🎬 Crítica Técnica: “O Agente Secreto” — Quando a narrativa lacradora sobrepõe a real qualidade, Por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★ (2/5).
Parte 1 – Abertura
Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que o autor desta crítica, durante a maior parte de sua existência, carregou consigo um viés ideológico claramente inclinado ao espectro esquerdista, tendo migrado para o polo oposto — de maneira consideravelmente moderada, sob sua própria ótica — por volta dos trinta e um anos de idade.
Ainda assim, tal mudança não compromete, sob hipótese alguma, o seu julgamento diante de obras que adotam um olhar mais revolucionário. Não por acaso, entre seus filmes favoritos figuram Metrópolis e O Encouraçado Potemkin, sendo este último, inclusive, peça central da campanha de propaganda soviética no período pós-Revolução Bolchevique.
Outrossim, este que vos escreve faz questão de registrar que não compactua, nem remotamente, com as atrocidades cometidas durante a Ditadura Militar iniciada em 1964, tampouco votou ou apoiou a candidatura de Jair Messias Bolsonaro — nem mesmo quando tal postura parecia ser, para muitos, “o certo a se fazer” (leia-se: a moda entre nós, sulistas).
Quando o redator deste texto se assume “de direita”, ele o faz exclusivamente para reafirmar sua defesa de um Estado menos inchado e menos voraz na arrecadação de impostos, sobretudo no que diz respeito ao financiamento público de produções cinematográficas abertamente enviesadas (ouviu, Wagner Moura?).
Feitas essas considerações preliminares, passemos, enfim, à análise da obra em si. E, sim, despida da roupagem ideológica que tanto agrada à chamada “crítica especializada”, O Agente Secreto está muito distante da obra-prima que vem sendo esfregada em nossas caras. Algumas verdades precisam ser ditas — e é exatamente isso que este texto se propõe a fazer.
Parte 2 — Direção, reconstituição de época e estética
Dado que se trata de uma produção com muito mais erros do que acertos, parece mais didático — e até mais justo — elencar primeiramente as qualidades para, só então, avançar para os pontos em que o longa merece ser devidamente esmiuçado e, sim, esculhambado. Comecemos, portanto, pelo que funciona.
A recriação de época — afinal, a trama se passa integralmente em 1977 — é minuciosa e extremamente bem resolvida. Destaca-se, sobretudo, pelos figurinos: camisas e polos surradas, frequentemente semiabertas, que não apenas sugerem o clima quente da região, mas também a precariedade econômica da população local naquele contexto histórico específico.
Esse cuidado atinge seu ápice no desenho de produção, absolutamente irrepreensível. Kleber Mendonça Filho, como já demonstrou em outras ocasiões, enxerga o cinema como uma arte essencialmente narrativa, capaz de contar histórias também por meio de elementos aparentemente periféricos. Não por acaso, ele não economiza ao preencher o cenário com pôsteres de filmes que estavam em cartaz à época — Tubarão, A Profecia, Os Trapalhões no Planeta dos Macacos, entre tantos outros — transformando o próprio ambiente em um comentário histórico e cultural.
Outros detalhes também contribuem para esse mergulho temporal: as faixas musicais tocadas nas rádios, as lendas urbanas que circulam pela cidade (a subtrama envolvendo a Perna Cabeluda é particularmente divertida), os veículos típicos da década — com destaque para o Volkswagen Fusca quase novo do protagonista — e a arquitetura da Recife daquele período.
Em diversos momentos, o esmero dessa reconstrução remete inevitavelmente ao trabalho realizado por Quentin Tarantino em Era Uma Vez em… Hollywood — e este crítico que vos escreve pede para que guardem bem essa comparação, pois ela retornará com muito mais afinco adiante.
Parte 3 — Direção e construção de cenas
Não é apenas na reconstituição de época que a direção de Kleber Mendonça Filho evoca, em determinados momentos, a estética tarantinesca. Há aqui uma clara busca por cenas icônicas, algumas deliberadamente satíricas, como a sequência em que dois policiais entram no IML carregando uma perna.
Há também uma predileção por enquadramentos estilizados, uso frequente de planos-detalhe e uma câmera que acompanha os personagens de maneira bastante próxima, buscando captar microrreações e expressões mínimas. Esse recurso funciona bem na maior parte do tempo, ajudando a criar uma sensação de intimidade com os personagens e, em certos momentos, um desconforto proposital.
