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sábado, 9 de maio de 2009

Vicky Cristina Barcelona - ***** de *****

Assisti a “Vicky Cristina Barcelona” em 30 de dezembro de 2.008 e durante a passagem deste para o último dia do ano, escrevi um breve comentário sobre o filme que acabara de assistir. Confesso que, naquela ocasião, não só a falta de tempo (pois é, é sempre culpa da bendita (ou maldita, que seja) falta de tempo) como também a falta de coragem (isso mesmo, falta de coragem, assumo sem problemas) me impediu de escrever algo sobre o mais recente exemplar dirigido por Woody Allen a chegar ao Brasil. Digo isto pois este mais novo tesouro da filmografia do cineasta judeu deve ser analisado cautelosamente, antes de receber quaisquer avaliações. Quando vi que o filme estava sendo exibido gratuitamente no Cinema Municipal de minha cidade, não pude deixar a oportunidade escapar e pensei: “é agora ou nunca!”. Eis que adentro a sessão, desta vez mais ciente do que iria encarar pela frente, e decido, por fim, escrever mais detalhadamente sobre o mesmo, conforme poderemos acompanhar mais abaixo.


Ficha Técnica:
Título Original: Vicky Cristina Barcelona.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 96 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.vickycristina-movie.com
Países de Origem: Estados Unidos da América / Espanha.
Direção: Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Javier Bardem (Juan Antonio), Scarlett Johansson (Cristina), Rebecca Hall (Vicky), Penélope Cruz (Maria Elena), Chris Messina (Doug), Patricia Clarkson (Judy Nash), Kevin Dunn (Mark Nash), Julio Perillán (Charles), Pablo Schreiber (Ben), Carrie Preston (Sally), Zak Orth (Adam), Abel Folk (Jay), Josep Maria Domenech (Julio Josep) e Christopher Evan Welch (Narrador).

Sinopse: Vicky (Rebecca Hall) e Scarlett Johansson (Cristina) são grandes amigas que estão em férias em Barcelona. Vicky procura ser sensata em relação ao amor e está noiva, enquanto que Cristina sempre busca uma nova paixão que possa virar sua cabeça. Um dia, em uma galeria de arte, elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um atraente pintor que teve um relacionamento problemático com sua ex, Maria Elena (Penélope Cruz). Ainda naquela noite, durante o jantar, Juan Antonio se aproxima da mesa em que Vicky e Cristina estão, fazendo-lhes a proposta de com ele viajar para Oviedo. Vicky inicialmente a rejeita, mas Cristina aceita de imediato e consegue convencer a amiga a acompanhá-la. É o início do relacionamento conturbado de ambas com Juan Antonio.

Fonte sinopse: www.adorocinema.com.br

Vicky Cristina Barcelona – Trailer:



Crítica:

Quando escrevi um pequeno comentário sobre este filme em 31 de dezembro de 2.008, a primeira palavra que mencionei foi uma singela junção constituída de três vogais, ou seja (‘destucanando’ tudo isso, conforme diria José Simão): “uau!”. Tal onomatopéia visava retratar o esforço intelectual que a obra exigira de mim na ocasião. Agora, assisto a “Vicky Cristina Barcelona” pela segunda vez e novamente inicio um texto sobre o referido longa-metragem com o mesmo termo monossilábico: “uau!”.

O filme realmente exige um grande esforço intelectual por parte do espectador. Não no que diz respeito à compreensão da estória em si, mas sim nos vai-e-vem inseridos na trama, que passam a cobrar da platéia uma participação bastante ativa, pois, do contrário, muitos pontos importantes poderão passar batidos e ocasionarão em constantes dúvidas que certamente acarretarão na não apreciação por completo desta mais nova obra Alleniana.

Aqueles que estão acostumados com os ‘Woody Allen’ de praxe poderão surpreender-se consideravelmente com “Vicky Cristina Barcelona”. Ao contrário dos clássicos absolutos “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Manhattam”, este longa protagonizado por Scarlett Johansson não conta com uma estória simples, muito pelo contrário. A fim de obter êxito na composição de uma trama mais complexa, o cineasta judeu mais neurótico da história do Cinema realiza aqui um florilégio que adota inúmeros aspectos da Nouvelle Vague, trazendo à tona personagens imorais (até certo ponto) e a abordagem referente ao amor que é feita de um modo com que o mesmo passe a ser tratado mais como uma espécie de doença do que uma dádiva ou um sentimento próprio do ser humano.

