (Laurent), Emma de Caunes (Imperatriz Eugénie), Jean-Philippe Écoffrey (Dr. Mercier), Nicolas Le Riche (Nijinski), Lenny Kravitz (Lenny Kravitz) e Michael Wincott (Michael Wincott).

Sinopse: Baseado em fatos reais, “O Escafandro e a Borboleta” narra a vida de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), editor da revista francesa Elle, após este sofrer um derrame cerebral e, conseqüentemente, ter todos os músculos de seu corpo paralisados, salvo os músculos que movimentam o olho esquerdo. Jean-Do (como é chamado intimamente) aproveita o tempo em que se encontra internado no hospital para refletir sobre a sua vida e logo que aprende a se comunicar “piscando letras do alfabeto” decide escrever um livro, com a ajuda de uma enfermeira, narrando esta terrível passagem de sua vida.

Le Scaphandre et le Papillon - Trailer:

Crítica:

Desde que dei início à redação de críticas de Cinema (no intróito de 2.006), sempre mantive o conveniente costume de avaliar um filme (seja ele qual for) do ponto de vista artístico. Por este motivo, talvez, tenham me perguntado em um determinado dia qual seria a minha definição sobre Arte. Confesso ter ficado sem resposta exata a tal pergunta, mas subjetivamente respondi que Arte era a ferramenta com a qual um artista poderia demonstrar um sentimento seu tomando por base o mundo em que vive.

E é justamente isso o que Julian Schnabel realiza neste “O Escafandro e a Borboleta”, uma obra-prima deveras sensorial, capaz de captar com maestria os sentimentos de solidão, angústia, vazio, depressão e medo de um homem que, após sofrer um fortíssimo derrame cerebral, se depara com os movimentos do corpo todos paralisados, salvo os movimentos de seu olho esquerdo, que possibilitam com que este possa se comunicar com as demais pessoas apenas “piscando letras do alfabeto”. Em outras palavras, Schnabel cria aqui uma verdadeira obra-de-arte.

Realizando um casamento perfeito entre direção e fotografia, Julian Schnabel e Janusz Kaminski (respectivamente: diretor e diretor de fotografia do filme) criam um dos primeiros atos mais inesquecíveis da história do Cinema. Infelizmente, o roteirista Ronald Harwood não colabora muito quando decide prolongar demais (e desnecessariamente, diga-se) a primeira parte do filme. Mas antes de citar os defeitos do longa, peço permissão ao caro leitor para mencionar as qualidades deste que, certamente, encontram-se em maior número.

Conforme havia informado acima, o casamento entre direção e fotografia de “O Escafandro e a Borboleta” funciona da maneira mais perfeita o possível durante o primeiro ato da obra. A fim de conferir o máximo de naturalidade possível à mesma, Schnabel adota a câmera em primeira pessoa (a mesma utilizada por Alfred Hitchcock no sensacional “Janela Indiscreta”), assumindo assim os “olhos” do protagonista, fazendo com que tudo seja exibido ao espectador da maneira mais verossímil o possível.

Kaminski, por sua vez, proporciona a nós, sortudos espectadores, uma fotografia que extrapola os limites da perfeição, alternando entre vários tons de cor, conforme o estado psíquico e/ou físico em que o protagonista se encontra. Só para mencionar alguns exemplos, após acordar do derrame cerebral pela primeira vez, a fotografia toma os devidos cuidados para que o espectador tenha a impressão de que Jean-Dominique Bauby (protagonista do filme) está com a visão inteiramente embaçada. Por outro lado, a fim de demonstrar ao espectador que o protagonista não se mostra capaz de permanecer com o olho aberto por muito tempo, Kaminski vai proporcionando tons cada vez mais escuros à fotografia conforme Jean-Do “luta” a fim de evitar com que o seu olho se cerre, demonstrando o quão exaustivo é tal esforço, caso o mesmo se prolongue por mais do que alguns míseros segundos.

Juliette Welfling, responsável pela (soberba) edição do longa, também merece ser aplaudida de pé. Assim como a direção e a fotografia colaboram muito para que o filme seja altamente impactante, não apenas mantendo a naturalidade da obra, como também encarnando no espectador todo o sentimento do protagonista, a edição possui praticamente as mesmas funções e só para que o leitor possa ter uma idéia do que estou afirmando, durante os minutos iniciais do longa, nas cenas em que Jean-Do encontra-se com a memória quase que totalmente baqueada, Welfling emprega cortes rápidos, a fim de retratar os lapsos memoriais do protagonista.

Infelizmente o roteiro não se mostra tão eficiente quanto a fotografia, a edição e a direção do longa se mostram. Não, em momento algum afirmei que o mesmo deixa de ser excelente, o trabalho de Ronald Harwood apenas não se mostra tão perfeito quanto o trabalho dos demais artistas envolvidos com a obra. Durante o primeiro ato (sempre o primeiro ato, mas fazer o quê? Ele é o grande diferencial da obra), por exemplo, o roteiro parece fazer questão de retratar em demasia o processo de tratamento de Jean-Do, algo que acaba não contribuindo tanto para a conclusão da obra. Se Harwood tivesse sido mais objetivo no início do filme e aproveitado para se aprofundar mais durante o final do mesmo, certamente a experiência teria sido ainda melhor do que ela já foi.

Para finalizar, aproveito o gancho do primeiro parágrafo, acerca da pergunta sobre o que vem a ser Arte, e informo que, da próxima vez que me fizerem tal questionamento, respondê-lo-ei da seguinte maneira: “___ Assista a “O Escafandro e a Borboleta” e terá a concepção exata do que vem a ser Arte”.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Uma Ligeira Pausa, o Retorno

Assim como no ano passado, novamente encontro-me no delicado período anual das provas finais. Assim como no ano passado, mais uma vez não vejo outra alternativa de solucionar este meu pequeno problema (e digo “pequeno problema” no sentido eufemista, levando em conta que a minha vida de acadêmico de Direito não anda nada fácil) a não ser interromper as atividades do “Cine-Phylum” por um curto período de 15 (quinze) dias, retomando as atividades deste por volta do dia 13 (treze) ou 14 (quatorze) de dezembro.

Até lá, creio que será humanamente impossível realizar a publicação de críticas dos filmes que estão em estréia nos cinemas nacionais. Talvez eu venha a publicar a crítica de “[REC]” (filme este que assisti na última sexta e a análise escrita do mesmo encontra-se em sua fase inicial) no decorrer desta semana, mas, do jeito que a minha vida anda de pernas para o ar nestes últimos dias, creio que será muitíssimo pouco provável fazê-lo.

Mas acalmem-se, o blog não ficará completamente inerte durante estes dias. Da mesma forma que fiz no ano passado, aproveitarei estas férias forçadas para realizar a publicação de alguns textos que redigi e ainda não foram publicados aqui, como é o caso de alguns clássicos absolutos do naipe de “Metrópolis”, “Os Sete Samurais”, “A Lista de Schindler” e a antiga trilogia “Star Wars”, dentre outros filmes um pouco mais recentes que ainda não foram postados neste blog até o presente momento, como é o caso de “Star Wars – The Clone Wars”, a recente trilogia “Star Wars”, “Superbad – É Hoje!”, “Boa Noite, e Boa Sorte”, “Hellboy II – O Exército Dourado”, “O Procurado”, e o meu texto mais popular no Papo Cinema: “A Múmia: A Tumba do Imperador Dragão”.

Com isto, pretendo publicar ao menos uma análise diária até o dia 14 de dezembro e a partir de então, prometo que até o final do ano minha atenção para com o blog será muito maior do que ela tem sido até o presente momento, uma vez que estarei de férias acadêmicas, fato que me possibilita um razoável tempo vago a fim de dedicar-me ao desenvolvimento do “Cine-Phylum”.
Muito Obrigado a todos vocês e até a próxima!
Um fortíssimo abraço!
Daniel Esteves de Barros – Editor do “Cine-Phylum”

sábado, 22 de novembro de 2008

Max Payne - * de *****

“Max Payne” era um dos jogos de computador mais populares durante a época em que “Grand Theft Auto – Vice City” liderava os rankings de vendas mundiais, sendo assim, era mais do que óbvio que muito em breve teríamos uma obra cinematográfica baseada no game para PC. Diferentemente das demais obras do gênero, que confesso só não passar longe por motivos profissionais, nutria alguma expectativa de que este longa, dirigido por John Moore, fosse, ao menos, um interessante filme de entretenimento. Ledo engano. Além de chato, arrastado e cansativo (confesso que fiz um grande esforço para não cair no sono durante a sessão), “Max Payne”, seguindo a contra-mão do jogo que lhe inspirou, não se mostra nem um pouco inovador, muito pelo contrário, é plágio descarado de muitas outras obras cinematográficas produzidas entre os anos 80 e 90, conforme o leitor poderá constatar na crítica infra.


