segunda-feira, 16 de março de 2026

Crítica Técnica - Frankenstein (Guillermo del Toro, 2025), por Daniel Esteves de Barros

 

Crítica Técnica - Frankenstein (Guillermo del Toro, 2025), por Daniel Esteves de Barros - Fidelidade literária, humanização da criatura e o dilema entre adaptação e suavização trágica



Nota: ★★★☆☆ (3/5)

A história da arte demonstra que obras que atingem o estatuto de clássico raramente o fazem exclusivamente por aclamação popular. Em regra, o processo de canonização cultural decorre de um duplo movimento: a recepção pública e, sobretudo, a legitimação pela crítica especializada. Nesse sentido, a crítica de arte cumpre um papel estruturante na formação do cânone, na medida em que identifica, analisa e legitima qualidades técnicas, estéticas e filosóficas que muitas vezes escapam ao olhar do público geral — cujo contato com a obra tende a privilegiar o aspecto estritamente entretenimental.

Enquanto o espectador médio avalia uma obra primordialmente a partir de sua capacidade de proporcionar fruição narrativa, a crítica especializada busca identificar camadas mais profundas de significado: estrutura dramática, construção estética, implicações filosóficas, dimensões políticas, sociológicas e simbólicas. É justamente nesse ponto que obras literárias como Frankenstein alcançam o estatuto de clássico: não apenas pela força de sua narrativa, mas pela densidade conceitual que permite sucessivas releituras críticas ao longo do tempo.

A adaptação cinematográfica de Guillermo del Toro, lançada em 2025, insere-se nesse complexo diálogo entre fidelidade literária e liberdade interpretativa — um dilema recorrente nas transposições intersemióticas de obras canônicas para o cinema.


Fidelidade literária como eixo narrativo

Historicamente, adaptações cinematográficas de clássicos literários frequentemente oscilam entre dois extremos: a reprodução quase literal do material original ou a apropriação autoral radical. O risco inerente a esta segunda abordagem reside no fato de que a liberdade criativa, quando mal calibrada, pode resultar em uma diluição da densidade temática que justificou o estatuto clássico da obra de origem.

Nesse sentido, Del Toro demonstra notável consciência do peso cultural do romance de Mary Shelley. Ao invés de tentar reinventar a estrutura narrativa, o diretor opta por preservar os principais eixos filosóficos do texto original:

  • a relação dialética entre criador e criatura

  • a responsabilidade moral da ciência

  • o isolamento existencial do ser artificial

  • a tragédia decorrente da negligência humana

  • a crítica à hybris científica

Essa escolha é particularmente relevante porque reafirma uma leitura frequentemente negligenciada do romance: Frankenstein não é essencialmente uma obra de horror, mas antes uma tragédia moral e existencial. O verdadeiro monstro da narrativa não é necessariamente a criatura, mas a irresponsabilidade ética de Victor Frankenstein diante de sua própria criação.

Nesse ponto específico, a adaptação de Del Toro demonstra um grau de fidelidade temática raro entre adaptações cinematográficas do romance.


A humanização da criatura: uma escolha narrativa controversa

Se, por um lado, o filme preserva os pilares conceituais do romance, por outro introduz alterações significativas na caracterização da criatura.

Interpretada por Jacob Elordi, a criatura cinematográfica apresenta um grau de empatia e autoconsciência consideravelmente superior ao observado no texto de Shelley. No romance original, o personagem evolui progressivamente para um estado de ressentimento e vingança, tornando-se responsável por uma série de assassinatos que reforçam a dimensão trágica da narrativa.

No filme, entretanto, Del Toro opta por uma abordagem mais compassiva e introspectiva. A violência da criatura é sensivelmente atenuada e substituída por uma trajetória marcada por reflexão, sensibilidade e busca por reconciliação.

Do ponto de vista dramático, essa escolha desloca o eixo narrativo do conflito trágico para uma espécie de drama de redenção. Trata-se de uma decisão coerente com a sensibilidade autoral de Del Toro, cujo cinema frequentemente se interessa por figuras monstruosas humanizadas — como já observado em obras anteriores como:

  • The Shape of Water

  • Pan's Labyrinth

  • Crimson Peak

No entanto, essa humanização excessiva também reduz a dimensão ameaçadora da criatura, enfraquecendo parcialmente o impacto trágico da narrativa.