Inspirando-se ligeiramente (bem ligeiramente mesmo) no perfeito “A Regra do Jogo” de Jean Renoir e no ‘quase tão perfeito o quanto’ “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” de François Truffaut, Woody Allen faz de “Vicky Cristina Barcelona” uma interpolação mais do que completa sobre os relacionamentos amorosos contemporâneos que estão sendo, cada vez mais, temperados negativamente com as neuroses inerentes à nossa sociedade.

Contando com personagens ainda mais interessantes do que a própria trama em si (que também é espetacular), o roteiro desenvolve um abstruso esboço sobre o modo como o amor é encarado pelas pessoas que seguem as mais alternadas filosofias de vida possíveis. Variamos desde a sensata e centrada Vicky (magistralmente encarnada pela gostos... digo, pela eficiente Rebecca Hall) e terminamos com a problemática e neurótica Maria Elena (ainda mais magistralmente encarnada por Penelope Cruz), passando pelos conservadores Doug, pela empirista e “portadora de insatisfação crônica” (seja lá o que for isso) Cristina (que é interpretada pela monumental Scarlett Johansson (Ahhh Scarlett, se eu não fosse assexuado, ficaria chupando o dedo por você) e sabe perfeitamente o que não deseja, mas não tem a mínima idéia do que realmente deseja) e pelo hedonista Juan Antonio, que leva a vida como se a mesma não tivesse sentido algum e tenta desfrutar apenas os prazeres da mesma, sem assumir quaisquer compromissos que seja.

À primeira vista, a estória revela-se extremamente charmosa e divertida. Os personagens supra vão sendo desenvolvidos normalmente, até que surge Maria Elena na trama. Sucede-se então uma amálgama amorosa nunca vista no Cinema antes (ao menos eu não me lembro de nada parecido) e o roteiro preciso escrito pelo mestre Woody Allen passa a dissecar amor, paixão e sexo de forma ainda mais emaranhada e eficiente do que o vinha fazendo até então. A trama ganha intensidade e se mostra cativante o bastante a ponto de transportar para a tela até mesmo o sujeito fanático por blockbusters, que não dá a mínima para comédias românticas “cabeça” como esta.

O filme começa a empregar características que nos remetem à lembraça de “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois”. Não há como não compara-lo ao filme de Truffaut (apesar de que o seu irmão francês obtém um resultado mais satisfatório). Seja pelo triângulo amoroso que assume um relacionamento aberto e que, aos poucos, ruma a uma neurose altamente doentia, seja pelas cenas praticamente iguais às da obra-prima estrelada por Jeanne Moreau, bem como as que mostram os protagonistas passeando de bicicleta pelas bucólicas rodovias, ou seja pelos personagens libertários, inconsequentes, impetuosos e (por que não dizer?) insanos que amam, deixam de amar, esquecem-se de seus amores, e quando menos se espera, voltam a os amar novamente (se é que pode-se chamar de amor um sentimento tão doentio como o que é adotado aqui).

Curioso, no entanto, é que, após tantos vai-e-vem, tantas reviravoltas, tantas ocorrências; o longa se desfecha (e peço, por gentileza, que aqueles que não assistiram ao filme antes de ler este texto, não termine de ler este parágrafo e pule diretamente ao próximo) da mesma forma que se inicia. Todos os personagens (todos mesmo) voltam à escala zero. Voltam a ser como eram. Talvez seja um modo sutil de Allen retratar que cada um é o que realmente é e, por mais que tentemos fugir desses estereótipos, não nos sairemos bem sucedidos. Ou talvez não, talvez Allen tenha tentado nos passar qualquer outra mensagem que caiba única e exclusivamente a nós ser lucubrada sobre qual seria o sentido da mesma.

Encerro este texto parafraseando a mim mesmo, quando escrevi mais vagamente sobre o filme em questão: “Nunca pensei que fosse dizer isso, uma vez que considero os filmes de Woody Allen extremamente simples, embora reflexivos e subjetivos, mas pela primeira vez em minha vida saí completa e deliciosamente desnorteado de uma sessão Alleniana.”. A diferença é que agora já posso dizer que pela segunda vez em minha vida saí completa e deliciosamente desnorteado de uma sessão Alleniana.