Ficha Técnica:
Título Original: Max Payne.
Gênero: Policial.
Ano de Lançamento: 2008.
Nacionalidade: EUA.
Tempo de Duração: 100 minutos.
Diretor: John Moore.
Roteirista: Beau Thorne.
Elenco: Mark Wahlberg (Max Payne), Mila Kunix (Mona Sax), Beau Bridges (BB Hensley), Ludacris (Jim Bravura), Chris O’Donnell (Jason Colvin), Donal Logue (Alex Balder), Amaury Nolasco (Jack Lupino), Kate Burton (Nicole Horne), Olga Kurylenko (Natasha), Rothaford Gray (Joe Salle), Joel Gordon (Owen Green), Jamie Hector (Lincoln DeNeuf), Andrew Friedman (Trevor), Marianthi Evans (Michelle Payne), Nelly Furtado (Christa Balder) e outros.

Sinopse: Max Payne (Mark Wahlberg) é um policial que, após ter a família assassinada, se infiltra em uma quadrilha de marginais viciados em uma nova droga criada pelo exército estadunidense a fim de vingar a morte de seus entes. Contudo, Payne acaba sendo culpado injustamente pela morte de seu parceiro e passa a ser perseguido por criminosos e policiais.

Max Payne – Trailer:

Crítica:

O mais novo filme dirigido por John Moore é, na realidade, uma salada cinematográfica. Prepare-a da seguinte maneira: misture muitas fatias de “Desejo de Matar” (se a batida estória de vingança já era realmente batida nos tempos da série protagonizada por Charles Bronson, quiçá nos dias atuais), algumas folhas de “Constantine” (efeitos visuais com direito a anjos negros, construções em chamas (que nos remetem à lembrança do inferno) e muito mais, sem contar o final “redentor” do protagonista (“___ Agora sim eu creio em anjos!”), é claro), duzentos gramas fatiados de “Os Infiltrados” (leia a sinopse e saberá o porquê), cinqüenta gramas de “A Identidade Bourne” (repare na seqüência inicial do longa, que conta com Mark Wahlberg afundando na água), muito, mas muito mesmo, “Rambo 2: A Missão” (afinal de contas, o protagonista se mostra capaz de matar, sozinho, dezenas de pessoas armadas até os dentes) ralado, e pronto, teremos “Max Payne”. Ops, mas espere aí, não está faltando algo? Um ingrediente especial ou um toque do próprio cozinheiro? Acontece que o cozinheiro aqui, tal como a sua equipe de auxiliares, não faz nada além de inserir ingredientes já utilizados infinitas vezes por outros profissionais da área.

E se o filme em questão nada mais é do que uma descarada mistureba dos aspectos das obras mencionadas no parágrafo anterior, o mínimo que podemos esperar deste é que ao menos funcione corretamente como entretenimento, não é? Pois é, mas o problema mor está justamente aí, nem como mera diversão “Max Payne” funciona. Qual o maior defeito que uma produção cinematográfica que visa apenas divertir o seu público alvo pode possuir? Se revelar um filme chato e não conseguir diverti-lo, correto? Exato, e a obra protagonizada por Mark Wahlberg falha gravemente neste quesito, uma vez que a mesma conta com uma ação levemente eficaz, mas muito má distribuída ao longo de sua projeção.

“Max Payne” já começa mal. Logo no início somos bruscamente apresentados ao protagonista da estória imergindo vagarosamente em um lago de Nova York. Depois, ficamos sabendo que o mesmo almeja buscar vingança contra os responsáveis pela morte de sua família. Em seguida, o roteiro nos introduz a algumas cenas de ação que não cativam em momento algum e, a partir de então, o personagem-título nem ao menos é explorado pelo roteiro. Não sabemos nada mais sobre o mesmo, exceto o desejo deste em se infiltrar na quadrilha e, conforme fora citado há pouco, se vingar dos assassinos de sua esposa e filho (lembrou-se de mais algum filme? Exato, “Mad Max”, como pude deixar de mencioná-lo no primeiro parágrafo?). Agora, sejamos francos, se o roteiro nem ao menos se preocupa em abordar de forma mais ampla o protagonista da estória, como este quer que nos cativemos com o mesmo? A sensação que fica é a de que o filme só se compromete em agradar os fãs do game, uma vez que estes certamente estão muito mais familiarizados com o personagem-título.

Até mesmo Mark Wahlberg, que na grande maioria das vezes realiza uma atuação competente, se mostra insatisfatório devido à visível fragilidade do péssimo roteiro de Beau Thorne que força-o a atuar de maneira extremamente caricata. Wahlberg é o tipo de ator cujo talento consegue realizar a incrível façanha de maquiar ligeiramente o pavoroso roteiro de “Fim dos Tempos”, graças à seu seguro trabalho, mas em “Max Payne” ele não se mostra capaz de salvar nem um pouco o filme, muito pelo contrário, torna a situação ainda mais desastrosa.

Adotando uma carranca mal-humorada durante o tempo todo, o ex-rapper transforma o seu personagem no estereótipo do sujeito amargurado, taciturno, e que segue a batida linhagem do indivíduo “bata primeiro, pergunte depois”. Uma espécie de Charles Bronson da segunda idade (e não é a toa que citei “Desejo de Matar” no primeiro parágrafo desta crítica, afinal de contas, “Max Payne” copiou não somente a estória daquele filme como também os trejeitos do protagonista). As demais atuações também são todas desastrosas.

O quê? Ah sim, eu sei que as pessoas que vão aos cinemas assistir ao longa de John Moore não estão tão preocupadas em avaliar a obra tomando por base características como atuação do elenco, direção, roteiro, entre outras coisas. O que eles querem mesmo é ação e efeitos visuais de primeira. Pois é como já fora previamente citado, as seqüências de ação deste “Max Payne” são levemente eficazes, mas muito má distribuídas pelo roteiro, podendo ser conferidas apenas no terceiro ato da mesma. E mesmo sendo eletrizantes (em especial a seqüência final), não há como deixarmos de notar a artificialidade presente nas mesmas. Pode-se observar tal falta de naturalidade não só através da facilidade com que o personagem-título elimina os seus opositores, contando com pouco ou nenhum auxílio, mas também pelo “sexto sentido” que Payne possui, a ponto de notar a presença de seus opositores até mesmo quando estes encontram-se perfeitamente bem escondidos ou tentam assassinar-lhe de surpresa pelas costas.

Outra grave falha presente em tais seqüências é a praticamente nula periculosidade a qual o protagonista é exposto diante das mesmas. Lembro-me perfeitamente que ao dissertar sobre “Star Wars – Episódio IV – Uma Nova Esperança” informei que a maior qualidade daquele filme era o modo como as suas seqüências de aventura, sobretudo o ataque à Estrela da Morte, se mostravam capazes de criar um clima amplamente tenso no espectador, expondo sempre os heróis do longa a uma altíssima periculosidade. Em “Max Payne” isto nunca ocorre, e quando pensamos que irá ocorrer, simplesmente aparece alguém na hora H e salva o protagonista (criativo, não?). Não bastasse Moore conferir uma fraca direção (ele nada mais faz que manter a câmera ligada enquanto os atores fingem que atuam e os responsáveis pelos efeitos visuais e CGI trabalham) à obra, ele também não se revela capaz de (salvo em alguns momentos) criar quaisquer tensões em seus espectadores.

Os efeitos visuais também deixam muito a desejar, funcionando apenas quando “resolvem” criar explosões e simular edifícios pegando fogo. No mais, se revelam cópias fiéis dos efeitos do ótimo “Constantine”, principalmente no que diz respeito a aparição de anjos negros.

Mas nem tudo são falhas no filme. Além das raras seqüências de ação que realmente valem a pena ser conferidas e dos poucos efeitos visuais que funcionam bem, “Max Payne” conta com uma fotografia magistralmente escura que, casada com uma direção de arte responsável pela construção de uma Nova York sombria e tomada pelo crime e pelas drogas, cria um clima gótico mais do que apropriado ao longa, uma vez que, após perder a família, o policial infiltrado no submundo da delinqüência passa a olhar o mundo de maneira depressiva e pessimista.

Visualmente belo, mas visivelmente falho como entretenimento e, principalmente, Arte. Esta frase resume bem “Max Payne”, um filme que se atreveu a plagiar sem quaisquer indícios de escrúpulos aspectos de diversas obras cinematográficas.