O problema do desfecho narrativo

A divergência mais significativa entre filme e romance manifesta-se no tratamento do desfecho.

Sem entrar em território de spoilers, pode-se afirmar que a adaptação opta por um final consideravelmente mais conciliador e esperançoso do que o material literário. Enquanto o romance abraça integralmente a estética do gótico trágico, o filme encaminha a narrativa para um encerramento mais emocionalmente reconciliador.

O problema dessa escolha não reside necessariamente na adoção de um final menos sombrio. O verdadeiro obstáculo dramático está na forma como tal resolução é construída: após dois atos estruturados sobre culpa, abandono e ressentimento, a reconciliação final surge de maneira abrupta, mediada por diálogos relativamente simplificados.

O resultado é uma sensação de resolução precipitada, na qual conflitos acumulados ao longo de décadas entre criador e criatura parecem dissolver-se de maneira excessivamente rápida.


Design de produção: o verdadeiro triunfo do filme

Se há um campo em que a produção atinge excelência indiscutível, este é o da concepção estética.

O trabalho de direção de arte — premiado no Oscar — apresenta um grau impressionante de detalhamento histórico e estilização gótica. Os cenários recriam com grande sofisticação o ambiente europeu do século XIX, combinando monumentalidade arquitetônica com uma atmosfera decadente característica do imaginário romântico.

Entre os destaques visuais encontram-se:

  • o palacete onde Victor realiza seus experimentos

  • os interiores claustrofóbicos do navio que estrutura parte da narrativa

  • os figurinos de forte inspiração romântica e vitoriana

Os figurinos, em particular, dialogam diretamente com a estética recorrente do cinema de Del Toro: uma mistura de historicismo estilizado e teatralidade cromática.

Um elemento simbólico interessante é o uso recorrente da cor vermelha, especialmente associada à figura materna de Victor Frankenstein. A escolha cromática não apenas reforça a dimensão emocional do trauma do personagem, mas também estabelece uma associação visual entre morte, desejo e obsessão — três temas centrais da narrativa.


Maquiagem e concepção da criatura

A caracterização da criatura representa outra decisão estética relevante.

Diferentemente da iconografia clássica popularizada pelo cinema do século XX, esta versão apresenta uma criatura visualmente mais realista e grotesca: um corpo literalmente composto por fragmentos humanos costurados.

A opção por uma abordagem quase cirúrgica reforça o aspecto material da criação — aproximando a narrativa de sua dimensão científica e afastando-a da estética caricatural tradicional do personagem.


As performances

Entre os intérpretes, Oscar Isaac oferece a atuação mais robusta do filme.

Seu Victor Frankenstein combina arrogância intelectual e vulnerabilidade emocional, revelando um personagem cuja obsessão científica está profundamente enraizada em traumas familiares. Isaac consegue transmitir simultaneamente a altivez do cientista e a fragilidade psicológica do filho que busca constantemente aprovação paterna.

Já Jacob Elordi constrói uma criatura fisicamente convincente, marcada por gestualidade irregular e progressiva adaptação ao próprio corpo — uma performance que remete, em certa medida, ao processo de aprendizagem corporal visto em Avatar.

Por outro lado, Mia Goth, apesar de possuir maior presença dramática que sua contraparte literária, acaba prejudicada por um roteiro que não define claramente o arco emocional de sua personagem.

Situação semelhante ocorre com Christoph Waltz, cuja participação é dramaticamente subaproveitada.


Uma direção surpreendentemente contida

Curiosamente, a direção de Del Toro revela-se menos inventiva do que em trabalhos anteriores.

Enquanto filmes como Hellboy e Pinocchio demonstravam grande ousadia visual e movimentos de câmera expressivos, aqui o diretor parece adotar uma abordagem mais conservadora, privilegiando uma mise-en-scène funcional.

A câmera permanece frequentemente estática e a encenação raramente busca composições particularmente memoráveis.


Considerações finais

Em última análise, Frankenstein (2025) é um filme tecnicamente sofisticado e narrativamente respeitoso em relação ao romance de Mary Shelley. Seu maior mérito reside justamente na decisão de preservar o núcleo filosófico da obra original.

Entretanto, a humanização excessiva da criatura e a resolução narrativa apressada enfraquecem parte do impacto trágico que define o romance.