Provavelmente, um dos maiores injustiçados do Oscar 2.009.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Frost/Nixon - **** de *****

Ao menos aqui no Brasil (já que a reputação internacional deste filme é muito boa), “Frost/Nixon” vem sendo considerado o mais supervalorizado dentre todos os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Levando isso em conta, o simples fato de falar bem do filme parece ser um pedido para ser “apedrejado”. Contudo, me mostrei mais uma vez “do contra” e, ao assistir ao longa em questão, não pude deixar de me envolver com o mesmo. E mais uma vez vou de encontro ao gosto da grande maioria dos cinéfilos e ovaciono uma obra que não vinha sendo muito bem quista entre os fãs da sétima Arte. Contudo, sinceridade é o meu lema e, por mais que as chances de receber críticas ao falar bem deste longa sejam imensas, certamente manterei a minha postura honesta de sempre e falarei bem do mesmo. Vamos ao texto?

Ficha Técnica:
Título Original: Frost/Nixon.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Tempo de Duração: 122 minutos.
Site Oficial: http://www.frostnixon.net/
Ano de Lançamento: Estados Unidos da América, Inglaterra e França.
Direção: Ron Howard.
Roteiro: Peter Morgan, baseado em peça teatral de Peter Morgan.
Elenco: Frank Langella (Richard Nixon), Michael Sheen (David Frost), Sam Rockwell (James Reston Jr.), Kevin Bacon (Jack Brennan), Matthew Macfadyen (John Birt), Oliver Platt (Bob Zelnick), Rebecca Hall (Caroline Cushing), Toby Jones (Swifty Lazar), Andy Milder (Frank Gannon), Kate Jennings Grant (Diane Sawyer), Gabriel Jarret (Ken Khachigian), Jim Meskimen (Ray Price), Patty McCormack (Pat Nixon), Clint Howard (Lloyd Davis), Rance Howard (Ollie), Eloy Casados (Manolo Sanchez), Jay White (Neil Diamond), Wil Albert (Sammy Cahn), Keith MacKechnie (Marv Minoff), Jenn Gotzon (Tricia Nixon) e Mark Simich (Hugh Hefner).

Sinopse: O filme trás até nós a real entrevista que o presidente Richard Nixon (Frank Langella), primeiro e único chefe de estado a renunciar o mandato na história dos Estados Unidos da América, realizou com o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen), jovem inexperiente e de pouco respeito entre os profissionais do meio, no ano de 1977. O assunto em pauta foi o esclarecimento de alguns pontos que haviam ficado obscuros durante o mandato de Nixon. Considerado incomunicável pelos profissionais do ramo, o ex-presidente estadunidense só aceitou realizar a entrevista com o jornalista por causa da alta quantia em dinheiro envolvida e por imaginar que, devido à inexperiência de Frost, seria fácil enganar o mesmo e não entregar os detalhes mais sigilosos de sua polêmica passagem pela Casa Branca. Ledo engano. Durante o primeiro dia de entrevista, Frost parecia inseguro e fácil de se ludibriar, mas a partir do segundo dia o jovem começa a ganhar segurança e, já no terceiro, passa a travar uma tensa “batalha verbal” com o político, resultando em um programa com uma extraordinária audiência.

Frost/Nixon – Trailer:


Crítica:

Richard Milhous Nixon foi uma das figuras mais polêmicas (senão ‘a’ mais polêmica) a assumir a chefia absoluta do poder executivo dos Estados Unidos da América. Ao mesmo tempo em que o ex-presidente ficou positivamente marcado por dar início às comercializações com a China, manter relações amigáveis com a União Soviética e negociar o cessar fogo com o Vietnã, o californiano também foi o responsável pela morte de inúmeras pessoas após realizar atentados contra os vietcongues (os mesmos com os quais viria a negociar a paz posteriormente) e, é claro, teve uma participação ativa no escândalo de Watergate (que tratava-se de uma operação contra o Partido Democrata onde cinco pessoas foram presas após invadir o Complexo Watergate, onde fica a sede do Comitê Nacional Democrata, fotografar documentos e instalar câmeras de escuta no escritório do partido opositor), embora negue veementemente isso.