Avaliação Final: 3,0 na escala 10,0.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito - ** de *****

Apesar de detestar veementemente o demagogo Partido da Social Democracia Brasileira, vulgo PSDB, reconheço que a Secretaria Estadual da Cultura do Estado de São Paulo tomou uma atitude que teve total aprovação de minha parte: a distribuição de ingressos gratuitos para que o povo tenha livre acesso às salas de cinema que estiverem exibindo filmes nacionais. Ganhei um destes e optei por assistir a este “Bezerra de Menezes”. Os motivos? Simples, o filme narra a estória de um homem que, apesar de ser cristão fervoroso (todos aqueles que me conhecem pessoalmente, ao menos um pouco, sabem do total repudio e escárnio que nutro pela hipocrisia contida na moral cristã) lutou, sempre que possível, em prol dos mais necessitados. Outro motivo que justifique a minha escolha pelo longa? Carlos Vereza é, para mim, o melhor ator brasileiro de todos os tempos. Isso mesmo, considero-o o Marlon Brando tupiniquim, não só pelos maneirismos adotados em suas atuações como também pela qualidade das mesmas. Algo simplesmente fenomenal. Visto isso, como eu poderia deixar de assistir a um filme que traz até nós um personagem extremamente complexo e idealista, interpretado pelo meu ator brasileiro favorito? Pois é, uma pena, no entanto, que o filme esteja muito (mas muito mesmo) aquém das qualidades de ambos.


Ficha Técnica:
Título Original: Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.bezerrademenezesofilme.com.br/
Nacionalidade: Brasil.
Tempo de Duração: 88 minutos.
Diretor: Glauber Filho e Joe Pimentel.
Roteiristas: Andréa Bardawill e Luciano Klein.
Elenco: Carlos Vereza (Bezerra de Menezes), Magno Carvalho (Bezerra de Menezes Jovem), Lucas Ribeiro (Bezerra de Menezes Criança), Cláudio Raposo (Antonio Adolfo Bezerra de Menezes), Juliana Carvalho (Dona Fabiana), Mirelle Freitas (Maria Cândida), Alexandra Marinho (Cândida Augusta), Ana Rosa (Irmã de Bezerra de Menezes), Everaldo Pontes (Soares), Larissa Vereza (Cunhada de Bezerra de Menezes), Lúcio Mauro (Líder do centro espírita), Pedro Domingues (Senhor Materialista), B. de Paiva (Doutor Leopoldino), Taís Dahas (Hermínia), Fernando Piancó (Pai de Hermínia), Ana Cristina Viana (Mãe de Hermínia), Cristiane de Lavôr (Maria do Carmo), Rodger Rogério (Padre exorcista), Renato Prieto (Pedinte), WJ Solha (Freire Alemão), Robério Diógenes (Altino), Romário Fernandes (Estudante), Andrea Piol (Mãe aflita), Fernando Teixeira (Deputado Gaspar Drumond), Rutílio Oliveira (Deputado Andrade Figueira), Tarcísio Pereira (Médium João Gonçalves do Nascimento), João Dantas (Médico Mário Lacerda), Nanda Costa (Senhora), Fernando Catoni (Farmacêutico), Caio Blat (Militar) e Paulo Goulart Filho (Militar).

Sinopse: Bezerra de Menezes é proveniente de uma família rica e tradicional do sertão do Ceará e mesmo possuindo mais luxos e maior poder aquisitivo que os seus demais contemporâneos, sempre se mostrou uma pessoa humilde e disposta a lutar pela causa dos mais necessitados. Era o melhor aluno de sua classe e aos 8 anos já lecionava para os demais colegas. Mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade onde cursou faculdade de Medicina e tornou-se um profissional bastante influente e respeitado na área, desenvolvendo, inclusive, teses sobre o câncer. Sua influência proporcionou-lhe uma carreira política bastante marcante e conturbada, onde viu-se possibilitado a lutar a favor da total abolição dos escravos no Brasil. Mas o seu maior trunfo foi como doutrinador religioso, onde o mesmo conseguiu divulgar a muito custo uma religião que era alvo de muitos preconceitos na época: o espiritismo. Chegou a receber a alcunha de: “Allan Kardec brasileiro”.

Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito – Trailer:

Crítica:

Ao redigir a minha última crítica, antes desta que inicia-se agora, lembro-me de ter mencionado que “Era Uma Vez na América” tratava-se de uma obra onde Sergio Leone, assim como na grande maioria de seus filmes, optava por substituir uma gama de diálogos gigantescos por silêncios semi-completos cujas imagens significavam muito mais do que mil palavras proferidas de maneira ininterrupta. Neste “Bezerra de Menezes...” acontece justamente o contrário e nós, espectadores, acabamos nos vendo diante de uma obra do cinema nacional que conta com muito diálogo para pouca imagem.

Durante os apenas 88 minutos de projeção testemunhamos um filme que não se preocupa, salvo em raros casos, em exibir fatos da vida do personagem-título que poderiam dramatizar mais a vida deste, colaborando assim para uma relação público-protagonista muito mais concreta. Ao invés disso, a interessante, embora cansativa e não muito pormenorizada, narrativa in off feita por Carlos Vereza comete o equívoco de imaginar ser capaz de cativar o espectador substituindo cenas que poderiam realçar mais a formação ideológica do Dr. Bezerra de Menezes por breves comentários sobre os fatos marcantes na vida do mesmo. Desta forma, não fica bem esclarecido os motivos que o levaram a ser militante político, ou a ser médico, ou até mesmo a adotar o espiritismo como religião, uma vez que é obviamente necessário que o roteiro faça uso de recursos muito mais consistentes na abordagem do personagem.

A curta duração da obra dirigida por Glauber Filho e Joe Pimentel também se mostra um forte empecilho na realização de um trabalho mais minucioso. Como realizar uma ampla abordagem sobre um personagem que teve uma infância em um lugar tão pouco produtivo e ainda assim conseguiu se destacar nas mais diversas áreas (e temos que concordar que, mesmo provindo de uma família rica, é extremamente difícil alguém prosperar tanto na vida sendo natural de um lugar tão miserável quanto o que Bezerra de Menezes nasceu) em apenas 88 minutos? Como narrar ao público a importância que o considerado Allan Kardec brasileiro teve para a propagação da doutrina espírita no país em tão pouco tempo de filme? Simplesmente impossível, um esforço narrativo amplamente vazio.

O tom propagandístico adotado pela obra também se revela um grave defeito da mesma. Além de se mostrar altamente parcial e tendencioso, procurando fazer o possível e o impossível a fim de provar que o espiritismo é, definitivamente, a religião mais correta a ser seguida, o filme se mostra exacerbadamente preconceituoso com relação ao ateísmo. Logo no início do longa-metragem somos obrigados a ouvir diálogos que dão a entender que os céticos são pessoas infelizes e que jamais terão salvação. Não bastasse isso, o roteiro, em momento algum, se propõe a realizar debates religiosos de maneira fortemente fundamentada, vide a discussão entre o protagonista do filme e um ateu que lhe questiona, só para se ter uma idéia da fragilidade da obra. A defesa que Bezerra de Menezes exerce é absurdamente risível e os fundamentos utilizados por este durante tal cena poderiam ser facilmente rebatidos por qualquer criança de sete anos de idade (contanto que a mesma fosse atéia, o que seria improvável vindo de uma pessoa com tão pouca experiência de vida), bastaria esta dizer: “___ Se o materialismo nunca salvou pessoa alguma, o que representam os medicamentos, os materiais de enfermagem e as vacinas? São ferramentas do espírito no combate contra enfermidades? Foi Deus quem proporcionou diretamente ao Homem tais avanços medicinais?”.

Mas os problemas não param por aí. A pieguice do longa também é algo extremamente incomodante, como podemos testemunhar na exagerada cena onde o protagonista entrega o seu anel de formatura a uma paciente visando cobrir os gastos que esta viria a ter com medicamentos para curar uma enfermidade de seu filho. Falando nisso, chega a dar nos nervos ver o modo como o roteiro desenvolveu o seu protagonista. Bezerra de Menezes certamente era uma pessoa de índole ilibada, mas provavelmente, assim como toda e qualquer pessoa, contava com um ou outro desvio de caráter, ou vocês, caros leitores, realmente acreditam que o cearense era esse “robô” destinado a fazer exclusivamente o bem, conforme mostra o filme?

Não bastasse toda a pieguice mostrada em cena, tanto pelas circunstâncias criadas pelo roteiro quanto pela caracterização do personagem-título, a trilha-sonora colabora ainda mais para tal demonstração negativamente efusiva de melancolia. Adotando o barato truque de comover o espectador produzindo acordes tristes, o trabalho de Ítalo Maia se revela um tanto o quanto pífio e piegas (ao invés de atribuir uma carga dramática mais conveniente à trama), algo que se mostra gritantemente prejudicial à avaliação final da obra.

