Crítica Técnica: Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (Francis Lawrence, 2023), por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★★ (3/5)
A afirmação de que a franquia Jogos Vorazes sustenta seu maior fascínio não na dinâmica romântica, nem na própria arena homicida – cuja proposta se aproxima estruturalmente da distopia de O Sobrevivente (o de 1987, não o que estreou nos cinemas mundiais por estes dias), estrelada por Arnold Schwarzenegger –, mas sim na cartografia sociopolítica que molda o universo de Panem, revela-se não só pertinente como central para compreender o ponto forte da prequela. A mitopoética dos Distritos, a fabricação das lendas locais e a disputa ideológica entre periferia e centro sempre ofereceram um manancial dramático muito mais fértil do que a mecânica dos “jogos” em si, cujo potencial metafórico, nos filmes originais, perde contundência já no terceiro ato de ...Em Chamas.
Nesse sentido, …A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes acerta ao se posicionar dentro da lógica contemporânea das prequelas – tendência consolidada desde o experimento narrativo de George Lucas no prelúdio de Star Wars –, utilizando o retorno temporal não como simples preenchimento de lacunas, mas como instrumento para reconfigurar e historicizar o regime autoritário que culminaria nos acontecimentos da tetralogia dos anos 2010. Ao reconstruir o imaginário estético, simbólico e político de Panem, o filme redimensiona a própria saga e devolve densidade a elementos que, antes, apareciam apenas como pressupostos mitológicos.
Embora o destino de Coriolanus Snow seja absolutamente conhecido, o filme justifica sua existência como exercício de contextualização: importa menos o quê e mais o como. A previsibilidade estrutural, inevitável, não invalida a relevância de observar a sedimentação progressiva do arcabouço ideológico que molda um antagonista historicamente cristalizado. Nesse aspecto, a obra funciona como arqueologia narrativa, explicitando os mecanismos de poder, as tradições culturais e os mitos inaugurais que reverberam pelos filmes protagonizados por Jennifer Lawrence.
As canções assumem papel diegético fundamental. A musicalidade carregada por Lucy Gray serve como veículo de memória coletiva e resistência, algo que, nos longas originais, permanecera subdesenvolvido. O repertório – especialmente “The Hanging Man” – opera como documento histórico oral, fortalecendo a etnografia simbólica dos Distritos e contribuindo para a organicidade do worldbuilding.
A escalação de Rachel Zegler revela-se decisiva nesse processo. Sua vocalidade, ancorada tanto em timbres melancólicos quanto em explosões performáticas, se articula formalmente com o ethos da personagem e com o papel dramatúrgico que lhe cabe dentro da narrativa. Como atriz, transita com firmeza entre a rebeldia juvenil, o terror de arena e a espontaneidade de artista popular – um espectro interpretativo coerente com a multiplicidade semiótica que Lucy Gray representa.
Tom Blyth, por sua vez, dispõe de menos margens performativas, uma vez que Snow exige contenção, cálculo e modulação gestual. Ainda assim, sua interpretação oferece textura moral ao personagem, permitindo que o espectador identifique microrrupturas éticas e pequenas distorções de caráter que justificam (ao menos no campo da atuação) a metamorfose posterior.
A composição de Viola Davis como Dra. Gaul abraça a caricatura controlada – e é justamente seu controle que impede que a personagem resvale no grotesco involuntário. A dicção umbroso-sarcástica e o desenho corporal rígido constroem uma figura de horror institucionalizado.
Já Peter Dinklage oferece uma interpretação marcada por silenciosa corrosão emocional: sua presença contida, baseada em olhares e pausas precisas, compõe um personagem devastado por ressentimento.
A direção de Francis Lawrence, no entanto, mostra-se excessivamente conservadora. Desde …Em Chamas, o cineasta parece ter encontrado uma gramática visual confortável, mas pouco inventiva. Aqui, opera majoritariamente no piloto automático, evitando experimentações formais que poderiam expandir o significado das cenas ou instaurar tensões imagéticas mais complexas.
A fotografia de Jo Willems, embora previsível, sustenta-se pela eficácia estética: os tons acinzentados da Capital funcionam como metáfora visual clara do aparato opressor, enquanto os matizes mais terrosos e naturais associados aos Distritos restauram, mesmo na distopia, uma fagulha de vitalismo. É uma paleta simbólica, ainda que pouco ousada, mas que cumpre sua função dramatúrgica.
Os problemas estruturais emergem principalmente da montagem de Mark Yoshikawa e, sobretudo, do roteiro. A construção do arco de Snow exige gradativa complexificação psicológica, mas a narrativa corre em saltos bruscos no terço final. A sensação é de que o filme colapsa sob a própria ambição: havia material suficiente para duas partes, mas o risco comercial de fragmentação impediu essa escolha; tampouco houve coragem para entregar um épico de mais de três horas, que a história claramente comportaria.
O resultado é uma introdução sólida, um segundo ato seguro – talvez demasiado preocupado em reverenciar a estética consagrada da franquia – e um terceiro ato apressado, que sacrifica o desenvolvimento do protagonista em prol de uma resolução condensada e didática. A guinada moral de Snow, que deveria emergir de ambivalências sutis, é reduzida a uma interpretação simplificada da filosofia de Rousseau: nasce-se bom, corrompe-se pelo ambiente. Para um vilão tão intrincado, a redução soa empobrecedora.
A décima edição dos “jogos”, mostrada aqui em estágio embrionário, é fascinante enquanto estudo comparativo com os torneios futuros – sua precariedade operacional revela as origens brutais do espetáculo midiático da Capital. Contudo, como elemento narrativo da prequela, serve mais como vício de franquia do que como necessidade dramática, desviando o foco de um estudo de personagem que deveria ocupar o centro do filme.
Assim, embora …A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes seja um acréscimo valioso ao universo de Panem – respeitoso, coerente e, em muitos aspectos, enriquecedor –, falta-lhe coragem formal.
O filme oscila entre honrar a mitologia estabelecida e se libertar dela; entre ser a gênese de um tirano e mais um capítulo da fórmula estrutural da série.
No fim, o que se perde não é a qualidade geral, mas a potência que a obra poderia ter alcançado se assumisse plenamente sua vocação: ou a de um grande épico de origem, ou a de uma ruptura estética e narrativa dentro da própria franquia.
Fica, portanto, como uma obra competente, mas não definitiva.



