🎬 Crítica Técnica: A Substância (Coralie Fargeat, 2024), por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★ (4/5)
Impressionante, para dizer o mínimo, que A Substância seja um dos primeiros trabalhos de roteiro e direção da cineasta francesa Coralie Fargeat, especialmente considerando a eficácia com a qual ela orquestra uma narrativa tão milimetricamente calculada. A diretora se destaca pela precisão com que conduz o seu longa, mantendo a tensão e a crítica social sem nunca cair na tentação de simplificar suas mensagens ou personagens. Fargeat estabelece, logo no início, um plano-plongée revelador que sintetiza a crítica central do filme: a efemeridade da beleza e da fama. Em um único e belo movimento visual, vemos a calçada da fama se deteriorando, acompanhando o envelhecimento da estrela que um dia brilhou, até se tornar irrelevante, coberta por um hambúrguer derramado. Esta metáfora visual é uma introdução poderosa, marcando a decadência não só física, mas também existencial, que é o núcleo do filme.
O filme não se limita a um simples retrato da passagem do tempo. Ele também expõe a superficialidade da busca pela juventude eterna, criticando, de maneira ácida, a obsessão estética e a dependência de procedimentos estéticos, uma crítica que nunca se torna simplista ou moralista. A proposta de Fargeat é mais refinada: ela nos leva a questionar a dinâmica dessa busca incessante e as implicações psicológicas e sociais dessa cultura de consumo da beleza, sem transformar isso em um discurso de “feminismo barato”, como tantas vezes vemos no cinema contemporâneo. Ao invés de uma simples crítica ao patriarcado ou aos “homens maus”, o filme observa o sistema, e o personagem de Harvey, interpretado por Dennis Quaid, embora representando o estereótipo do CEO manipulador, é apresentado mais como uma engrenagem dentro de um ciclo vicioso.
A abordagem de Fargeat é clara, ao não querer culpar unicamente as figuras masculinas por esta busca insana pela perfeição física. Ela explora a questão de forma mais ampla, mostrando que as próprias mulheres, quando absorvem esse ciclo, tornam-se cúmplices, até que as consequências, como o uso excessivo de substâncias e tratamentos, se tornam inevitáveis.
A relação entre A Substância e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é clara e revelada de maneira sofisticada no roteiro. O personagem de Elizabeth Sparkle (Demi Moore) se vê presa ao dilema de preservar sua juventude e beleza ao custo de sua alma, estabelecendo uma analogia com o personagem de Wilde. A juventude de Sue (Margaret Qualley), por outro lado, parece um reflexo da juventude perdida de Elizabeth, com o filme utilizando as duas personagens como reflexos de uma sociedade obcecada pela perfeição física, onde o tempo é implacável e, eventualmente, os rostos e corpos jovens também são descartáveis.
No campo do body horror, a produção segue uma linha inspirada em clássicos como A Mosca (David Cronenberg), onde a busca pela perfeição estética se torna monstruosa, com efeitos que induzem desconforto e repulsa no espectador. O trabalho de maquiagem, supervisionado por Pierre-Olivier Persin, é de um nível excepcional, promovendo um impacto visceral que complementa o tom crítico do filme.
Lamentável, ainda que de forma involuntária, que quando a produção opte por abraçar um grotesco completo, sem preparar o público para tal, em seus minutos finais, aqui a referência (como dito anteriormente, pode não ter sido proposital) fique por conta da cena da peça de teatro que vemos em A Família Addams, protagonizada por Wedsnesday e Pugslay Addams, com a diferença de que, ali, a bizarrice fazia todo o sentido e gerou um dos momentos mais sublimes do humor negro dos anos 1990, enquanto que aqui foi totalmente desproporcional.
No que diz respeito à cinematografia, Benjamin Kracun acerta ao utilizar uma paleta saturada de cores quentes, criando uma atmosfera carregada, quase ácida, refletindo o ambiente opressor de Los Angeles, que ao mesmo tempo seduz e devora aqueles que buscam a fama e a perfeição. A opção de Fargeat em filmar Demi Moore com planos de costas, em grande angular, ou contra-plongée, reforça a sensação de opressão, sugerindo que Elizabeth se tornou irrelevante na mesma medida que sua aparência se deteriora.
A trilha-sonora, composta por Benjamin Stefanski, faz um excelente trabalho ao alternar entre a música eletrônica minimalista para Sue, sugerindo sua juventude inconsequente, e acordes pesados e sombrios para Elizabeth, refletindo sua angústia em face da decadência da fama e da beleza. As transições entre as duas personagens são suavemente feitas pela montagem, um trabalho primoroso que mantém a fluidez e o equilíbrio da narrativa.
No elenco, as atuações são memoráveis. Dennis Quaid, ao interpretar Harvey, consegue evitar a caricatura, oferecendo uma performance repleta de nuances que humaniza o personagem. Margaret Qualley se destaca pela sua habilidade de transitar entre a inocência juvenil e a crescente ambição de Sue, enquanto Demi Moore oferece a performance da sua carreira, alternando entre a desesperança e a raiva interna de Elizabeth, uma mulher que luta contra a inexorável passagem do tempo.
A Substância é um filme visceral, provocador e tecnicamente impecável. Fargeat, com sua direção precisa e sensível, oferece uma reflexão desconfortável sobre o culto à juventude e à beleza, ao mesmo tempo que constrói uma narrativa visualmente estonteante, embalada por um elenco impecável e uma direção de arte notável. A crítica à indústria do entretenimento e à efemeridade da fama é um convite para refletirmos sobre os custos reais da obsessão pela perfeição, tornando A Substância uma obra não apenas relevante, mas também necessária no contexto atual.

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