O resultado é uma adaptação sólida — esteticamente impressionante e interpretativamente competente — mas que, ao suavizar os aspectos mais sombrios do material literário, acaba sacrificando parte da intensidade dramática que transformou Frankenstein em um dos pilares da literatura moderna.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Crítica Técnica – Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025), por Daniel Esteves de Barros


Crítica Técnica | Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025), por Daniel Esteves de Barros — Paul Thomas Anderson e a anatomia satírica das utopias fracassadas

Nota: ★★★★☆ (4/5)

Uma Batalha Após a Outra (2025) - IMDb

Ainda que, do ponto de vista estritamente cinematográfico, este autor considere Marty Supreme o candidato mais sólido — em termos de engenharia narrativa e rigor formal — ao Oscar de Melhor Filme de 2026, é preciso reconhecer que o prêmio da Academia raramente se restringe à excelência técnica. Historicamente, o Oscar funciona também como instrumento de legitimação cultural, premiando obras cujo impacto simbólico ou político projete consequências para além da sala de exibição. Sob esse prisma, Uma Batalha Após a Outra emerge como um concorrente particularmente relevante.

O filme de Paul Thomas Anderson mobiliza a sátira como dispositivo de observação social e política, mirando a polarização ideológica que domina o debate público contemporâneo. Em vez de aderir a um posicionamento ideológico inequívoco, Anderson prefere um gesto mais sofisticado: expor simultaneamente as contradições retóricas da extrema-direita e da extrema-esquerda, desmontando os mecanismos psicológicos que sustentam ambas.

Esse gesto autoral não é exatamente novo em sua filmografia. Desde There Will Be Blood, passando por The MasterInherent Vice e Licorice Pizza, Anderson demonstra fascínio por personagens ideologicamente deslocados — indivíduos que orbitam projetos grandiosos que acabam inevitavelmente corroídos por contradições internas.


Estética da consequência: fotografia e atmosfera

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Do ponto de vista formal, Uma Batalha Após a Outra é quase irrepreensível. A fotografia adota uma paleta deliberadamente desidratada, dominada por tons ocres e pastéis, que evocam um ambiente físico e moral em decomposição.

O deserto não funciona apenas como cenário, mas como metáfora visual para o estado psicológico dos personagens: revolucionários que outrora acreditaram participar de uma transformação histórica e agora vivem o lento esfacelamento dessas utopias.

Anderson constrói, portanto, um cinema das consequências. O filme se interessa menos pelo momento heroico da revolução e mais pelo que resta após o entusiasmo ideológico evaporar. Seus personagens são sobreviventes de suas próprias narrativas românticas.

Esse contraste é reforçado pela fotografia. Nos momentos que evocam o passado militante — ataques noturnos ou episódios de fervor revolucionário — surgem azuis noturnos mais vivos e luminosidades mais vibrantes. No presente narrativo, entretanto, predominam cores esmaecidas, enfatizando o esgotamento dessas utopias.


Trilha sonora e montagem: a arquitetura da urgência

A trilha sonora funciona quase como um dispositivo narrativo independente. Com poucos acordes e estruturas repetitivas, o score cria uma sensação constante de alerta — como uma sirene distante que nunca deixa de tocar.

O resultado é um sentimento de urgência permanente, como se algo terrível pudesse acontecer a qualquer momento.

Essa tensão sonora dialoga diretamente com a montagem, que provavelmente figura entre as mais fortes candidatas ao Oscar de edição em 2026. A edição privilegia fluidez e clareza narrativa, alternando múltiplos núcleos dramáticos sem gerar confusão.

A palavra que melhor descreve esse trabalho é magnetismo: cada corte parece puxar o espectador para o próximo evento dramático, criando uma progressão quase hipnótica.


O elenco: sátira performativa e ambiguidade psicológica

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No centro dessa galeria de personagens ideologicamente fragmentados está Leonardo DiCaprio, que interpreta uma espécie de versão paranoica de Jeff Lebowski, o icônico “The Dude” de The Big Lebowski.

Seu personagem é um revolucionário decadente, alguém que ficou preso em um passado ideológico que já não existe. DiCaprio investe fortemente em timing cômico, explorando a dimensão patética do personagem — um homem que outrora acreditou que mudaria o mundo e hoje mal consegue organizar a própria vida.


Sean Penn: ambiguidade vocal e corporal

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Outro destaque incontornável é Sean Penn, cujo trabalho aqui é um estudo fascinante de ambiguidade performativa.

