Crítica Técnica: Marty Supreme (Josh Safdie, 2025)
por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★★ (5/5)
Marty Supreme não apenas reúne absolutamente tudo aquilo que uma cinebiografia precisa oferecer, como também se impõe como uma prova contemporânea de que o Cinema ainda carece — e muito — de narrar histórias desconhecidas do grande público.
Há poucos dias, por exemplo, este que vos escreve dedicava-se a pesquisar a figura histórica que dá nome à canção que mais tem ouvido nos últimos anos — Carolus Rex, da banda sueca de power metal Sabaton — e constatou, com certo espanto, a completa ausência de qualquer registro relevante no Cinema falado acerca da vida do rei guerreiro sueco Carlos XII.
Contudo, não é necessário ser um monarca coroado por vitórias memoráveis (e derrotas igualmente vexatórias, uma vez que o declínio do Império Sueco foi protagonizado por sucessivos fracassos militares de Carlos XII) para merecer ter sua trajetória narrada nas telas de forma competente, digna e, sobretudo, eternizada pela Sétima Arte.
Assim como o monarca supracitado, Marty Mauser — inspirado na figura real de Marty Reisman — seria um excelente exemplo a ser citado em uma aula introdutória de filosofia nietzschiana sobre a Vontade de Poder. A diferença crucial é que, ao contrário do Carolus Rex, o mesa-tenista, ao menos segundo o que o filme nos apresenta, parece ser um colecionador contumaz de fracassos, sempre recorrendo a embustes e subterfúgios para escapar de uma armadilha apenas para, logo em seguida, cair em outra, ainda mais engenhosa, fruto direto de suas próprias tramoias.
Mauser não está distante do arquétipo clássico do anti-herói picaresco. Aproxima-se, em essência, do Leonardinho de Manuel Antônio de Almeida — o eterno Sargento de Milícias — ou, em registro mais contemporâneo e nacional, do inesquecível Agostinho Carrara, de A Grande Família. Não por acaso, a identificação do público brasileiro com o personagem se dá de maneira quase imediata, uma vez que muitas das características que compõem o estereótipo do “malandro simpático” encontram-se profundamente enraizadas em sua personalidade.
Trata-se, portanto, de um tipo de figura dramática com a qual Josh Safdie já havia trabalhado de maneira notável em Joias Brutas. Ao lado de seu irmão Ben Safdie, o cineasta conseguiu ali extrair uma atuação surpreendentemente convincente daquele que por muito tempo foi o calcanhar de Aquiles de Hollywood: Adam Sandler. Sendo assim, é inevitável imaginar o que Safdie seria capaz de fazer ao dirigir um ator do quilate de Timothée Chalamet — que, embora ainda distante de uma carreira plenamente consolidada, já demonstrara enorme potencial em trabalhos como Me Chame Pelo Seu Nome e Duna: Parte Um e Parte Dois.
Postergando, por ora, os mais do que merecidos elogios a Chalamet, faz-se necessário discorrer previamente sobre o trabalho de Josh Safdie, que em Marty Supreme atua quase como um discípulo confesso de Martin Scorsese.
Aliada a uma montagem extremamente eficaz e dinâmica — assinada pelo próprio Safdie em parceria com Ronald Bronstein —, sua direção se configura como uma verdadeira aula de como se fazer Cinema. Seja nos cortes rápidos que intercalam saques e golpes nas poucas, porém intensas, cenas de tênis de mesa, seja no fluxo narrativo conduzido por movimentos de câmera ágeis, precisos e cirurgicamente calculados, o filme jamais resvala na desordem visual que, por vezes, emergia em Joias Brutas.
Agilidade, aliás, é a palavra-chave de Marty Supreme e o principal elemento que o distingue da maioria das cinebiografias contemporâneas. Em diversos momentos, o espectador é remetido à competência demonstrada por Scorsese e Thelma Schoonmaker em O Lobo de Wall Street. Tal como no longa de 2013, a eficiência narrativa faz com que seus quase cento e oitenta minutos transcorram com notável fluidez, tornando-se levemente cansativos apenas em breves instantes do terço final.