A essa altura o leitor já deve estar imaginando que o filme é um desastre total, não? De fato o mesmo conta com inúmeros e imperdoáveis defeitos, mas não há como negar os acertos deste. A direção de arte, por exemplo, é extremamente simples, mas acerta em cheio ao reproduzir o período histórico almejado (no caso, final do século XIX e início do século XX), principalmente pela utilização de móveis e imóveis carregados de detalhes típicos da época. O figurino também conta com os mesmas características da direção de arte e ajuda a engrandecer muito a obra.

A narrativa in off apresenta graves falhas conforme já fora dito anteriormente, contudo, não há como deixarmos de notar a formalidade oratória com que a mesma fora construída. Palavras do nível de “clarividência” são freqüentemente utilizadas aqui, conferindo à narração um tom fortemente poético (e quem lê os meus textos há algum tempo já sabe o quanto eu valorizo termos gritantemente rebuscados), mas o que mais engrandece a mesma é, incontestavelmente, o tom de voz que Carlos Vereza adotou a fim de construí-la.

Falando no ator, é de sua atuação que vem a maior qualidade e o maior diferencial do filme. Apesar de não estar tão carismático e expressivo quanto esteve em outras obras que contavam com a sua participação (incluindo filmes, peças teatrais e telenovelas), “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito” se privilegiou com a experiência deste que considero o melhor ator brasileiro de todos os tempos, o que acabou contribuindo bastante para a construção de um personagem tão importante quanto este, fato que o roteiro demonstrou total incompetência ao tentar fazê-lo.

É lamentável, no entanto, notarmos que o roteiro, a direção, e vários outros aspectos técnicos e artísticos de “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito” estão visivelmente aquém do brio de seu ator principal e de sua principal fonte de inspiração: o Allan Kardec brasileiro. Uma lástima, dois grandes gênios da história de nossa nação, sendo um da teledramaturgia e outro da medicina e da religião, mereciam um filme bem mais condizente com o talento de ambos.

Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.

sábado, 15 de novembro de 2008

Era Uma Vez na América - **** de *****

Certamente, o único grande clássico de Leone que eu ainda não havia tido a oportunidade de assistir. Foi seguindo as recomendações de um colega de trabalho (refiro-me à minha carreira de funcionário público), que, surpreendentemente, se revelou um cinéfilo quase tão fanático (ou mais) quanto eu, que decidi assistir a este “Era Uma Vez na América” o quanto antes. Durante o seu início, o longa acabou superando todas as minhas expectativas, contudo, em seus momentos finais a estória toda foi por água abaixo. Uma pena, lamentavelmente uma pena, poderia ter facilmente entrado na minha lista de filmes prediletos, mas acabou não o fazendo, ficando com o singelo título de “filme ótimo”. De qualquer forma, é um clássico do Cinema e assisti-lo se revela algo imprescindível a qualquer pessoa que se julgue cinéfila.


Ficha Técnica:
Título Original: Once Upon a Time in America.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 1984.
Nacionalidade: Itália / Estados Unidos.
Tempo de Duração: 236 minutos.
Diretor: Sergio Leone.
Roteiristas: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini e Sergio Leone, baseado em livro de Harry Grey.
Elenco: Robert De Niro (David Aaronson), James Woods (Maximillian Bercouicz), Elizabeth McGovern (Deborah), Treat Williams (Jimmy O'Donnell), Tuesday Weld (Carol), Burt Young (Joe), Joe Pesci (Frankie Monaldi), Danny Aiello (Chefe de Polícia Aiello), William Forsythe (Philip Stein), James Hayden (Patrick Goldberg), Darlanne Fluegel (Eve), Larry Rapp (Fat Moe), Dutch Miller (Van Linden), Robert Harper (Sharkey), James Russo (Bugsy), Jennifer Connelly (Jovem Deborah) e Sergio Leone (cobrador).

Sinopse: No último filme de sua carreira, o cineasta Sergio Leone explora o mundo da máfia judia em Nova York. Narrando a estória de quatro amigos que, nos anos 1920, iniciam-se no submundo da marginalidade cometendo pequenos crimes, o longa traça um panorama sobre a amizade destes durante várias fases de suas vidas até que, graças à traição de um membro da quadrilha, o bando acaba tendo um trágico final.

Once Upon a Time in América – Trailer:

Crítica:

Sensibilidade. Essa é a palavra que nos vem à mente quando pensamos em um filme de Sergio Leone. E se lucubrarmos um pouco mais, a palavra “sensibilidade” se mescla com algumas outras e forma uma sentença que passa a condizer mais com o que o cineasta italiano nos é capaz de transmitir através de sua Arte. Que tal então precedermos o vocabulo “sensibilidade” por “captação de” e procedermos a mesma por “artística”? Sim, “captação de sensibilidade artística”, é isso o que Leone nos passa mediante os seus filmes, sobretudo, clássicos absolutos como “Por uns Dolares a Mais”, “Três Homens em Conflito”, “Era Uma Vez no Oeste” e, é claro, este último regalo do grande legado cultural que o cineasta ofertou à humanidade: “Era Uma Vez na América”.

Assim como em quase todos os grandes clássicos de Leone, esta obra-prima do Cinema “gangster” submerge em poços de taciturnidades. Taciturnidades estas que valem muito mais do que mil palavras proferidas ininterruptamente. O silêncio aqui se revela muito conveniente, mais do que isso, diria até mesmo que é inerente à apreciação completa da trama. Qualquer diálogo que ouse contrastar com a maravilhosa trilha-sonora de Ennio Morricone soada ao fundo se torna mais do que mal vindo, se revela um agente desarmoniozo, um aniquilador de elos estabelecidos entre público e obra-prima.

Mas que silêncio tão importante vem a ser esse? O mesmo silêncio que abre clássicos absolutos como “Três Homens em Conflito”, representados pela isenção de diálogos que, magistralmente, nos remete à sensação de estarmos presenciando uma pintura em movimento, capaz de introduzir o espectador à trama capturando-o de tal maneira que passamos a nos sentir encarcerados (no melhor sentido o possível da palavra) dentro desta, como se fossemos parte inseparável da obra cinematográfica.

Como Leone consegue isso? Não sei dizer, só sei que o diretor o faz, e muito bem feito, diga-se de passagem. Da mesma forma que sentíamos a riqueza de detalhes de “Era Uma Vez no Oeste” nos transportar suavemente para o lado oposto do visor fazendo o uso de pequenos efeitos de sonoplastia, como o perturbador rugido de um velho moinho volteando ou então o som emitido por uma mosca voando pelo cenário, percebemos que a mesma riqueza de detalhes fora empregada também em “Era Uma Vez na América” com o mesmo propósito. E sabem o que é o melhor nisso tudo? Leone conseguiu faze-lo com ainda mais êxito neste drama de 1984 do que o fizera no western de 1969.

Vide a seqüência inicial, por exemplo. Temos uma gama de efeitos de sonoplastia cuidadosamente distribuídos pelo filme que tornam a trama altamente verossímil. É como se realmente estivéssemos dentro do cenário. Como não se sentir inserido na obra ouvindo os ruídos de um telefone tocando, ou de um trem chegando à estação, ou até mesmo ao perceber a importância que Leone atribui, inclusive, ao som que um par de sapatos emite enquanto o indivíduo que o está calçando caminha por uma sala vazia? É justamente este tipo de característica que torna os filmes do mestre dos western spaghetti tão prazerosos de serem assistidos.

Mas não é exclusivamente através de silêncios profundos, ou semi-profundos, e ruídos extremamente convenientes que se alicerça a total captação artística deste "Era Uma Vez na América". Não, muito pelo contrário, a preocupação que o cineasta tem para com o modo como as cenas são filmadas colaboram muito mais com o resultado final do filme, artisticamente falando. Como não se cativar com o modo com que Leone concretiza algo tão abstrato quanto a inocência durante uma cena extremamente simples, embora indubitavelmente precisa em seu objetivo mor, onde um garoto come um modesto pedaço de bolo (repare que, ao tomar tal atitude, a criança opta pela inocente e deliciosa sensação que se tem ao degustar um doce, ao invés de por em prática a sua tão esperada iniciação sexual. É o maior deleite de uma criança confrontando, e derrotando, o maior deleite de uma pessoa adulta, tudo em uma única cena)?