O personagem Lockjaw poderia facilmente cair na caricatura. No entanto, Penn constrói algo muito mais sofisticado.

Seu tom de voz deliberadamente abobalhado e quase infantil entra em choque com a rigidez de suas expressões faciais. O resultado é uma tensão constante entre aparência e fragilidade.

Penn trabalha essa contradição com enorme precisão física. Pequenos gestos — o modo como movimenta a boca, a maneira nervosa com que passa a língua pelos lábios — denunciam uma insegurança profunda escondida sob uma masculinidade performática.

É uma atuação que se constrói nas minúcias corporais, e não apenas no texto.

Até recentemente, este autor considerava que o prêmio de ator coadjuvante deveria ir para Stellan Skarsgård, por Valor Sentimental. No entanto, diante desse trabalho e após as vitórias de Penn no BAFTA e no Actors Awards, torna-se difícil imaginar outro resultado na noite do Oscar.


Teyana Taylor: a guerrilheira como arquétipo

Outro desempenho notável é o de Teyana Taylor, que interpreta Perfidia Beverly Hills — talvez a personagem mais séria do filme.

Taciturna, brutal e quase messiânica, Perfidia representa o arquétipo do revolucionário absoluto. Taylor transmite essa intensidade com impressionante naturalidade.

Seu tempo de tela é relativamente curto, mas sua presença é devastadora. Cada gesto, cada entonação vocal transmite convicção ideológica total.

Ainda que seja forte candidata ao Oscar, a derrota para Amy Madigan no Actors Awards provavelmente reduziu suas chances.


Benicio Del Toro: o revolucionário cansado

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Já Benicio del Toro oferece talvez a atuação mais sutil do elenco.

Seu personagem funciona como uma espécie de pai ideológico desencantado. Ele ainda protege os jovens revolucionários, mas já abandonou qualquer crença real na causa.

Esse desencanto aparece nos pequenos gestos.

Em uma cena emblemática, enquanto o personagem de DiCaprio proclama “Viva a revolução!” com entusiasmo quase infantil, Del Toro responde com um lacônico “É… tá bom.”

O contraste entre fervor e ironia sintetiza o espírito do personagem.


Direção: a maturidade de Paul Thomas Anderson

Se existe uma categoria praticamente assegurada para o filme na temporada de premiações, esta é Melhor Direção.

Depois de décadas sendo relativamente negligenciado pela Academia — desde There Will Be Blood, derrotado por No Country for Old Men — Anderson parece finalmente receber o reconhecimento institucional que sua filmografia merece.

Sua direção aqui é marcada por planos-sequência elegantes e travellings verticais precisos, como na sequência inicial em que os revolucionários planejam libertar refugiados.

Esses movimentos de câmera ampliam a sensação de urgência já construída pela trilha sonora e pela montagem.

O resultado é um filme de quase três horas que passa com surpreendente fluidez, sem jamais provocar sensação de cansaço.


A perseguição final

A sequência de perseguição automobilística próxima ao final do filme exemplifica bem a inteligência formal de Anderson.

Utilizando câmera subjetiva, o diretor alterna o ponto de vista entre caçador e presa. Planos do retrovisor, do capô e da estrada ondulada criam suspense sem recorrer a efeitos extravagantes.

É uma sequência relativamente simples em termos de orçamento, mas extremamente eficaz em termos dramáticos.


A leitura política: a sátira dos dois extremos

Talvez o aspecto mais fascinante do filme seja sua leitura política.

À primeira vista, a narrativa parece glorificar um grupo revolucionário que luta contra instituições conservadoras — corporações, leis anti-aborto, políticas anti-imigração.

Entretanto, à medida que a trama avança, Anderson desmonta progressivamente essa aura heroica.

O filme começa a questionar:

  • Quem financia essas revoluções?

  • Quem se beneficia delas?

  • As pessoas que esses revolucionários dizem defender realmente pediram essa defesa?

A personagem de Teyana Taylor torna-se central nesse processo. Ao mesmo tempo em que encarna o discurso humanitário, ela demonstra enorme desprezo pelas consequências humanas de suas ações — chegando a colocar vidas inocentes em risco.

Ela se revela menos uma libertadora e mais uma figura narcísica que busca imortalizar o próprio nome na história.