O desenho de produção não fica atrás. A Nova Iorque dos anos 1950 é retratada como suja, ruidosa e economicamente hostil à maior parte de seus habitantes — sem recorrer, contudo, a qualquer tipo de panfletagem política. O excesso de lixo nas ruas, a poluição visual dos cartazes e o ruído urbano constante dissolvem a imagem romantizada dos “anos dourados”, tão frequentemente associada ao período, e desmontam a estética higienizada vista em produções como Não Se Preocupe, Querida.
O figurino, além de respeitar com rigor os trajes característicos da década, chama atenção por um desfile relojoeiro irrepreensível. O Elgin 1951, referência 6728A, com caixa banhada a ouro 10 quilates, utilizado por Mauser, ilustra com precisão sua ambição desmedida e orgulho deslocado, em contraste com sua falência econômica — reforçada, inclusive, pelos sapatos de couro de crocodilo. Em oposição, o Patek Philippe Hourglass, referência 2468, de Milton Rockwell, simboliza de maneira quase didática o poder absoluto do antagonista.
A trilha sonora também merece destaque. Quando evocada de forma diegética, ela dialoga diretamente com o espírito dos Estados Unidos daquele período. Já as canções inseridas na pós-produção — majoritariamente oitentistas — cumprem função dramática precisa: Forever Young reflete a eterna imaturidade do protagonista, enquanto Everybody Wants to Rule the World parece encerrar, de maneira quase irônica, seu ciclo de ambição desenfreada.
Se por trás das câmeras Marty Supreme é inequivocamente um filme de Josh Safdie, diante delas Timothée Chalamet assume o controle absoluto. Seu carisma é magnético, quase hipnótico, levando o espectador a se questionar por que não odeia aquele anti-herói desprezível, arrogante e moralmente questionável. Psicologicamente, Mauser é um sujeito desprovido de recursos financeiros que tenta triunfar a qualquer custo — condição que, como já sugeria Sigmund Freud, tende a gerar empatia mesmo diante da indignidade.
Ainda assim, arrisca-se dizer que o verdadeiro “culpado” por essa empatia seja o próprio Chalamet, provável futuro vencedor do Oscar — e, se houver justiça, capaz até mesmo de desbancar Wagner Moura na categoria de Melhor Ator. Seu desempenho é verborrágico, afiado, milimetricamente calibrado em tom e ritmo. Sem exagero, trata-se do melhor desempenho masculino visto no Cinema desde Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, cuja atuação guarda paralelos evidentes com a apresentada aqui.
O elenco de apoio desempenha funções sólidas, ainda que, em sua maioria, atue como suporte para o brilho de Chalamet. Tyler, the Creator surpreende pelo carisma e pela química imediata com o protagonista. Kevin O’Leary constrói um antagonista cínico e amorfo sem jamais resvalar na caricatura. Gwyneth Paltrow entrega um trabalho competente, embora aquém do potencial que seu papel poderia explorar. Odessa A’zion, por sua vez, destaca-se como a única capaz de rivalizar em cena com Chalamet, evoluindo de uma insegurança inicial para uma presença dramática robusta e consistente — desempenho que merecia, sem sombra de dúvida, uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante.
Por fim, pode causar estranheza ao espectador a relativa escassez de partidas de tênis de mesa no desenrolar da narrativa. Tal escolha se justifica pelo foco do roteiro na vida pessoal do protagonista, em abordagem semelhante à de Touro Indomável. A diferença crucial reside no fato de que, enquanto o clássico de Scorsese retrata o declínio de um atleta corroído por sua indisciplina, Marty Supreme concentra-se nas dificuldades iniciais de Mauser e nos métodos moralmente questionáveis que adota para sobreviver — deixando ao público o julgamento final.
Se o roteiro parece inconclusivo quanto ao destino definitivo de Mauser (Reisman, na vida real), isso se deve justamente à recusa consciente de abraçar os clichês das cinebiografias convencionais.
Como afirmado no início deste texto, o Cinema ainda precisa narrar muitas histórias desconhecidas. E, ocasionalmente, não há motivo algum para fazê-lo de maneira previsível.


