Crítica Técnica: Avatar: O Caminho da Água (James Cameron, 2022), por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★★★ (4/5)
Lembro-me perfeitamente de ter assistido ao primeiro Avatar no cinema no exato dia em que completei 29 anos. No dia seguinte, publiquei uma crítica sobre o filme neste mesmo blog, quando ainda possuía domínio próprio. Passei horas tentando localizar aquele texto para repostá-lo, mas, lamentavelmente, ele se perdeu no limbo da internet.
É inegável que a fantasia interplanetária concebida por James Cameron capturou não apenas a minha atenção, mas a de praticamente 99% do público, sobretudo pela revolução visual que apresentou à época. Tal como ocorre em grande parte das produções dirigidas e roteirizadas pelo cineasta desde Titanic, a originalidade narrativa raramente é seu ponto forte; em contrapartida, suas obras são invariavelmente contempladas por um rigor técnico e um apuro gráfico meticuloso, capazes de deslumbrar até os olhos mais céticos.
Em Avatar, tudo era visualmente majestoso: desde o uso do 3D — técnica que, convenhamos, jamais voltou a ser empregada com igual competência no cinema comercial, nem mesmo em franquias como Star Wars — até a organicidade com que os Na’vi foram concebidos. O ápice imagético, contudo, residia na flora de Pandora, especialmente ao cair da noite, quando a bioluminescência das plantas revelava um espetáculo jamais imaginado pela Sétima Arte até então.
Toda essa exuberância visual fazia com que o espectador médio relativizasse falhas graves de roteiro que, embora não inviabilizassem a experiência, comprometiam o conjunto da obra: uma narrativa excessivamente dependente de clichês.
O enredo — centrado no soldado de moral inabalável enviado para negociar com uma população tecnologicamente inferior e oprimida, que acaba se identificando com a causa local e se voltando contra os seus próprios pares — é um dos mais desgastados da ficção científica e do Cinema épico. Desde Duna (1965), de Frank Herbert, passando por Dança com Lobos e chegando até produções de ação estreladas por Steven Seagal, trata-se de um tema explorado à exaustão.
O diferencial de Avatar em relação a muitas dessas obras, contudo, reside justamente no campo em que James Cameron verdadeiramente se destaca: a encenação da ação. Aqui, o diretor demonstra pleno domínio da mise-en-scène, construindo sequências ágeis e frenéticas sem recorrer ao abuso de cortes frenéticos ou desorientadores, tal como o seu colega, Michael Bay, geralmente o faz. Seus movimentos de câmera são precisos e narrativamente funcionais. Cameron é, sem dúvida, um diretor excepcional — mas um roteirista apenas mediano. E é exatamente nessa assimetria que residem as fragilidades de seus filmes desde Titanic.
Com Avatar: O Caminho da Água, infelizmente, esse padrão não se altera de forma substancial.
Treze anos após lançar o filme que viria a se tornar a maior bilheteria da história do cinema (se por mérito artístico ou não, é outra discussão), a grande dúvida era evidente: Cameron conseguiria novamente entregar algo visualmente revolucionário ou esta continuação seria lembrada apenas como mais um caça-níquel tardio? A resposta é clara: do ponto de vista estético, a sequência não apenas corresponde às expectativas como supera o original.
A flora e a fauna de Pandora, já deslumbrantes, surgem agora inseridas em um ecossistema subaquático ainda mais complexo e detalhado. Não é exagero afirmar que Avatar: O Caminho da Água figura entre os cinco filmes visualmente mais belos já produzidos pela história do Cinema. Cameron — notoriamente envolvido com expedições submarinas reais, tendo inclusive sido o primeiro a descer sozinho às Fossas Marianas a bordo do Deepsea Challenger — demonstra filmar essas sequências por genuíno amor à imagem e à Arte. Cada mergulho, cada criatura, cada interação entre os Na’vi e os seres marinhos é registrada com um cuidado quase reverencial.
Para os saudosistas da bioluminescência, ela retorna aqui com intensidade redobrada. O contraste entre a vegetação pelágica, as águas translúcidas de Pandora e o azul profundo da pele dos Na’vi resulta em um espetáculo cromático raramente visto, superando inclusive momentos icônicos de O Senhor dos Anéis e do próprio Avatar original. A paleta de verdes aquáticos, azuis-turquesa, rosas vibrantes e dourados cria uma experiência visual de um requinte quase pictórico.
As cenas de ação, por outro lado, poderiam ser melhor distribuídas ao longo da narrativa, sobretudo para minimizar a sensação de arrastamento entre os quarenta e os cem minutos iniciais. Quando finalmente acontecem, contudo, Cameron resgata o vigor de O Exterminador do Futuro (os dois primeiros, evidentemente), com movimentos de câmera próximos à ação, enquadramentos claros e até mesmo o uso expressivo de um contra-plongée simbólico na morte de um personagem-chave, sugerindo a transcendência da alma para um plano superior.
No campo dos personagens, Jake Sully e Neytiri surgem levemente mais complexos do que no primeiro filme, embora ainda funcionem como arquétipos idealizados de figuras parentais exemplares. Sam Worthington e Zoë Saldaña parecem mais confortáveis em seus papéis, entregando atuações mais seguras. Stephen Lang retorna como o caricaturalmente vil Coronel Miles Quaritch, mas o roteiro, desta vez, lhe concede nuances mais interessantes, como um sarcasmo mais afiado e um vínculo emocional inesperado que o humaniza parcialmente.
Ainda assim, o filme segue povoado por arquétipos desgastados: a filha “diferente”, de aura místico-exotérica — criada claramente como pretexto para trazer Sigourney Weaver de volta à franquia —, o filho exemplar, o filho inseguro que teme decepcionar o pai, a bebê sem função narrativa, o clã relutante em acolher refugiados, entre outros clichês já conhecidos.
Avatar: O Caminho da Água cumpre com maestria sua tarefa mais árdua: superar o antecessor no campo visual. Apresenta também sequências de ação mais bem dirigidas e momentos emocionalmente mais eficazes do que o original. Contudo, como ocorre com praticamente todos os filmes de James Cameron desde Titanic, a tentativa deliberada de agradar ao grande público por meio de arquétipos e fórmulas narrativas excessivamente desgastadas expõe um roteiro preguiçoso, incapaz de acompanhar o brilho técnico e estético de sua realização.