A crueldade e a frieza com que a máfia realiza as suas operações também pode ser resumida em uma única cena do filme e o que mais acaba surpreendendo é o modo como a mesma é executada: sem utilizar violência física, ou até mesmo verbal ou psicológica. Refiro-me à seqüência hilária, e ao mesmo tempo revoltante e vil, em que os quatro amigos de infância, agora ligados à máfia judia, trocam um grande número de bebês dentro de uma maternidade. Ao mesmo tempo em que presenciamos toda a sagacidade e originalidade do roteiro mostrando o modo como os gangsters realizam uma espécie de seqüestro (com a diferença de que, aqui, a vítima não é mantida em cativeiro sob a tutela dos seqüestradores) sem nem ao menos ameaçar a integridade física ou o direito à liberdade das vítimas, nos sentimos tremendamente perturbados e inconformados com a crueldade e a frieza adotadas pelos bandidos durante tal ação. Afinal de contas, o que pode ser mais cruel: colocar a cabeça de um cavalo de corrida debaixo dos lençóis do proprietário do mesmo ou tirar de inúmeros pais, mesmo sem utilizar-se de violência e/ou grave ameaça, o direito que estes possuem à guarda de seus filhos? A aspereza da cena agrava-se ainda mais quando os marginais dizem: "___ Somos mais fortes que o destino. Damos pais com condições de conferirem vidas boas à crianças que deveriam ter famílias pobres, e fazemos o contrário com as demais crianças.". Sem dúvida, algo repugnante. Em menos de vinte minutos Leone se mostra capaz de retratar toda a maldade presente no submundo do crime, e o que é melhor, sem fazer uso de violência direta. Algo que o Cinema jamais havia presenciado antes, nem mesmo em "O Poderoso Chefão".

Contudo, de que adianta tanta sensibilidade artística sendo projetada bem diante de nossos olhos se não tivermos grandes profissionais para vivenciá-las? Pois é, Leone pensou muito a respeito disso e chamou um elenco absurdamente competente para cumprir tal tarefa. O destaque dentre os atores, como não poderia deixar de ser, fica com a soberba dinâmica desenvolvida entre a dupla Robert De Niro e James Woods. O primeiro, como sempre, adere às suas clássicas expressões para compor o seu personagem, variando desde a elevação labial demonstrando preocupação, ao seu clássico sorriso sem dentes de orelha a orelha. Woods, por sua vez, faz o milagre de conseguir roubar a cena do próprio De Niro sempre que entra em ação. Detentor de um carisma mais do que inerente à construção de Maximillian Bercouicz, o ator esbanja talento durante o filme todo e nos presenteia com um trabalho extremamente consistente. O elenco secundário, inclusive os atores mirins, que se mostram perfeitamente bem entrosados, também cumpre magistralmente bem a sua função e se mostra altamente imprescindível para o satisfatório resultado final do filme.

Outro atributo extremamente importante do filme é a sua montagem. É fascinante vermos o modo como Nino Baragli consegue realizar convenientes e gigantescos saltos temporais retroativos e ultrativos de modo vastamente sutil, a ponto de nem percebermos que a narrativa avançou, ou regrediu, décadas e mais décadas a partir do momento em que a mesma parou. E é claro que, tão importante quanto a montagem de Baragli para a obtenção de tal clarividência na estrutura da narração, é a direção de Leone que confere efeitos imperceptíveis à composição desta. Note a seqüência em que o personagem de Robert De Niro sai pela porta de uma estação ferroviária e, logo em seguida, adentra pela mesma porta que havia saído outrora. Apesar de tal cena ter sido realizada em uma única tomada, ela surpreende o espectador por avançar 35 anos na trama, de modo que nem notamos tal progressão.

Analisando tudo o que fora mencionado até este exato momento, o leitor deve ter observado que o filme é pura perfeição técnica e artística, correto? Não, infelizmente não. Os momentos finais deste “Era Uma Vez na América” acabaram sendo uma das mais decepcionantes sensações que já tive ao assistir a um determinado filme. É lamentável vermos o modo como um roteiro brilhante, que até então havia realizado um complexo estudo sobre a amizade, a ambição, a crueldade, a ganância, o poder e o crime organizado, se propõe a encerrar a sua narrativa de modo extremamente simplório, nada original e, mormente, artificial.

O desfecho trazendo um “Noodles” arrependido, bom caráter e carregado de valores morais é de uma artificialidade que chega a causar gravíssimos incômodos e insuportáveis repulsas ao espectador. Um modo completamente tolo e dispensável de se encerrar a saga de um dos maiores mafiosos da estória do Cinema. A alteração da índole do protagonista da estória, além de previsível, se revela uma solução exorbitantemente simplória que os roteiristas acabaram adotando a fim de amarrar as pontas de um longa-metragem de quase quatro horas de duração (indiscutivelmente, o mais longo filme que já assisti em toda a minha vida). Uma pena, uma obra tão perfeita quanto esta merecia um desfecho muito menos “redondinho” do que o que lhe fora atribuído. De qualquer forma, uma obra fantástica, indispensável ao “currículo” de um cinéfilo.

Obs.: Não deixem de conferir total atenção à participação marcante que o diretor Sergio Leone realiza no filme como vendedor de ingressos na estação ferroviária.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amigos, Amigos, Mulheres à Parte - * de *****

Estive pensando em utilizar esta pré-crítica para falar mal do título nacional conferido ao filme, uma vez que “A Garota de Meu Melhor Amigo” seria muito mais condizente com a obra em si do que o título que fora atribuído à mesma aqui no Brasil. Contudo, se assim o fizesse, estaria adotando esta atitude pela milésima vez apenas neste ano. Visto isso, comentarei a estranha expectativa que “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” causou-me logo em seu início. Sábado fui ao Shopping Center de minha cidade (Jaú, Centro-Oeste paulista) conferir o novo “007” (série pela qual nutro um carinho especial, haja visto que a mesma colaborou imensamente para a minha formação como cinéfilo) e após o término desta sessão optei por assistir a um outro filme: “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte”. Confesso que não esperava absolutamente nada do filme, mas logo em seu início cativei-me com o mesmo, apesar dos clichês que este poderia vir a ter caso mantivesse a mesma posição mostrada em seu primeiro ato. A comédia então muda de rumo, foge de alguns clichês que poderia vir a ter, mas infelizmente torna-se pior do que seria caso mantivesse a proposta apresentada em seu início. Moral da história: nem sempre é uma idéia inteligente fugir dos clichês de um determinado gênero cinematográfico, conforme o leitor poderá conferir na crítica a seguir.


Ficha Técnica:
Título Original: My Best Friend’s Girl.
Gênero: Comédia Romântica.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.mybestfriendsgirlmovie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos.
Tempo de Duração: 101 minutos.
Diretor: Howard Deutch.
Roteirista: Jordan Cahan.
Elenco: Dane Cook (Tank), Kate Hudson (Alexis), Jason Biggs (Dustin), Alec Baldwin (Prof. Turner), Diora Baird (Rachel), Lizzy Caplan (Ami), Riki Lindhome (Hilary), Mini Anden (Lizzy), Hilary Pingle (Claire), Nate Torrence (Craig), Malcolm Barrett (Dwalu), Taran Killam (Josh) e Faye Grant (Kerrilee).

Sinopse: Dustin (Jason Biggs) é um rapaz tímido e retraído que ama Alexis (Kate Hudson), uma jovem bonita e meiga. Contudo, a moça, antes de assumir um relacionamento sério com o rapaz, pretende conhecer outros homens e adquirir mais experiência. A fim de fazer com que Alexis perceba que homens iguais a ele está cada vez mais difícil de se encontrar, Dustin pede para que o seu amigo Tank (Dane Cook) faça o que ele mais sabe fazer: conquistar o coração de pobres garotas e, logo em seguida, desprezá-las ao máximo. O plano dá certo, contudo, inexplicavelmente Alexis passa a nutrir um certo amor por Tank (apesar de considerá-lo um idiota), que passa a fazer sexo casual com a garota.

My Best Friend’s Girl – Trailer:

Crítica:

Quando “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” teve o seu início, por um motivo que não sei dizer exatamente o porquê, me senti cativado com o mesmo. A impressão que tive foi a de que iria presenciar uma comédia romântica clichê, formulaica e previsível, mas, de certa forma, agradável. E por mais que eu seja um cruzado na luta contra os clichês cinematográficos, devo dizer que não julgo que um filme que conte com uma enxurrada deles deva ser automaticamente taxado de filme ruim (vide “O Procurado”, por exemplo).

Francamente, não me importo que um filme conte com alguns chavões, contanto que este saiba utilizar os mesmos para produzir algo decente, convincente e favorável a si mesmo. É o caso de “O Pai da Noiva” (refilmagem do clássico homônimo de 1950), com Steve Martin e Diane Keaton, por exemplo. O longa de 1991 conta com inúmeros clichês, mas se revela um passatempo divertido e atraente para toda a família. Por algum motivo, que não sei explicar ao leitor exatamente o qual seria, esperava isso deste “Amigos, Amigos...”: uma comédia bobinha, nada original, mas suficientemente agradável, destes típicos filminhos tolos onde o mocinho fica com a mocinha no desfecho e todos os espectadores saem do cinema com um parvo sorriso sem dentes, imaginando que a vida não é tão cruel o quanto parece ser e que no final tudo pode dar certo. Infelizmente estava enganado.