Por outro lado, Anderson também satiriza a extrema-direita através da “Sociedade dos Aventureiros Natalinos”, um grupo supremacista composto por jovens imaturos incapazes de lidar com frustrações pessoais.

O filme revela esses personagens como indivíduos infantilizados que projetam suas frustrações sociais em teorias conspiratórias raciais.


O único tropeço: um final excessivamente conciliador

Se há uma fraqueza significativa na obra, ela se encontra no epílogo.

Após uma construção narrativa marcada por ambiguidade moral e cinismo político, o filme opta por um final surpreendentemente conciliador — quase um happy ending.

Esse desfecho dilui parte da força satírica acumulada ao longo da narrativa.

Há a sensação de que o filme teria terminado de forma muito mais poderosa se tivesse encerrado logo após a sequência da perseguição.

O epílogo envolvendo DiCaprio, sua filha e uma carta soa excessivamente sentimental — um fechamento quase “disneyano” que destoa do tom ácido da obra.


Conclusão

Apesar desse tropeço final, Uma Batalha Após a Outra permanece como uma das obras mais sofisticadas da temporada.

Paul Thomas Anderson constrói aqui um filme sobre ressaca ideológica — um estudo sobre o que acontece quando grandes narrativas políticas colidem com a realidade.

Tecnicamente impecável, interpretado com precisão cirúrgica e dirigido com maturidade absoluta, o filme se estabelece como um dos pontos altos da carreira do diretor.

Uma obra de quatro estrelas, que poderia facilmente ter sido perfeita se tivesse tido coragem de manter até o fim o cinismo brilhante que a define.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Minhas Previsões Para o Oscar 2026

Que tal voltarmos com uma antiga tradição deste blog e tentarmos acertar os vencedores do Oscar 2026? 


Segue a lista abaixo, será que acertamos os habituais 70%? 

Oscar 2026 tem mais de 200 filmes concorrendo a Melhor Filme

Melhor Filme:

Vai Vencer - Uma Batalha Após a Outra

Tem Chances de Vencer - Pecadores

Merece Vencer - Marty Supreme

Melhor Diretor:

Vai Vencer - Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Tem Chances de Vencer - Ryan Coogler, por Pecadores

Merece Vencer - Josh Safdie, por Marty Supreme

Melhor Roteiro Original:

Vai Vencer - Ryan Coogler, por Pecadores

Tem Chances de Vencer - Josh Safdie e Ronald Bronstein, por Marty Superme

Merece Vencer - Josh Safdie e Ronald Bronstein, por Marty Superme

Melhor Roteiro Adaptado:

Vai Vencer - Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Tem Chances de Vencer - Chloé Zhao e Maggie O'Farrell, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Merece Vencer - Chloé Zhao e Maggie O'Farrell, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Filme Internacional:

Vai Vencer - Valor Sentimental

Tem Chances de Vencer - O Agente Secreto

Merece Vencer - Valor Sentimental

Melhor Ator:

Vai Vencer - Timothée Chalamet, por Marty Supreme

Tem Chances de Vencer - Michael B. Jordan, por Pecadores

Merece Vencer - Timothée Chalamet, por Marty Supreme

Melhor Atriz:

Vai Vencer - Jessie Buckley, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Tem Chances de Vencer - Rose Byrne, por Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Merece Vencer - Jessie Buckley, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Ator Coadjuvante:

Vai Vencer - Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

Tem Chances de Vencer - Stellan Skarsgard, por Valor Sentimental

Merece Vencer - Stellan Skarsgard, por Valor Sentimental

Melhor Atriz Coadjuvante:

Vai Vencer - Amy Madigan, por A Hora do Mal

Tem Chances de Vencer - Teyana Taylor, por Uma Batalha Após a Outra

Merece Vencer - Wunmi Mosaku, por Pecadores

Melhor Direção de Elenco:

Vai Vencer - Francine Maisler, por Pecadores

Tem Chances de Vencer - Cassandra Kulukundis, por Uma Batalha Após a Outra

Merece Vencer - Jennifer Venditti, por Marty Superme ou Nina Gold, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Filme de Animação Longa-Metragem:

Vai Vencer - As Guerreiras do K-Pop

Tem Chances de Vencer - Zootopia 2

Merece Vencer - ???????????

Melhor Montagem:

Vai Vencer - Andy Jurgensen, por Uma Batalha Após a Outra

Tem Chances de Vencer - Michael P. Shawver, por Pecadores

Merece Vencer - ????????????????????

