Crítica Técnica: O Drama (Kristoffer Borgli, 2025), por Daniel Esteves de Barros
Por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★☆ (4/5)
A consolidação da A24 enquanto um dos polos mais instigantes do cinema contemporâneo independente não se dá por acaso, mas por uma curadoria estética que privilegia obras de forte identidade autoral, ancoradas em propostas formais bem delimitadas. Dentro desse espectro, “O Drama”, dirigido por Kristoffer Borgli, insere-se como mais um exemplar que tensiona convenções narrativas clássicas ao dialogar, ainda que de forma parcialmente heterodoxa, com os preceitos do movimento Dogma 95, idealizado por Thomas Vinterberg e Lars von Trier.
Sob a perspectiva da teoria cinematográfica — em especial no que concerne à análise da mise-en-scène segundo Jacques Aumont —, a obra se estrutura a partir de uma diegese aparentemente ordinária, mas que progressivamente se desdobra em uma complexidade psicológica latente. Borgli articula uma narrativa que, embora ancorada em um contexto cotidiano, constrói sua densidade por meio de uma dramaturgia relacional, na qual os conflitos emergem menos da ação objetiva e mais da interioridade dos personagens.
Todavia, é precisamente na dimensão formal que o longa apresenta suas tensões mais evidentes. Ao mesmo tempo em que reivindica certos pressupostos do Dogma 95 — como a iluminação natural, a recusa a uma categorização genérica rígida e a valorização de diálogos naturalistas —, o diretor rompe deliberadamente com outros pilares fundamentais do movimento, como a rejeição à trilha sonora não diegética, o uso de atores de forte capital simbólico (como Zendaya e Robert Pattinson) e a incorporação de estruturas narrativas como flashbacks.
Essa oscilação entre adesão e ruptura gera um efeito de dissonância estética, particularmente perceptível na fotografia. A predominância de uma paleta dessaturada, tendendo a tons acinzentados e pastéis, instaura uma ambiência melancólica que, sob o ponto de vista semiótico, antecipa um estado de degradação emocional no relacionamento entre Charlie Thompson e Emma Harwood. No entanto, tal escolha revela-se, em certa medida, um equívoco de gradação dramática: ao não modular cromaticamente a evolução do vínculo afetivo — especialmente antes do ponto de inflexão narrativo —, o filme compromete a eficácia do contraste emocional que poderia potencializar o impacto do plot twist.
No campo da encenação, contudo, Borgli demonstra notável rigor composicional. A progressão dramática é acompanhada por uma reconfiguração precisa da gramática de enquadramentos: no primeiro ato, predominam planos mais fechados e íntimos, que reduzem o espaço diegético e enfatizam a proximidade física e emocional do casal. Após a revelação central — que funciona como eixo de ruptura narrativa —, os enquadramentos passam a explorar uma claustrofobia espacial, com planos que comprimem o ambiente doméstico, traduzindo visualmente o colapso psicológico de Charlie. Paralelamente, os planos conjuntos tornam-se mais abertos, instaurando uma distância física que espelha o distanciamento afetivo.
No que concerne às performances, o filme atinge um de seus pontos mais elevados. Alana Haimconstrói uma personagem de arco expressivo sofisticado, cuja transição de um registro leve para um julgamento moral severo se dá com organicidade notável. Já Zendaya trabalha a ambiguidade de Emma com uma oscilação entre vulnerabilidade e dissimulação performativa, ainda que limitada por inconsistências pontuais do roteiro.
Entretanto, é Robert Pattinson quem conduz o filme a um patamar superior, operando dentro de uma matriz interpretativa claramente influenciada pelo Sistema Stanislavski. Sua composição de Charlie é marcada por uma internalização rigorosa dos estados emocionais, manifestados por meio de microexpressões e variações sutis de comportamento. O ator transita, com precisão técnica, entre a hesitação afetiva inicial e um estado de paranoia latente, construindo um arco psicológico que sustenta o filme mesmo diante das fragilidades estruturais do roteiro.
Nesse sentido, o núcleo temático da obra reside menos na polêmica em torno da revelação de Emma e mais na elaboração subjetiva de Charlie diante da possibilidade de que a alteridade amorosa — outrora idealizada — possa esconder uma dimensão monstruosa. Trata-se de uma investigação sobre a fragilidade das construções afetivas quando confrontadas com a irrupção do insólito no cotidiano, tema que o filme desenvolve com considerável densidade.
A recusa em aderir a um gênero específico, herança direta do Dogma 95, permite à obra escapar de convenções previsíveis, situando-se em uma zona híbrida entre o drama psicológico, o suspense moral e o estudo de personagem. Tal estratégia aproxima “O Drama” de outras produções da A24, como “Todo Tempo Que Temos”, ainda que aqui o tratamento formal seja mais radical e menos conciliatório.
Em síntese, “O Drama” é uma obra que, apesar de inconsistências pontuais — sobretudo na articulação entre forma e conteúdo em sua fotografia e na condução de sua personagem feminina —, se impõe como um exercício cinematográfico de alto nível técnico. Ao privilegiar a construção psicológica e a experimentação formal, Borgli entrega um filme que, em sua maioria, sustenta-se como uma experiência estética rigorosa e intelectualmente estimulante.
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