Destarte, era de se esperar que uma figura dessas ganhasse vários filmes abordando a sua conturbada passagem pela Casa Branca, principalmente relatando o seu envolvimento com o Caso Watergate. Dentre tais obras cinematográficas, destaca-se o clássico “Todos os Homens do Presidente” e também “Nixon” de Oliver Stone, “Todas as Garotas do Presidente” e, recentemente, este “Frost/Nixon” (sem contar a citação que é feita no filme “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, onde o personagem de Tom Hanks afirma, em um momento jocoso empregado pelo roteiro, que fora ele quem descobrira toda a verdade sobre o Escândalo Watergate) que difere das demais obras citadas por abordar o mais polêmico caso de corrupção da história dos Estados Unidos da América três anos após a renúncia de Nixon, quando o caso já havia perdido um pouco da projeção que tivera na época em que ‘estourou’, mas se tornara ainda mais polêmico em virtude a uns pontos que ainda não haviam sido esclarecidos totalmente.

O filme utiliza então, como base para a estória, a entrevista realizada entre o apresentador inglês David Frost e o ex-presidente estadunidense Richard Nixon. Ambos, indivíduos interessantíssimos e magistralmente abordados pelo roteiro. Frost é um jovem apresentador inexperiente, sua fama é grande em virtude à baixa qualidade de seus programas, e não graças as suas qualidades profissionais, e a sua credibilidade entre os profissionais da área é muito baixa. Entretanto, o rapaz conta com uma característica que se revela mais importante a todo o jornalista do que as citadas acima: ele é extremamente audacioso. Audacioso o bastante para investir uma larga quantia em dinheiro, seiscentos mil dólares para ser mais exato, em uma entrevista cujas chances de fracasso revelam-se enormes. Mas Frost é persistente e a sua coragem nos cativa.

E Nixon? Nixon já é uma “raposa velha”. Inteligente, vivido, esperto, experiente, ardiloso, e tão audacioso quanto Frost. Com a experiência de vida que possui, o ex-presidente recusa-se a dar entrevista a quaisquer mídias que seja, por mais convidativa que a oferta lhe aparente. Nixon não quer entregar pontos confidenciais de sua campanha política. Para isso, o mesmo se torna praticamente incomunicável. Contudo, o político é mais astuto do que se podia imaginar. Ele aceita uma proposta para fazer uma entrevista com o jornalista Frost. Desta forma, pode-se matar dois coelhos com uma cajadada só: o velho consegue uma considerável quantia em dinheiro oferecida pela entrevista e, de quebra, ludibria Frost valendo-se da inexperiência do mesmo tentando responder as perguntas deste passando-se por um cidadão bom, injustiçado e de caráter ilibado.

E se os dois protagonistas deste filme, sozinhos, já se revelam fascinantes, imagine então o que acontece quando ambos dividem a cena. É óbvio que o grande trunfo do longa reside nas “batalhas verbais” travadas entre ambas durante a tão conturbada entrevista. Durante o último dia em que eles se encontram, o filme pega fogo. O duelo de atuações travado entre Michael Sheen e Frank Langella é digno de se cair o queixo. Ambos se revelam expressivos na medida certa, alternam o tom de voz conforme o necessário, conferem uma efusividade fora do comum à cena em questão e, ouso dizer, não imagino outros dois atores para comporem os papéis de um modo tão magistral. O duelo entre ambos se revela uma das químicas entre atores mais sensacionais do Cinema deste início de século. É óbvio que jamais os compararia com F. Murray Abraham e Tom Hulce em “Amadeus”, seria um grande exagero de minha parte, mas não há como negar que a dupla é fantástica e atribui ao longa a tensão requisitada para tal.

Individualmente, ambos os atores também se saem muito bem. Sheen adota o seu charme habitual para compor o personagem e, embora se revele um pouco caricato algumas vezes (note o modo como o mesmo tende a sorrir artificialmente durante alguns momentos do filme), o ator mostra total liberdade quando assume a responsabilidade do longa para si, construindo um David Frost sob medida, semi-perfeito. É Langella, no entanto, quem rouba a cena encarnando com magnificência um Richard Milhous Nixon praticamente irretocável. Não só o excelente trabalho de maquiagem, que confere ao ator uma incrível aparência física com o 37º presidente estadunidense, como também a composição de Langella “ressuscitam” o político e o transferem para o Cinema. Dono de um talento ímpar, o ator faz um trabalho invejavelmente competente e digno de ser aplaudido de pé. A expressividade de Langella é fantástica, mas ainda assim é um pequeno detalhe diante de seu carisma e do preciso tom de voz empregado para encarnar o ex-político.