Melhor Fotografia:

Vai Vencer - Autumn Durald, por Pecadores

Tem Chances de Vencer - Michael Bauman, por Uma Batalha Após a Outra

Merece Vencer - Adolpho Veloso, por Sonhos de Trem

Melhor Direção de Arte:

Vai Vencer - Tamara Deverell e Shane Vieau, por Frankstein

Tem Chances de Vencer - Hannah Beachler e Monique Champagne, por Pecadores

Merece Vencer - Fiona Crombie e Alice Felton, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Trilha Sonora Original:

Vai Vencer - Ludwig Göransson, por Pecadores

Tem Chances de Vencer - Alexandre Desplat, por Frankstein

Merece Vencer - Max Richter, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhores Efeitos Visuais:

Vai Vencer - Avatar: Fogo e Cinzas

Tem Chances de Vencer - F1

Merece Vencer - Avatar: Fogo e Cinzas

Melhor Som:

Vai Vencer - F1

Tem Chances de Vencer - Pecadores

Merece Vencer - ???????????

Melhor Figurino:

Vai Vencer - Kate Hawley, por Frankstein

Tem Chances de Vencer - Ruth E. Carter, por Pecadores

Merece Vencer - Malgosia Turzanska, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Maquiagem e Penteados:

Vai Vencer - Mike Hill, Jordan Samuel e Cliona Furey, por Frankstein

Tem Chances de Vencer - Michael Fontaine, Ken Diaz e Shunika Terry, por Pecadores

Merece Vencer - ??????????????

Melhor Canção Original:

Vai Vencer - Trains Dreams

Tem Chances de Vencer - Guerreiras do K-Pop

Merece Vencer - ?????????????

Melhor Documentário:

Vai Vencer - Mr. Nobody Against Putin

Tem Chance de Vencer - A Vizinha Perfeita

Melhor Curta Metragem:

Vai Vencer - A Friend of Dorothy

Melhor Documentário Curta Metragem:

Vai Vencer - The Devil Is Busy

Melor Curta Metragem em Animação:

Vai Vencer - The Three Sisters — Konstantin Bronzit

Total de Prêmios:

Uma Batalha Após a Outra - 5 Oscar

Pecadores - 4 Oscar

Frankstein - 3 Oscar

Valor Sentimental - 1 Oscar

F1 - 1 Oscar

Marty Superme - 1 Oscar

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet - 1 Oscar

Sonhos de Trem - 1 Oscar

Avatar: Fogo e Cinzas - 1 Oscar

Guerreiras do K-Pop - 1

A Hora do Mal - 1

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Crítica Técnica – Sonhos de Trem (Clint Bentley, 2026), por Daniel Esteves de Barros

 

Crítica Técnica – Sonhos de Trem (Clint Bentley, 2026), por Daniel Esteves de Barros

Nota: ★★★★☆ (4/5)

Sobre o filme Sonhos De Trem - Ingresso.com

A temporada pré-Oscar raramente se justifica pelo caráter meritocrático da premiação — historicamente atravessada por dinâmicas institucionais e políticas internas da indústria — mas frequentemente funciona como dispositivo de visibilidade. É nesse contexto que Sonhos de Trem emerge: um filme que, não fosse sua indicação à categoria principal, provavelmente teria sido absorvido pelo silêncio do circuito independente.

E seria uma perda considerável.


Estrutura Narrativa e Problemas de Mediação Dramática

Sonhos de Trem se constrói, em sua primeira metade, como um drama contemplativo de baixa fricção dramática. A ausência inicial de antagonismo é deliberada: Bentley aposta na observação do cotidiano, no registro do labor físico e da vida conjugal como motores dramáticos mínimos. O problema não reside na contenção, mas na supermediação.

A narração em off — extradiegética e nunca incorporada organicamente ao universo ficcional — opera como um mecanismo explicativo excessivo. Funciona menos como recurso estilístico e mais como prótese narrativa. Ao verbalizar estados emocionais que poderiam ser inferidos pela mise-en-scène, a obra demonstra certa desconfiança na inteligência do espectador. O resultado é uma artificialidade que compromete a imersão.