A direção de elenco, por sua vez, é bastante competente. Quase todos os atores entregam personagens interessantes e, em certa medida, memoráveis. Destacam-se Robério Diógenes, como um delegado descrito por um dos próprios personagens como “mais imperfeito do que isso, impossível”, e Tânia Maria, cujo carisma e timing cômico são simplesmente impagáveis — merecia, honestamente, mais reconhecimento do que o que tem sido direcionado a Wagner Moura.
Parte 4 — Wagner Moura: talento incontestável, escolha questionável
A atuação de Wagner Moura é ruim? De forma alguma.
Se, por um lado, este que vos escreve nutre certa ojeriza pelo viés ideológico do ator — que defende o socialismo enquanto desfila com um Omega De Ville cravejado em diamantes no valor de oitenta mil reais, em flagrante contradição com conceitos marxistas básicos como Mais-Valia, Valor-Trabalho e Fetichismo da Mercadoria —, por outro, reconhece sem qualquer hesitação que ele figura entre os cinco, talvez entre os três, melhores atores do cinema nacional.
O problema não é a competência de Moura, mas a opção interpretativa adotada aqui.
Em O Agente Secreto, ele opta por uma atuação deliberadamente contida, quase minimalista, muito distante do seu imortal Capitão Nascimento e da intensidade presente nos dois Tropa de Elite — filmes que, aliás, poderiam (e deveriam) ter disputado prêmios internacionais. E olha que o segundo possui, sim, um viés bem mais esquerdista.
Aqui, Moura não trabalha com variações expressivas de tom de voz, explosões emocionais ou posturas corporais ostensivas. O destaque da sua atuação reside, curiosamente, no olhar.
Quando está próximo ao filho Fernando, seus olhos se tornam suaves, acolhedores. Quando percebe que está sob ameaça, o nervosismo se manifesta por meio de um piscar insistente e involuntário. É um trabalho sutil, inteligente e tecnicamente refinado.
Dito isso, é extremamente difícil defender que os prêmios que ele vem acumulando sejam, de fato, justos — sobretudo quando comparados ao trabalho de um Timothée Chalamet muito mais participativo, decisivo e complexo em Marty Superme. Aqui, deixemos o bairrismo de lado: o ator estadunidense entregou uma performance mais robusta. E ponto final.
Parte 5 — Estrutura narrativa e primeiros sinais de desgaste
Encerrada a enumeração das qualidades, passemos agora à realidade nua e crua — aquela que a maioria esmagadora dos críticos “lacrolas” se recusa a enxergar.
É impossível não notar o quão explícita é a rima estrutural entre O Agente Secreto e Era Uma Vez em… Hollywood. Assim como no filme de Tarantino, a primeira hora da projeção é praticamente dedicada a contextualizar o espectador no ambiente em que a trama se passa e a apresentar, de maneira fragmentada e algo niilista (aqui sem qualquer compromisso com a filosofia de Schopenhauer ou de Nietzsche), a rotina do protagonista.
O problema é que esses fragmentos não se organizam em uma progressão dramática clara. São episódios soltos que, em vez de aproximarem o público de Marcelo, acabam por afastá-lo. Afinal: quem ele é, de fato? Do que foge? O que fez? O que deseja? Qual é o seu ideal? O que busca?
O roteiro simplesmente não parece interessado em responder a nenhuma dessas perguntas no primeiro terço do filme — e isso não como uma escolha estética consciente, mas como uma conveniência narrativa para transformar Recife em protagonista, relegando o personagem-título a um papel quase acessório.
E isso é gravíssimo.
Parte 6 — Comparações inevitáveis (e desfavoráveis)
Esse tipo de construção fragmentada só funciona quando existe um subtexto psicológico ou filosófico sólido sustentando a ausência de respostas. Jean-Luc Godard, por exemplo, faz isso magistralmente em Acossado. O protagonista vagueia por Paris após matar um policial, e esse deslocamento não é apenas espacial, mas existencial. Ele não pertence àquele mundo. Ele não se reconhece nele. A fragmentação é o discurso.
O mesmo ocorre em O Estrangeiro, de Albert Camus, em que a alienação do protagonista não é apenas uma condição narrativa, mas um conceito filosófico.
Nada disso acontece aqui.