Logo no início da película somos apresentados ao casal Dustin (Jason Biggs) e Alexis (Kate Hudson). O primeiro, um jovem tímido, inseguro e, apesar do filme não explorar muito bem isto, aparentemente intelectual (digo isso levando em conta que o mesmo é vegetariano e as pessoas que seguem este padrão alimentar geralmente são dotadas de um intelecto acima do normal). A segunda, uma garota bonita, extrovertida, meiga, dotada de alguma inteligência, mas que mostra uma certa insegurança ao tomar suas decisões (ao contrário do que o filme pretende demonstrar durante o seu desenrolar, ela não é nem um pouco segura e decidida). Dustin ama Alexis e a garota sabe disso, no entanto, a mesma prefere manter um relacionamento apenas amigável com o rapaz até perceber que está matura o bastante para assumir um compromisso mais sério (no momento, a mesma estava apenas “ficando” com um colega de trabalho).

Analisando o parágrafo supra, pode-se previamente concluir que o longa irá investir nas tentativas de Dustin conquistar o coração de Alexis e que, no final, ambos viverão felizes para sempre. Isto é original? Nem um pouco, é fato, mas ainda assim cativei-me com a possível premissa do filme. Talvez seja porque tenha me interessado pela maneira como o roteiro preocupou-se em explorar de modo convincente os personagens logo em seu intróito, ou talvez seja porque tenha me cativado com as atuações de ambos os atores (podem atirar pedras em mim, mas creio que os dois se saíram muito bem), mas o mais provável é que eu tenha me identificado com a situação em que o rapaz se encontrava: estar apaixonado por uma grande amiga sua que sabe que seria feliz ao seu lado, mas que por um motivo muito estranho acaba se interessando por um colega de trabalho que ele julga ser um perfeito idiota (e de fato, o é. A propósito, é incrível (e revoltante, diga-se), vermos como as mulheres se interessam por caras completamente idiotas, não?).

A trama se desenvolve, toma outra rumo. Alexis desiste do “ficante”, Dustin faz uma outra tentativa, a garota insiste que precisa adquirir mais experiência, o jovem elabora um plano para fazer com que a mesma perceba que homens iguais a ele são raros hoje em dia. O personagem de Biggs decide então pedir para que o seu melhor amigo e companheiro de quarto Tank (Dane Cook) faça o que ele melhor sabe fazer: conquistar o coração de uma mulher, no caso Alexis, e depois despreza-la o máximo que puder. A partir daí a trama passa a caminhar de modo extremamente absurdo (existe coisa mais absurda do que pedir para o melhor amigo conquistar o coração da amada e depois despreza-la, fazendo-a notar que são raros os homens decentes no mundo?), mas não restam dúvidas de que o carisma e os trejeitos adotados por Cook acrescentam, e muito, à produção (podem atirar pedras em mim novamente).

O roteiro muda completamente o seu foco. O interessante Dustin deixa de ser o protagonista da trama, fazendo com que a mesma perca muito de sua força, mas ao menos passa a atribuir tal função a um personagem cuja irreverência e mal-caráter acabam cativando o público quase tanto o quanto o seu melhor amigo o fazia. Contudo, acontece o previsto, Tank sai com Alexis, prova a esta que é um tremendo de um imbecil egoísta, mas por algum motivo extremamente artificial, a garota passa a amar e odiar o rapaz simultaneamente, almejando manter com este um relacionamento descompromissado, fazendo apenas sexo casual com o mesmo.

A esta altura a trama já extrapola os limites do absurdo e do ridículo. Alexis, que se mostrava uma mulher contida, inexplicavelmente se torna uma, com o prévio perdão da palavra, biscate (peguei pesado, não? Desculpem, mas foi inevitável). O filme que aparentava ser uma comédia romântica redondinha, contendo apenas piadas corretinhas (salvo uma ou outra), vira um berço de piadas relacionadas a sexo. O que eu tenho contra estas piadas? Nada, absolutamente nada, contanto que sejam bem feitas e funcionem. Vide “Superbad- É Hoje!” para se ter uma idéia do que estou falando. O filme funciona muito bem justamente por ser um aglomerado de gags “sujas” e imorais, contudo, é correto afirmar que o roteiro do longa funciona muito bem com tais piadas. O mesmo não acontece com este “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte”.

Mantendo a pretensão de ser engraçado e divertido o tempo todo, o único resultado que o longa consegue obter com o seu humor politicamente incorreto é apresentar ao leitor situações cômicas que já foram utilizadas de maneira parecida em filmes similares a este. Sendo assim, seqüências como as que Tank, durante uma aula de televendas, conversa com Alexis pelo telefone imaginando tratar-se de uma cliente insatisfeita, ou uma outra em que o mesmo leva uma moça evangélica à uma pizzaria que satiriza a Santa Ceia, provocando total repúdio à jovem (esta, aliás, uma cena deliciosamente imoral e que apenas eu, que sou ateu fanático, ri no cinema), se mostram raros exemplos de piadas que realmente funcionam bem.

Mas o longa, infelizmente, reservou o seu pior para o final. Após descobrir que Alexis está começando a se apaixonar por ele (e ele por ela), Tank, durante a festa de casamento da irmã da garota, decide bolar dez motivos para fazer com que a mesma definitivamente se esqueça dele. Aí o filme descamba de vez para um humor assumidamente pastelão e sem a menor graça, além de se mostrar nojento, imbecil e sexualmente apelativo. Nem mesmo a composição de Dane Cook (que até então vinha se revelando interessante e natural), nem mesmo o carisma de Alec Baldwin (que aparece na película interpretando um personagem altamente dispensável) e nem mesmo a boa impressão que o filme havia nos causado em seu início (graças às características de seu pré-protagonista (se é que este termo existe e pode ser bem empregado nesta parte do texto) Dustin, que simples e injustamente é abandonado pelo roteiro durante o desenrolar do mesmo e só volta no terceiro ato, da maneira mais insatisfatória o possível), se revelam capazes de salvar o filme do desastre total.

Pois é, nem sempre é uma boa idéia um filme desviar-se de seu foco inicial a fim de fugir da previsibilidade que este poderia conferir no final da trama. Na pior das hipóteses (que é o que acaba acontecendo neste “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte”), o roteiro acaba fugindo de um desfecho convencional para cair em um outro quase tão convencional quanto, e o que é pior, aborrece o espectador e se mostra obrigado a aderir à mudanças de caráter para lá de artificiais a todos os seus protagonistas (nem mesmo o contido Dustin acaba escapando de tal mutação inconveniente proporcionada pelo roteiro, conforme o espectador poderá confirmar na cena inserida após o desfecho do filme).

Uma pena, em seu início aparentava ser um filme suficientemente divertido e agradável, apesar de tolo. Em seu desfecho, no entanto, revelou-se uma produção apenas tola, e nada mais.

Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

domingo, 9 de novembro de 2008

007 - Quantum of Solace - ** de *****

Nada mais justo do que utilizar esta pré-crítica a fim de demonstrar o carinho que sinto pela série “007”, uma vez que, como crítico de Cinema, jamais tive a oportunidade de fazê-lo, haja visto que nunca havia criticado um outro filme da saga anteriormente (exceto “007 – Cassino Royale” onde eu realizei um breve comentário sobre o mesmo). Quando escrevi sobre “Os Caçadores da Arca Perdida” fiz questão de deixar bem claro que nunca fui, e continuo não sendo, um grande fã da saga “Indiana Jones”, apesar de reconhecer todos os acertos da mesma. No mesmo texto mencionei o meu fanatismo incondicional pelas franquias “Guerra nas Estrelas”, “De Volta Para o Futuro” e “007”, uma vez que, não fosse pelas mesmas, jamais nutriria o amor que hoje em dia nutro por Cinema e nunca seria capaz de apreciar a filmes de cineastas como Kubrick, Fellini, Antonioni, Leone, Bergman, Kurosawa, Renoir, Truffaut, Bresson e muitos outros. Sendo assim, só tenho a agradecer à maravilhosa saga “007” e, mesmo que este 22° episódio da mesma tenha se revelado um dos piores filmes de toda a franquia, é uma honra incontestável poder criticá-lo durante a época de seu lançamento nos cinemas. Vamos à análise então.