Ainda assim, o filme se reorganiza estruturalmente a partir de um ponto de inflexão na segunda metade. O “plot twist” não é apenas um evento narrativo: ele reconfigura o regime estético da obra. A dramaticidade se intensifica, a performance ganha densidade psicológica e a linguagem visual se adensa. Diferentemente de obras que perdem coesão após sua virada tonal, aqui a guinada fortalece o projeto dramático.


Direção e Poética Visual

A direção de Clint Bentley é marcada por discrição formal e rigor simbólico. A obra opera sob um princípio central: a relação ontológica entre homem e natureza.

Desde o plano de abertura — um contra-plongée que monumentaliza as árvores — a mise-en-scène estabelece uma hierarquia visual: a natureza como entidade soberana. A recorrência de enquadramentos verticais enfatiza a escala e a opressão simbólica da paisagem. Quando Bentley inverte para plongées, especialmente em momentos de impacto físico (como a queda do galho), a imagem traduz a violência impessoal da natureza sobre o corpo humano.

O desenho de som é fundamental nessa construção. Sons ambientes — vento, estalos de madeira, o atrito da serra — compõem uma textura sonora que reforça a permanência do ambiente frente à efemeridade humana. O homem trabalha; a natureza permanece.


Fotografia e Regime Cromático

A fotografia de Adolpho Veloso (diretor de fotografia brasileiro frequentemente associado a uma paleta naturalista) estabelece dois regimes cromáticos distintos:

  • Primeira metade: tons quentes e luz difusa, predominância de verdes e dourados suaves.

  • Segunda metade: desaturação progressiva, aproximação de tons pastéis frios, sombras mais densas.

A transição cromática acompanha o amadurecimento — ou desgaste — existencial do protagonista. O uso de luz natural reforça o realismo histórico, enquanto a composição espacial frequentemente coloca o personagem em segundo plano diante da paisagem, visualmente reiterando sua insignificância ontológica.


Performance e Construção de Personagem

O centro gravitacional da obra é Joel Edgerton.

Sua atuação é minimalista, construída sobre economia gestual e contenção verbal — coerente com a origem social do personagem. Na primeira metade, a interpretação é quase hermética; após a virada dramática, Edgerton amplia sua expressividade sem abandonar o registro contido. O envelhecimento físico, auxiliado por maquiagem sutil e progressiva, nunca se sobrepõe à construção psicológica.

O arco interpretativo é interno. O sofrimento não explode; sedimenta.

O restante do elenco cumpre função estrutural, orbitando o protagonista como vetores de deslocamento emocional. Não competem com Edgerton — e essa assimetria parece deliberada.


Filosofia Implícita e Eixo Temático

O roteiro — assinado por Bentley e Greg Kwedar — estrutura-se como um estudo sobre permanência e transitoriedade. A narrativa inscreve o indivíduo numa escala temporal que o excede.

A ideia central é clara: o ser humano é contingente; a natureza, estrutural. Incêndios devastam, mas o campo floresce novamente. O homem constrói, a natureza reabsorve. A obra sugere que o único legado possível não é material, mas afetivo.

Há uma dimensão existencial que dialoga com certa tradição filosófica: a vida não como problema a ser resolvido, mas como experiência a ser sentida. O filme abandona qualquer teleologia grandiosa. O sentido reside no gesto mínimo — no toque, na memória, no instante compartilhado.


Considerações Finais

Sonhos de Trem não é um filme perfeito. A narração em off compromete sua confiança estética inicial. A primeira metade flerta com a excessiva placidez dramática.

Mas sua segunda metade reorganiza a obra com força simbólica e maturidade formal. A direção é consistente, a fotografia é expressiva e a performance central sustenta o peso emocional da narrativa.

Se o Oscar raramente representa justiça artística, ao menos aqui funcionou como farol. Sem a indicação, talvez essa obra permanecesse invisível.

E isso teria sido injusto.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

Nota: ★★★☆☆ (3/5)



Há um debate inadiável acerca dos critérios curatoriais contemporâneos da indústria hollywoodiana, especialmente no que concerne às diretrizes institucionais da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A Academia, responsável pela outorga do Oscar, declarou formalmente nos últimos anos sua intenção de privilegiar obras que atendam a parâmetros de diversidade e representatividade. A questão, portanto, não reside na presença de temáticas raciais ou identitárias — historicamente abordadas pelo Cinema com excelência — mas na forma como tais elementos são integrados à estrutura dramatúrgica.

