Crítica Técnica: Avatar: Fogo e Cinzas (James Cameron, 2025)
por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★☆☆ (3/5)
Uma única palavra é suficiente para sintetizar Avatar: Fogo e Cinzas: desperdício.
Após o monumental esforço de Avatar (2009) em estabelecer um universo, uma mitologia própria e uma revolução tecnológica no uso do 3D, e de O Caminho da Água em expandir esse ecossistema com notável sofisticação visual, seria razoável esperar que James Cameron finalmente utilizasse essa base sólida como trampolim para uma narrativa menos dependente de fórmulas já exauridas. Fogo e Cinzas até ensaia esse movimento — mas recua no momento decisivo.
Curiosamente, este é o capítulo da franquia que menos se ancora em clichês imediatos. Ainda assim, tal mérito é esvaziado por uma trama dramaticamente rarefeita, incapaz de adicionar densidade real ao já amplamente explorado planeta Pandora. O filme parece existir mais como vitrine técnica do que como peça narrativa essencial dentro da saga.
No campo visual, Cameron permanece em território incontestável. A apresentação da chamada “tribo do ar” — cujos dirigíveis exibem um trabalho de direção de arte absolutamente deslumbrante — provoca no espectador o mesmo assombro reverente experimentado por Kiri em sua primeira aparição. O deslumbre é genuíno, quase infantil, e reafirma o domínio do diretor sobre o espetáculo imagético.
O CGI, por sua vez, atinge aqui um patamar impressionante. Os Na’vi, que já beiravam o fotorrealismo desde o primeiro filme, atravessaram um salto tecnológico notável em O Caminho da Água e agora, em um intervalo surpreendentemente curto, parecem integrar organicamente o mundo físico. A atenção obsessiva aos microdetalhes — textura da pele, movimento ocular, expressão corporal — torna a presença digital praticamente indistinguível do real.
Pandora segue como o grande trunfo da franquia. O ecossistema retorna familiar, mas levemente reconfigurado: a paleta de verdes aquáticos, azuis-turquesa e dourados agora dialoga com vermelhos incandescentes e laranjas flamejantes associados à tribo rival. O resultado é uma experiência visual de apuro quase pictórico, na qual a mise-en-scène se impõe como linguagem dominante.
É justamente nesse ponto que o filme revela seu maior erro estratégico. Pela primeira vez, Cameron flerta com um conflito verdadeiramente novo: disputas internas entre os próprios Na’vi, rompendo com a dicotomia simplista entre “bons nativos” e “humanos opressores”. A introdução de uma tribo marcada pelo ressentimento de ter sido esquecida por Eywa sugere uma ruptura interessante com o discurso espiritualizado e homogêneo da franquia. Há aqui uma semente temática potente — quase uma leitura primitiva da Vontade de Poder nietzschiana — que poderia redefinir o eixo moral de Pandora.
No entanto, Cameron demonstra, mais uma vez, suas limitações como roteirista. Em vez de explorar essa nova dinâmica, o filme retorna obstinadamente ao já saturado embate entre Jake Sully e Miles Quaritch, desperdiçando por completo uma antagonista promissora como Varang. A vilã, dotada de presença, conceito e potencial dramático, acaba reduzida a engrenagem funcional de um roteiro acomodado e previsível.
Não se trata de personagens mal construídos — ao contrário, Jake e Quaritch surgem aqui mais despojados de arquétipos do que nunca. O problema é estrutural: o conflito entre ambos simplesmente não sustenta mais uma narrativa de mais de três horas. A sensação de cansaço é evidente, e a longa duração, já questionável nos filmes anteriores, torna-se aqui particularmente injustificável.
Em escala e espetáculo, Fogo e Cinzas é o capítulo mais grandioso da saga. As sequências de ação são massivas, repletas de helicópteros, soldados e confrontos simultâneos. Ainda assim, a impressão de déjà vu é incontornável. A catarse visual ecoa diretamente o segundo filme, e, embora Cameron ainda saiba conduzir cenas de ação com precisão e impacto, o efeito já não provoca o mesmo arrebatamento.
O roteiro tropeça definitivamente em seu clímax ao recorrer a um recurso digno de Matrix: Revolutions: quando tudo parece perdido, os poderes quase místicos de Kiri emergem como um dos mais explícitos deus ex machina do cinema recente, dissolvendo o conflito sem qualquer construção dramática proporcional.
Ao final, Avatar: Fogo e Cinzas permanece como um entretenimento competente, visualmente arrebatador e tecnicamente irrepreensível — mas narrativamente raso. Um filme que se beneficiaria enormemente de uma edição mais severa (ao menos uma hora a menos de duração) e de maior coragem em romper com seus próprios vícios.
A pergunta que ecoa após os créditos é inevitável: após dois filmes que já diziam tudo o que tinham a dizer, era realmente necessário retornar a Pandora tão cedo — e com uma história tão pouco disposta a evoluir?

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