Marcelo não parece desconectado da sociedade por uma postura crítica, existencial ou ideológica. Ele parece desconectado porque o roteiro precisa que ele esteja. Não há uma motivação conceitual clara. É funcional, não expressiva.
E é por isso que o desinteresse pelo personagem surge rapidamente. Sua trajetória é atravessada por momentos completamente descartáveis, como toda a sequência envolvendo Udo Kier, que começa no nada e termina em lugar algum — um típico exemplo de cena que existe porque o diretor quis, não porque a narrativa precisava.
Assim como no filme de Tarantino, O Agente Secreto só ganha alguma tração dramática depois da metade. A diferença é que, em Era Uma Vez em… Hollywood, o espectador era sustentado por atuações absolutamente magnéticas de Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Margot Robbie.
Aqui, embora o elenco seja sólido, ele não é suficiente para sustentar um roteiro excessivamente diluído, que confunde contemplação com estagnação.
Parte 7 — Política rasa e didatismo constrangedor
Kleber Mendonça Filho ainda tenta inserir um comentário político mais explícito, mas o resultado é, francamente, constrangedor.
As subtramas ligadas à repressão e à resistência durante a Ditadura Militar são de uma superficialidade quase ofensiva. Tudo se resume à perseguição genérica a um servidor público que desagradou a interesses pessoais de um político específico — algo que poderia acontecer em qualquer contexto histórico, em qualquer regime, em qualquer sistema.
Não há densidade. Não há complexidade. Não há ambiguidade.
Para piorar, a ideologia (ou a confusão dela) do personagem de Wagner Moura se resume a falas didáticas e expositivas como: “eu sou mais comunista do que capitalista”. Isso não é construção de personagem. É cartilha.
E é muito curioso — para dizer o mínimo — que a crítica “especializada” tenha ignorado completamente esse tipo de muleta narrativa.
O mesmo vale para os antagonistas. O personagem de Luciano Chriolli revela seu preconceito por meio de falas óbvias e esquemáticas, como “um banho de indústria não te faria mal” ou “neste lugar, até o diretor é cabeludo”. Já o personagem de Gregorio Graziosi atinge níveis quase caricatos ao desenhar um mapa do Brasil em um guardanapo e declarar: “aqui é o sul, aqui é o norte! Vocês são completamente diferentes da gente!”
São arquétipos baratos. Simplórios. Indignos de um cineasta que, em outros trabalhos, já demonstrou saber muito bem construir personagens por meio de ações, e não de discursos.
Parte 8 — O clímax emprestado e a conclusão problemática
Para completar a rima com Era Uma Vez em… Hollywood, o roteiro, após longos e exaustivos minutos de burocracia narrativa, também apela para um momento “uau” tipicamente tarantinesco.
Aqui, em vez de uma lata de ração para cachorro arremessada no rosto de um assassino, temos uma sequência de ação inesperada protagonizada por Roney Villela — e, justiça seja feita, este é um dos pontos altos do filme.
O problema é o que vem depois.
De forma abrupta e quase covarde, a montagem interrompe a progressão dramática e salta para os dias atuais, numa tentativa evidente de preservar a imagem do protagonista, à semelhança do que Tarantino fez com Sharon Tate.
Mas há uma diferença crucial: Sharon Tate existiu. Marcelo, não.
Então por que tanto melindre?
Por que essa necessidade quase obsessiva de blindar um personagem fictício, como se ele fosse uma entidade histórica a ser respeitada?
Essa escolha narrativa esvazia o impacto emocional do desfecho e reforça a sensação de que o filme tinha material para ser muito mais do que efetivamente é.
Parte 9 — Conclusão
Ao final de O Agente Secreto, fica a impressão de que havia ali um excelente ponto de partida — mas não um excelente filme.
O resultado é morno, irregular e inconclusivo.
E, talvez o mais triste: tornou-se perigosamente difícil criticar uma obra como essa sem ser imediatamente rotulado como bolsonarista, extremista, negacionista, pró-Ditadura ou algo do gênero. Mesmo quando o crítico, como aqui, se dá ao trabalho de contextualizar minuciosamente sua posição política.
Vivemos tempos em que a lacração passou a valer mais do que a qualidade estética, narrativa e conceitual de uma obra artística.
E isso, por si só, já seria um excelente tema para um filme.

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