Ficha Técnica:
Titulo Original: 007 - Quantum of Solace.
Gênero: Aventura.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.007quantumofsolace.com.br/
Tempo de Duração: 105 minutos.
Diretor: Marc Forster.
Roteirista(s): Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade.
Elenco: Daniel Craig (James Bond), Olga Kurylenko (Camille), Mathieu Amalric (Dominic Greene), Judi Dench (M), Giancarlo Giannini (Mathis), Gemma Arterton (Strawberry Fields), Jeffrey Wright (Felix Leiter), David Harbour (Gregg Beam), Jesper Christensen (Sr. White), Anatole Taubman (Elvis), Rory Kinnear (Tanner), Joaquín Cosio (General Medrano), Lucrezia Lante della Rovere (Gemma), Glenn Foster (Mitchell), Paul Ritter (Guy Haynes), Simon Kassianides (Yusef), Stana Katic (Corinne), Neil Jackson (Sr. Slate), Fernando Guillén Cuervo (Coronel da polícia), Guillermo del Toro (voz) e Alfonso Cuarón (voz).

Sinopse: Após capturar o criminoso Mr. White (Jesper Christensen), James Bond (Daniel Craig) descobre a existência de uma perigosa organização alcunhada de Quantum que pretende auxiliar um ex-ditador a retomar o poder na Bolívia em troca de uma parte significante de um deserto no interior daquele país.

007 – Quatum of Solace – Trailer:

Crítica:

A seqüência pré-crédito de “007 – Quantum of Solace” (que, diga-se de passagem, se revela a pior seqüência de abertura de um filme protagonizado por James Bond) resume bem a produção em sua totalidade: ação frenética e desenfreada, embora execravelmente dirigida e curta demais. Pois é, logo em seu intróito, esta 22ª aventura do agente secreto mais famoso do Cinema já revela todos os erros e todos os acertos inseridos no longa inteiro. Começamos com uma perseguição de carros simplesmente eletrizante e desesperadora, mas que acaba sendo atrapalhada pelo péssimo trabalho de Marc Forster que, infelizmente, realiza cortes rápidos demais entre uma cena e outra, tornando a ação desnecessariamente artificial e, não fosse pelo brilhante trabalho realizado pelo diretor alemão no fraco “O Caçador de Pipas” (cuja exigüidade do longa reside no roteiro deste, e não na direção que é simplesmente ótima), diria que o mesmo deveria ter abandonado a sua carreira há anos.

Mas o maior responsável pelo fracasso de “Quantum of Solace” não é a direção de Forster e sim o roteiro de Robert Wade, Neal Purvis e Paul Haggis (aliás, muito me surpreende ver o nome de Haggis em um roteiro tão patético como este, uma vez que o roteirista foi o responsável pelos oscarizados “Crash – No Limite” e “Menina de Ouro”). Contando com uma premissa fraca e nada atraente, o script do longa em questão se revela fraco o bastante a ponto de torná-la ainda mais desinteressante do que esta já seria por si só, conforme será explanado no parágrafo infra.

Baseado na crescente onda de líderes comunistas que dão golpes de estado e assumem o poder absoluto em países latino-americanos (a propósito, é incrível ver como Hollywood adora atacar líderes de esquerda, não? Será que eles não sabem que Hugo Chaves assumiu o poder mediante voto popular, ou seja, não deu golpe algum? É fácil para a imprensa, inclusive a nacional (liderada pela repugnante Rede Globo de Televisão), deturpar os fatos do que vem acontecendo na Venezuela a fim de alienar o povo, difícil mesmo é mostrar imparcialmente o que realmente está ocorrendo), o filme narra o envolvimento da organização criminosa Quantum (a mesma de “007 – Cassino Royale”) com um ex-líder comunista boliviano que almeja voltar ao poder. Ao passo em que a organização contribui de todas as formas possíveis para que o político regresse ao poder, esta passa a exigir do mesmo uma significante parte de um deserto localizado no interior do país. Aparentemente, o interesse dos vilões naquela parte árida da América do Sul consiste na obtenção de petróleo, contudo, o filme se desenvolve e constatamos que o bem almejado pela organização Quantum é outro muito mais inerente ao ser humano. E é justamente aí que reside um dos maiores defeitos do longa: o plano absurdo, inverossímil e implausível dos terroristas. Tão intangível que nos remete à lembrança de “007 Contra o Foguete da Morte” (não no que diz respeito à execução deste, mas sim ao excesso de abstração do mesmo).

E falando em “007 Contra o Foguete da Morte”, é absurdamente impossível não ligarmos um outro grave defeito presente no filme de 1.979 a este mais novo exemplar da série “007”: o excesso de locações para um filme que possui uma estória quase nula. Ao invés de concentrar-se em um único lugar do globo terrestre, o roteiro parece fazer questão de jogar o espectador em vários locais do planeta, funcionando mais como um guia turístico de 105 minutos do que como um filme propriamente dito. O maior problema é que a trama, em momento algum, faz jus a tantas idas e vindas, assim como ocorria em “007 Contra Gondeneye”, filme onde cada viagem realizada pelo protagonista contava com um motivo plausível para ser efetuada.

Não bastasse a direção insatisfatória de Forster, o roteiro pífio de Wade, Purvis e Haggis, e o injustificável excesso de locações, “Quantum of Solace” ainda nos faz o “favor” de criar um vilão e uma bondgirl nada interessantes. Dominic Greene só não é um antagonista ainda mais patético em virtude à ótima atuação de Mathieu Amalric (que já havia mostrado um trabalho fabuloso em “O Escafandro e a Borboleta”), que confere ao personagem um garboso sotaque francês e algumas risadas cínicas que denotam um pouco de seu caráter, do contrário, Greene poderia muito bem ter sido substituído por um efeito em CGI, bem como um rato gigante trajado em um terno, caso tal permuta não soasse uma jogada tão artificial e absurda por parte do roteiro, é claro.

Mais desprezível que o vilão Greene é a bondgirl Camille, vivida por Olga Kurylenko, que parece só fazer parte da trama para não fugir de uma tradição que a série vem mantendo desde o seu primeiro episódio. Composta de maneira nada cativante, Camille é, talvez, a bondgirl mais dispensável de todos os tempos. Absolutamente nenhuma característica proveniente da moça se revela capaz de chamar a nossa atenção (salvo, é claro, a mescla de beleza latina com charme europeu desta), nem mesmo a sua sofrida estória. Uma parte desta culpa deve-se à inexpressividade de Kurylenko, que em momento algum confere o carisma inerente à personagem, a outra parte deve-se ao roteiro que não se preocupa nem um pouco em caracterizar a mocinha da estória de maneira mais cativante.

Destarte, “007 – Quantum of Solace” não é somente esta pilha de defeitos que fora comentada até então. Muito pelo contrário, apesar de estar a anos-luz de poder ser simplesmente encarado como um filme bom (para falar a verdade, é um dos piores da franquia), esta 22ª aventura da saga se mostra, ao menos, capaz de divertir o seu público alvo. No primeiro parágrafo desta crítica fora comentado o fato das cenas de ação do filme serem curtas demais. Sim, são tão curtas que quando você começa a se emocionar com as mesmas, elas repentinamente se encerram, tornando-se um tanto o quanto, com o prévio perdão da palavra, broxantes. Contudo, não há como negar que as mesmas sejam cativantes e suficientemente divertidas a ponto de prender o espectador na poltrona durante o filme todo.

O modo como o roteiro distribui as seqüências de aventura também é algo invejável. A trama pode não ser das melhores, bem como o desenvolvimento de muitos de seus personagens, mas o script ao menos foi capaz de “maquiar” este terrível engodo semeando estrategicamente diversas cenas curtas de aventura por todo o filme, fazendo com que o mesmo, em raros momentos, se torne cansativo e/ou entediante (e sejamos francos, está cada vez mais difícil ir aos cinemas e conferir um filme de ação que realmente valha a pena, prova disso é o recente e enfadonho “Max Payne”). Em outras palavras, apesar de todos os defeitos, “Quantum of Solace” se revela um longa tão dinâmico quanto “007 Contra Octopussy” (que, por incrível que pareça, durante a minha infância era o meu ‘Bond’ predileto), “007 – Somente Para os Seus Olhos”, “007 – Permissão Para Matar” e “Moscou Contra 007”.

O grande trunfo do filme, no entanto, fica por conta de Daniel Craig e a sua perfeita composição de James Bond. Encarnando o protagonista com a mesma frieza (repare como ele deixa, sem demonstrar quaisquer sinais de arrependimentos, o corpo de um amigo recém falecido guardado em uma lixeira) e violência utilizada no ótimo “007 – Cassino Royale”, o primeiro ator loiro que veio a protagonizar os filmes da franquia usa todo o seu talento a fim de executar uma atuação ainda mais convincente e cativante do que a que fora realizada no 21° filme da saga. E se no filme anterior Craig mostrava-se bem menos charmoso do que Pierce Brosnan se revelou em “007 – O Amanhã Nunca Morre”, neste “Quantum of Solace” o britânico dá a volta por cima e confere ao longa, praticamente, o mesmo garbo adotado por Sean Connery em “007 Contra Goldfinger”. É simplesmente cativante vermos o modo natural como o ator alterna entre o agente secreto extremamente bruto (vide a seqüência em que Bond elimina quatro oponentes dentro de um elevador) e charmoso (vide a seqüência, logo após a do elevador, onde Bond utiliza o calcanhar para empurrar delicadamente o braço de um oponente seu para dentro da cabina, a fim de permitir com que a porta desta se feche automaticamente).