Quando observamos produções como Django Unchained12 Years a Slave, BlacKkKlansman, Green Book e Moonlight, verificamos abordagens distintas de conflitos raciais e identitários, mas todas sustentadas por coerência interna, domínio da linguagem cinematográfica e articulação narrativa consistente. Em maior ou menor grau, tais obras subordinam o discurso temático à organicidade da mise-en-scène, à progressão dramática e à construção psicológica dos personagens.

É nesse contexto que Pecadores se insere — e também se fragmenta.

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Estrutura Narrativa e Direção

Dirigido por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, o filme inicia como um drama histórico ambientado no Mississippi da década de 1930.

A primeira metade apresenta notável coesão formal. A direção de arte reconstitui com precisão o Sul estadunidense pós-Depressão; a paleta cromática privilegia tons quentes e saturados, sugerindo um ambiente simultaneamente árido e pulsante. A fotografia explora contrastes de luminosidade — o sol escaldante como elemento simbólico de opressão estrutural — enquanto a trilha calcada no blues funciona não apenas como ambientação sonora, mas como eixo identitário da narrativa.

Coogler conduz a mise-en-scène com dinamismo. A montagem privilegia ritmo ágil sem comprometer a inteligibilidade espacial. Há domínio técnico inequívoco: enquadramentos estáveis, movimentos de câmera motivados, transições fluidas. Michael B. Jordan entrega performance marcada por cadência verbal acelerada, impostação confiante e presença cênica que estrutura a primeira metade do filme.

Até aqui, a obra demonstra unidade estética e clareza de propósito.

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Ruptura Genérica e Problema de Coerência

O ponto de inflexão ocorre quando o drama histórico converte-se abruptamente em horror sobrenatural. Não se trata de uma simples hibridização de gêneros — recurso perfeitamente legítimo na história do Cinema —, mas de uma guinada estrutural insuficientemente preparada em termos de foreshadowing e progressão dramática.

A mudança de registro carece de ancoragem diegética sólida. A narrativa abandona a verossimilhança construída para adotar convenções típicas do horror sem a devida preparação simbólica. O resultado é um desequilíbrio estrutural: dois filmes distintos coexistem no mesmo corpo narrativo.

Como obra de terror, Pecadores é funcional. Entretanto, dentro do gênero, revela execução apenas mediana: desenvolvimento acelerado, arquétipos pouco sofisticados, antagonistas delineados com traços excessivamente esquemáticos. A tensão não amadurece gradualmente; ela é instaurada por imposição estrutural.

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Construção de Arquétipos e Discurso

O terceiro ato evidencia simplificação de conflitos raciais por meio da inversão simbólica de papéis sociais. A representação de antagonismos raciais ocorre de maneira pouco ambígua, o que reduz a complexidade dramática. Em vez de explorar a ambivalência moral dos personagens, opta-se por uma configuração arquetípica quase alegórica.

Do ponto de vista formal, quando o discurso precede a dramaturgia, a narrativa perde densidade. Cinema politicamente engajado não é problema; a História da Sétima Arte é pródiga em exemplos de obras militantes esteticamente sofisticadas. O problema surge quando a estrutura dramática se subordina a uma intenção discursiva que se sobrepõe à organicidade do roteiro.

A percepção de alinhamento estratégico aos critérios contemporâneos da Academia decorre não da presença do tema racial, mas da forma como o conflito é estruturado: menos como investigação dramática e mais como afirmação categórica.

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Considerações Finais

Pecadores possui méritos inequívocos:

  • Direção de arte rigorosa
  • Fotografia expressiva
  • Trilha sonora identitária
  • Atuação central magnética
  • Primeira metade dramaticamente sólida

Entretanto, padece de:

  • Ruptura genérica abrupta
  • Fragilidade na transição para o horror
  • Simplificação arquetípica no terceiro ato
  • Descompasso entre discurso e dramaturgia

As múltiplas indicações ao Oscar podem ser compreendidas à luz do contexto institucional atual, mas não encontram respaldo proporcional na excelência formal integral da obra.

Trata-se, em síntese, de um filme tecnicamente competente, estruturalmente irregular e tematicamente ambicioso, porém esteticamente inconsistente na totalidade de sua proposta.

Não é uma obra menor — mas tampouco um marco.

Daqui a alguns anos, é plausível que seja lembrado mais pelo contexto de sua recepção do que por sua permanência estética.