E a direção de Ron Howard? Bem, não sou um dos grandes fãs de Howard, mas confesso que vez ou outra ele faz um trabalho extremamente interessante, assim como ocorreu em “Uma Mente Brilhante” que, apesar de supervalorizado, é um ótimo filme. Em “Frost/Nixon”, o cineasta adota, já de cara, uma direção ágil e dinâmica que, associada à montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, confere um ritmo impressionante ao longa. Howard trabalha, a princípio, com vários e incansáveis 'closes' e faz de seu filme um exercício de direção bastante chamativo. Infelizmente, o diretor vai perdendo o ritmo durante o desenrolar da trama, mas não se pode dizer jamais que o seu trabalho aqui é menos do que ótimo.

Gostaria de destacar também os diálogos do filme. Confesso que, durante alguns momentos, as falas de seus personagens me remeteram à deliciosa sensação de estar assistindo a um filme roteirizado por Woody Allen. Como não comparar coisas do tipo: “___ Você adoraria Viena. É como se fosse Paris, mas sem a França.” e “___ Na minha opinião, você deveria se casar com este garota. ___ Sim, ela é adorável, não é?___ Mais importante do que isso. Ela é de Monaco, e eles não pagam impostos lá.”, com a maestria empregada por Allen a fim de criar os seus diálogos?

Ah mas “Frost/Nixon” não é só qualidades. Não, não, muito pelo contrário, o mesmo apresenta muito defeitos e boa parte deles são imperdoáveis e, até mesmo, infantis. Comecemos pela personagem de Rebecca Hall. Hall é uma atriz carismática, talentosa, bonitona e possui um corpo incrivelmente suculento (e olha que sou assexuado). Entretanto, estes não são atributos o bastante para colocá-la no filme. Não se o roteiro não criar uma personagem suficientemente interessante para a trama. E o bem da verdade é que Caroline Cushing não tem propósito nenhum no filme, nem mesmo para aumentar a carga dramática do mesmo. Em outras palavras, Rebecca Hall é totalmente dispensável à trama (ah, que pena! Ela tem um corpo tão delicioso! Mas fazer o quê?).

Caroline Cushing, todavia, é o menor dos defeitos de “Frost/Nixon” (e eu já disse que a atriz tem um corpo digno de se desejar pular na tela da sala de cinema?). A jovem aparece apenas com o intento do roteiro formar um dispensável par romântico com David Frost e, apesar disso ser uma falha tola, não podemos considerar um pecado capital. Não, de modo algum, pecado capital é você dizer que vai realizar um filme que conta com uma entrevista para lá de reveladora de um dos presidentes mais odiados da história dos Estados Unidos da América (senão, “o” mais odiado) e, ao invés de focar-se apenas na entrevista, optar por dar muita importância aos bastidores da mesma.

Sim, é claro que vermos os preparos para o programa liderado por David Frost confere uma interessante carga dramática ao filme, mas em alguns momentos este pré-entrevista se torna um tanto o quanto fútil e adiciona ao longa cenas extremamente desnecessárias para o seu resultado final, como é o caso da longa sequência que ilustra o encontro entre o apresentador e Nixon (esta cena não é necessariamente desnecessária, mas deveria ser bem menor do que realmente é), a festa de aniversário de Frost e muitas outras que nada acrescentam à trama. A propósito, só para o leitor ter uma idéia de como o filme demora para chegar em seu ponto principal, a entrevista só tem início depois dos primeiros cinquenta e quatro minutos de projeção.

Infelizmente, os defeitos não param por aí. Não, muito pelo contrário, deixei o pior para o final. É claro que, assim como qualquer outro político (e qualquer outra pessoa, diga-se), Richard Nixon tinha as suas qualidades. Contudo, é lamentável vermos o filme, que se propunha a mostrar o programa que trouxe à tona muitos dos mistérios que envolviam o Caso Watergate, tentar passar a imagem de que Nixon era um bom sujeito e só fez o que fez pois julgou ser o mais correto durante a ocasião, ou seja, não teve malícia alguma em suas atitudes.