“Quantum of Solace” falha gravemente no que diz respeito à direção e roteiro, além de criar seqüências de ação curtas demais, mas ao menos se revela um filme dinâmico e violento na medida certa, mantendo o mesmo ritmo que o seu antecessor e provando que Daniel Craig, definitivamente, veio para ficar.

Avaliação Final: 5,0 na escala de 10,0.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Parabéns a vocês!!!

Enfim, 01 ano. Hoje completamos um ano desde a criação do Cine-Phylum. Um ano dedicando parte de meu tempo (que é bem curto, diga-se) ao desenvolvimento deste espaço na World Wide Web destinado exclusivamente à publicações cinematográficas (apenas uma única vez fugimos do assunto que foi no postPoema – Às 4 da Manhã”). Um ano corrido, trabalhoso. Diria que fora até mesmo um ano extremamente conturbado, uma vez que pensei em abandonar o blog várias vezes devido à falta de tempo para atualizá-lo e a falta de patrocínio para mantê-lo no ar. Mas façamos um balanço deste primeiro ano do Cine-Phylum.


Um ano aparenta ser pouco tempo, mas, definitivamente, não é. Pergunte a um aluno que repetiu de ano se estes doze meses perdidos não lhe fizeram uma falta terrível durante a sua vida. Pois é, um ano é muito tempo, muito tempo mesmo. Vide este blog, por exemplo. Em um único ano, podemos acompanhar o desenvolvimento da proposta estabelecida por este que é abordar a evolução do Cinema de uma forma geral, analisando filmes que marcaram, de uma maneira ou de outra, estes, aproximadamente, 113 anos de existência da Sétima Arte.


Em um único ano podemos analisar filmes extremamente antigos, os quais muitas pessoas que visitaram este endereço eletrônico provavelmente nem ao menos haviam ouvido falar, como é o caso de “Viagem à Lua”. Foi também capaz de analisarmos um outro curta-metragem mudo que marcou a história da Sétima Arte, trata-se de “Um Cão Andaluz”. Dissertamos sobre “Intolerância”, um dos maiores representantes da Era-Griffith, Era esta que revolucionou o modo de se fazer Cinema e proporcionou um forte upgrade à Sétima Arte que, em seus primórdios, não se via capaz de atrair multidões aos cinemas, assim como faz hoje.


Algumas matérias foram publicadas, entre elas, um estudo básico, embora didático, sobre a “Era Pré-Griffith”, uma época pouquíssimo conhecida entre a maioria da população (e até mesmo entre os cinéfilos), mas que, seguindo piamente a proposta do Cine-Phylum, se propôs a estudar os primeiros passos da evolução cinematográfica.


Foram abordados também clássicos da Era de Ouro do Cinema, bem como “Cidadão Kane”, “Casablanca”, “Crepúsculo dos Deuses”, “Juventude Transviada” “No Tempo das Diligências”, “...E o Vento Levou”, “8 e ½”, “A Doce Vida”, “Os Sete Samurais”, “Yojimbo”, “A Felicidade Não Se Compra”, “Rebbeca – A Mulher Inesquecível”, “O Sétimo Selo”, “Persona”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Rastros de Ódio” (este último, aliás, gerou muita polêmica por aqui) e muitos outros filmes, incluindo até mesmo o (injustamente) eleito pior filme de todos os tempos: “Plano 9 do Espaço Sideral”.


Passamos pelos conturbados e revolucionários anos 1970, este que considero o mais importante e instigante período da história da Sétima Arte. Não poupamos elogios ao falar sobre “O Poderoso Chefão” (meu filme predileto) e seu sucessor. Stanley Kubrick (meu cineasta predileto) também foi muito prestigiado por aqui, mas em um de seus mais desconhecidos (e ainda assim, melhores) filmes. Refiro-me ao majestoso “Barry Lyndon”, um épico à altura de um “Lawrence da Arábia” (na verdade, julgo-o superior ao mais conhecido filme de David Lean), mas que não teve o seu devido valor reconhecido. Analisamos também o maior responsável por uma das franquias mais extensas da história do Cinema, “Rocky – Um Lutador”. O polêmico e divertido musical hippieHair” também ganhou espaço e recebeu uma análise de minha autoria, citando todos os seus pontos positivos e negativos.


Os anos 1980 tiveram a sua representação no “Cine-Phylum” através de filmes-pipoca como “Os Caçadores da Arca Perdida” e “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Sergio Leone também foi lembrado aqui através de seu último e, segundo muitos, mais importante filme: “Era uma Vez no América”, cujo texto escrito pelo Radamés se revelou pequeno, mas extremamente bem escrito e efusivo, além de ter capturado com poucas, mas muito bem empregadas, palavras toda a magia deste magnífico longa do gênio italiano.


Durante a década de 90 mencionamos três clássicos absolutos, onde todos estes três gigantes se confrontaram na noite do Oscar® de 1991. Estou falando de “O Poderoso Chefão – Parte III”, “Os Bons Companheiros” e o vitorioso “Dança Com Lobos”, filmes que, sem sombra de dúvida, são dignos de todos os prêmios que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas poderia ter-lhes atribuído.


Os filmes mais recentes também foram estudados aqui no “Cine-Phylum”, afinal de contas, muitos deles já fazem parte da Sétima Arte, ou seja, já colaboraram para a evolução da espécie, como é o caso de “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”, “Lavoura Arcaica” (além de mim, o Radamés também escreveu uma crítica do filme de Luiz Fernando Carvalho, com a diferença de que o texto dele foi muito mais detalhista que o meu, haja visto que, na época, minhas análises tinham, no máximo, 25 linhas completas de Word®, pragmatismo que já abandonei faz algum tempo), e até mesmo os recém-produzidos “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “Sangue Negro”.


Mas não só de críticas cinematográficas viveu este blog. Conferindo a mim uma oportunidade que não tenho no Papo-Cinema (afinal de contas, um website tende a ser muito mais frio que um blog, uma vez que o primeiro conta com um caráter muito mais noticioso e o segundo mais, digamos, pessoal), o “Cine-Phylum” me deu oportunidades únicas, tais como citar uma lista com os meus diretores prediletos, que pode ser conferida no post Top 11 - Diretores. Embalado pela minha idéia, o co-editor Ricardo entrou no clima e escreveu o post CENA DE CINEMA, onde ele fez algo nunca visto antes em um website ou blog voltado à Sétima Arte: elegeu as suas 100 cenas de Cinema prediletas e, não bastasse isso, justificou o motivo da escolha e a respectiva colocação de cada uma. Um trabalho muito bem feito e que só pode ser conferido aqui no “Cine-Phylum” (a propósito, se alguém souber de algum outro “Top 100 – Cenas Cinematográficas” que fora realizado (antes do Ricardo publicar esta matéria aqui neste blog), na Internet ou por qualquer outro meio de comunicação, favor postar me avisando neste post mesmo).


Pois bem, conforme fora previamente mencionado, um ano é muito tempo, tempo de sobra para fazermos tudo o que foi descrito acima.


Mas neste primeiro aniversário (dentre muitos outros que estão por vir, espero) do “Cine-Phylum” quem realmente merece os parabéns são vocês, leitores. Sim, eu sei, é até clichê de minha parte citar isto, mas é a pura realidade. Gostaria de parabenizar a todos vocês que acessaram este espaço na Internet, que gastaram um tempo precioso consultando-o, lendo-o, ou simplesmente olhando-o “por cima”. Gostaria imensamente de agradecer a todos vocês que colaboraram, de uma forma ou de outra, para que o blog se mantivesse no ar durante todo este tempo, pois o bem da verdade é que, não fosse o excelente número de acessos que o mesmo teve ao longo deste ano (afinal de contas, é muito difícil um blog de cunho artístico e cultural obter quase 23 mil visitas em apenas doze meses) muito provavelmente teria desistido do mesmo e dedicado-me somente ao Papo-Cinema (que é o único espaço virtual onde obtenho um retorno financeiro realmente interessante).


Felizmente temos leitores fiéis, que todos os dias marcam presença aqui e que utilizam o “Cine-Phylum” como uma fonte de conhecimento.


Sendo assim, muitíssimo obrigado a todos por estarem conosco durante 01 ano e parabéns por colaborarem e apoiarem o “Cine-Phylum” durante este tempo, transformando-o no que ele é hoje: uma humilde, embora eficiente, fonte de informações e opiniões sobre a Sétima Arte.


Abraços a todos


Equipe do “Cine-Phylum