Crítica Técnica - Frankenstein (Guillermo del Toro, 2025), por Daniel Esteves de Barros - Fidelidade literária, humanização da criatura e o dilema entre adaptação e suavização trágica
A história da arte demonstra que obras que atingem o estatuto de clássico raramente o fazem exclusivamente por aclamação popular. Em regra, o processo de canonização cultural decorre de um duplo movimento: a recepção pública e, sobretudo, a legitimação pela crítica especializada. Nesse sentido, a crítica de arte cumpre um papel estruturante na formação do cânone, na medida em que identifica, analisa e legitima qualidades técnicas, estéticas e filosóficas que muitas vezes escapam ao olhar do público geral — cujo contato com a obra tende a privilegiar o aspecto estritamente entretenimental.
Enquanto o espectador médio avalia uma obra primordialmente a partir de sua capacidade de proporcionar fruição narrativa, a crítica especializada busca identificar camadas mais profundas de significado: estrutura dramática, construção estética, implicações filosóficas, dimensões políticas, sociológicas e simbólicas. É justamente nesse ponto que obras literárias como Frankenstein alcançam o estatuto de clássico: não apenas pela força de sua narrativa, mas pela densidade conceitual que permite sucessivas releituras críticas ao longo do tempo.
A adaptação cinematográfica de Guillermo del Toro, lançada em 2025, insere-se nesse complexo diálogo entre fidelidade literária e liberdade interpretativa — um dilema recorrente nas transposições intersemióticas de obras canônicas para o cinema.
Fidelidade literária como eixo narrativo
Historicamente, adaptações cinematográficas de clássicos literários frequentemente oscilam entre dois extremos: a reprodução quase literal do material original ou a apropriação autoral radical. O risco inerente a esta segunda abordagem reside no fato de que a liberdade criativa, quando mal calibrada, pode resultar em uma diluição da densidade temática que justificou o estatuto clássico da obra de origem.
Nesse sentido, Del Toro demonstra notável consciência do peso cultural do romance de Mary Shelley. Ao invés de tentar reinventar a estrutura narrativa, o diretor opta por preservar os principais eixos filosóficos do texto original:
a relação dialética entre criador e criatura
a responsabilidade moral da ciência
o isolamento existencial do ser artificial
a tragédia decorrente da negligência humana
a crítica à hybris científica
Essa escolha é particularmente relevante porque reafirma uma leitura frequentemente negligenciada do romance: Frankenstein não é essencialmente uma obra de horror, mas antes uma tragédia moral e existencial. O verdadeiro monstro da narrativa não é necessariamente a criatura, mas a irresponsabilidade ética de Victor Frankenstein diante de sua própria criação.
Nesse ponto específico, a adaptação de Del Toro demonstra um grau de fidelidade temática raro entre adaptações cinematográficas do romance.
A humanização da criatura: uma escolha narrativa controversa
Se, por um lado, o filme preserva os pilares conceituais do romance, por outro introduz alterações significativas na caracterização da criatura.
Interpretada por Jacob Elordi, a criatura cinematográfica apresenta um grau de empatia e autoconsciência consideravelmente superior ao observado no texto de Shelley. No romance original, o personagem evolui progressivamente para um estado de ressentimento e vingança, tornando-se responsável por uma série de assassinatos que reforçam a dimensão trágica da narrativa.
No filme, entretanto, Del Toro opta por uma abordagem mais compassiva e introspectiva. A violência da criatura é sensivelmente atenuada e substituída por uma trajetória marcada por reflexão, sensibilidade e busca por reconciliação.
Do ponto de vista dramático, essa escolha desloca o eixo narrativo do conflito trágico para uma espécie de drama de redenção. Trata-se de uma decisão coerente com a sensibilidade autoral de Del Toro, cujo cinema frequentemente se interessa por figuras monstruosas humanizadas — como já observado em obras anteriores como:
The Shape of Water
Pan's Labyrinth
Crimson Peak
No entanto, essa humanização excessiva também reduz a dimensão ameaçadora da criatura, enfraquecendo parcialmente o impacto trágico da narrativa.
O problema do desfecho narrativo
A divergência mais significativa entre filme e romance manifesta-se no tratamento do desfecho.