Oras, sabemos muito bem que Nixon agiu erroneamente, independentemente da filosofia que adotava na época ou não, então por quê o filme faz tanta questão de humanizar o presidente? Por que o filme faz tanta questão de o tratar como um pobre ser amargurado e arrependido? Enfim, o Nixon do final do filme, é um Nixon artificial. E mesmo que o presidente tenha adotado uma forte postura de arrependimento e vergonha na vida real, o filme deveria manter-se imparcial quanto a isso, seguindo o exemplo do excelente “Boa Noite, e Boa Sorte”. O que dizer então da artificialidade da cena em que Nixon, consideravelmente embriagado, liga para Frost, minutos antes da parte final do programa, e realiza um discurso incentivando este a dar o melhor de si na entrevista final? Lamentável, algo totalmente dispensável para um filme que, até então, havia cometido apenas erros simples, que pareciam ser incapazes de tirar-lhe o status de um filme cinco estrelas.

“Frost/Nixon”, enfim, revelou-se uma agradável surpresa, uma vez que as suas indicações ao Oscar vinham sendo muito questionadas. O longa se propõe a fazer uma analise extraordinária de um momento crucial para a história estadunidense: quando um dos personagens mais polêmicos daquela nação revelou, diante das câmeras, detalhes importantíssimos e, até então, sigilosos sobre o Caso Watergate. Os personagens são suficientemente interessantes para prender o espectador, a direção e a montagem são ótimas e o duelo de atuações entre Langella e Sheen é fenomenal, bem como o tenso “combate” travado entre Frost e Nixon, algo que faz jus ao excelente título conferido a esta película, que por si só, já dá uma inegável sensação de confronto direto entre duas pessoa. Contudo, ao contrário de filmes como “Boa Noite, e Boa Sorte”, o jornalismo político aqui é abordado de um modo que mostra a indispensabilidade deste para o desenvolvimento de uma nação, mas diferentemente do filme de George Clooney, a estória aqui, infelizmente, não se mostra totalmente imparcial. As tentativas de humanizar Nixon são todas repugnantes. O longa ainda confere importância demais aos bastidores da entrevista, inserindo no filme cenas totalmente dispensáveis e que ficariam bem melhor caso a montagem (que repito, apesar de tudo, é ótima) as tivesse excluído. No geral, é um ótimo filme, e um dos poucos que realmente mereceram a indicação ao Oscar deste ano.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona (prévia) - **** de *****

Acabei de assistir à “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen (já disse que ele é um de meus roteiristas e diretores prediletos? Já, não é? Mais de mil vezes creio eu) e... uau. Honestamente não sei dizer se essa onomatopéia monossilábica (refiro-me ao “uau”, certamente) representa um elogio ou uma decepção... ops, pode parar por aí. Decepção com certeza não foi o que eu senti ao término desta mais nova obra do judeu mais neurótico da história do Cinema. Talvez seja um alívio pelo mesmo ter chegado ao fim, e quando digo alívio, refiro-me ao fato de poder colocar os meus neurônios para descansar. Francamente, nunca havia tido a oportunidade de conferir uma estória de amor tão confusa quanto esta. Meu Deus (e olhe que sou ateu) quantos personagens, quantas tramas, quantos vai-e-vens, quanta confusão! Mas enfim, não seria o amor o mais confuso dentre todos os sentimentos? Sim, quantas vezes amamos, esquecemos, e voltamos a amar novamente a mesmíssima pessoa? Enfim, “Vicky Cristina Barcelona” se revela uma experiência deliciosamente confusa e confesso humildemente (pela primeira vez no Cine-Phylum demonstrando um ou outro resquício de humildade) que preciso assisti-lo a mais uma vez (o que farei com imenso prazer) para poder escrever uma análise mais complexa.
Nunca pensei que fosse dizer isso, uma vez que considero os filmes de Woody Allen extremamente simples, embora reflexivos e subjetivos, mas pela primeira vez em minha vida saí completa e deliciosamente desnorteado de uma sessão Alleniana.

Avaliação Final: 8,5 (será?) na escala de 10,0.