Sem entrar em território de spoilers, pode-se afirmar que a adaptação opta por um final consideravelmente mais conciliador e esperançoso do que o material literário. Enquanto o romance abraça integralmente a estética do gótico trágico, o filme encaminha a narrativa para um encerramento mais emocionalmente reconciliador.
O problema dessa escolha não reside necessariamente na adoção de um final menos sombrio. O verdadeiro obstáculo dramático está na forma como tal resolução é construída: após dois atos estruturados sobre culpa, abandono e ressentimento, a reconciliação final surge de maneira abrupta, mediada por diálogos relativamente simplificados.
O resultado é uma sensação de resolução precipitada, na qual conflitos acumulados ao longo de décadas entre criador e criatura parecem dissolver-se de maneira excessivamente rápida.
Design de produção: o verdadeiro triunfo do filme
Se há um campo em que a produção atinge excelência indiscutível, este é o da concepção estética.
O trabalho de direção de arte — premiado no Oscar — apresenta um grau impressionante de detalhamento histórico e estilização gótica. Os cenários recriam com grande sofisticação o ambiente europeu do século XIX, combinando monumentalidade arquitetônica com uma atmosfera decadente característica do imaginário romântico.
Entre os destaques visuais encontram-se:
o palacete onde Victor realiza seus experimentos
os interiores claustrofóbicos do navio que estrutura parte da narrativa
os figurinos de forte inspiração romântica e vitoriana
Os figurinos, em particular, dialogam diretamente com a estética recorrente do cinema de Del Toro: uma mistura de historicismo estilizado e teatralidade cromática.
Um elemento simbólico interessante é o uso recorrente da cor vermelha, especialmente associada à figura materna de Victor Frankenstein. A escolha cromática não apenas reforça a dimensão emocional do trauma do personagem, mas também estabelece uma associação visual entre morte, desejo e obsessão — três temas centrais da narrativa.
Maquiagem e concepção da criatura
A caracterização da criatura representa outra decisão estética relevante.
Diferentemente da iconografia clássica popularizada pelo cinema do século XX, esta versão apresenta uma criatura visualmente mais realista e grotesca: um corpo literalmente composto por fragmentos humanos costurados.
A opção por uma abordagem quase cirúrgica reforça o aspecto material da criação — aproximando a narrativa de sua dimensão científica e afastando-a da estética caricatural tradicional do personagem.
As performances
Entre os intérpretes, Oscar Isaac oferece a atuação mais robusta do filme.
Seu Victor Frankenstein combina arrogância intelectual e vulnerabilidade emocional, revelando um personagem cuja obsessão científica está profundamente enraizada em traumas familiares. Isaac consegue transmitir simultaneamente a altivez do cientista e a fragilidade psicológica do filho que busca constantemente aprovação paterna.
Já Jacob Elordi constrói uma criatura fisicamente convincente, marcada por gestualidade irregular e progressiva adaptação ao próprio corpo — uma performance que remete, em certa medida, ao processo de aprendizagem corporal visto em Avatar.
Por outro lado, Mia Goth, apesar de possuir maior presença dramática que sua contraparte literária, acaba prejudicada por um roteiro que não define claramente o arco emocional de sua personagem.
Situação semelhante ocorre com Christoph Waltz, cuja participação é dramaticamente subaproveitada.
Uma direção surpreendentemente contida
Curiosamente, a direção de Del Toro revela-se menos inventiva do que em trabalhos anteriores.
Enquanto filmes como Hellboy e Pinocchio demon
A câmera permanece frequentemente estática e a encenação raramente busca composições particularmente memoráveis.
Considerações finais
Em última análise, Frankenstein (2025) é um filme tecnicamente sofisticado e narrativamente respeitoso em relação ao romance de Mary Shelley. Seu maior mérito reside justamente na decisão de preservar o núcleo filosófico da obra original.
Entretanto, a humanização excessiva da criatura e a resolução narrativa apressada enfraquecem parte do impacto trágico que define o romance.
O resultado é uma adaptação sólida — esteticamente impressionante e interpretativamente competente — mas que, ao suavizar os aspectos mais sombrios do material literário, acaba sacrificando parte da intensidade dramática que transformou Frankenstein em um dos pilares da literatura moderna.


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