Crítica Técnica: O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957), Por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★★★★

Durante muito tempo, parecia quase temerário produzir uma crítica sobre O Sétimo Selo. Provavelmente isso se deve à complexidade que envolve a obra de maneira geral. Filmes como Persona, do próprio Ingmar Bergman, e 2001 – Uma Odisseia no Espaço — e parece desnecessário dizer quem é o cineasta responsável por esta obra-prima — são, inquestionavelmente, mais herméticos em sua construção formal e narrativa do que o longa protagonizado por Max von Sydow, ator que posteriormente assumiria papéis marcantes na história do Cinema, dentre os quais merece destaque o padre Merrin de O Exorcista.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental. Quem se dispõe a assistir a Persona ou 2001 dificilmente chegará ao fim sem perceber que esteve diante de obras deliberadamente complexas, cuja estrutura exige interpretação e cuja linguagem anuncia, desde muito cedo, que uma leitura meramente literal será insuficiente. O Sétimo Selo é mais traiçoeiro.
Aos olhos de um espectador pouco interessado na linguagem cinematográfica ou em suas possibilidades metafóricas, o filme de Bergman pode parecer uma obra relativamente simples: um cavaleiro regressa das Cruzadas, encontra uma Suécia devastada pela peste negra, depara-se com a própria Morte e tenta adiar seu destino desafiando-a para uma partida de xadrez. Há começo, desenvolvimento e conclusão perfeitamente discerníveis. É justamente sob essa aparente simplicidade, porém, que Bergman esconde um verdadeiro tratado sobre mortalidade, fé, silêncio divino, amor, egoísmo, medo e necessidade de atribuir algum sentido à existência.
A própria partida de xadrez entre Antonius Block e a Morte — uma das imagens mais memoráveis de toda a história do Cinema — poderia parecer, quando isolada de sua dimensão filosófica, uma extravagância fantástica, talvez até pueril. Nada poderia estar mais distante daquilo que Bergman está realizando.
O tabuleiro é a vida.
E jogar significa permanecer vivo.
Block não joga porque acredita verdadeiramente que possa derrotar a Morte. Joga porque deseja ganhar tempo. Cada movimento prolonga sua existência por alguns instantes e, consequentemente, adia aquilo que desde o princípio sabemos inevitável. A metáfora alcança, dessa maneira, algo de brutalmente universal: boa parte da existência humana consiste precisamente em tentar enganar a morte pelo maior tempo possível. Alimentamo-nos, protegemo-nos, procuramos médicos, construímos casas, evitamos perigos, criamos descendentes e buscamos deixar alguma coisa depois de nós. Mudam os métodos, mas permanece o desejo ancestral de prolongar a partida.
O problema é que, no jogo da vida, a Morte joga com uma vantagem absoluta.
Ela sempre vence.
Bergman, entretanto, acrescenta uma camada ainda mais sofisticada à alegoria. Block não deseja somente sobreviver. Ele precisa encontrar, antes de morrer, alguma coisa que justifique ter vivido. Regressa das Cruzadas espiritualmente devastado. Lutou por Deus, matou em nome de Deus e retorna incapaz de encontrar esse mesmo Deus no mundo que o cerca. Seu verdadeiro adversário, portanto, talvez nem seja a Morte, mas o silêncio.
A extraordinária fotografia em preto e branco de Gunnar Fischer transforma essa crise metafísica em matéria cinematográfica. Os contrastes violentos entre luz e sombra, a recorrência de céus ameaçadores, os rostos esculpidos pela iluminação e a disposição quase pictórica dos corpos dentro do quadro fazem com que numerosas composições pareçam gravuras medievais colocadas em movimento. Bergman e Fischer constroem imagens nas quais a transcendência parece permanentemente prestes a manifestar-se, mas jamais se revela de maneira inequívoca.
A própria Morte é exemplar. Bergman evita transformá-la em criatura monstruosa. O rosto branco, as vestes negras e a austeridade gestual de Bengt Ekerot produzem algo muito mais perturbador: uma entidade tranquila, educada e absolutamente inevitável. Ela não odeia Block, não deseja puni-lo e sequer demonstra especial prazer em conduzi-lo ao fim. Apenas exerce sua função.
É justamente essa ausência de sadismo que a torna assustadora.
A Morte não é má.
A Morte simplesmente é.
E a reconstrução da Suécia medieval potencializa extraordinariamente essa ideia. Bergman registra um território devastado pela peste negra, tomado pela decomposição dos corpos e, sobretudo, pela decomposição das certezas. Aldeias, penitentes, flagelantes, procissões religiosas, medo coletivo, cadáveres e superstições produzem um ambiente em que morrer deixou de constituir possibilidade futura para transformar-se em presença cotidiana.
Naturalmente, não se trata de uma reprodução documental da Suécia medieval. Bergman reorganiza aquele período segundo uma sensibilidade artística moderna. Sua Idade Média possui função simultaneamente histórica, plástica e alegórica. A peste que destrói os corpos funciona também como exteriorização da crise espiritual que destrói Block. O mundo ao seu redor parece apodrecer na mesma velocidade em que suas antigas certezas religiosas se desfazem.
Há ainda enorme precisão na maneira como Bergman trabalha o suspense. O espectador conhece antecipadamente o resultado. Não existe dúvida substancial sobre quem vencerá a partida. O suspense, portanto, não nasce da pergunta “a Morte vencerá?”, mas de outra, muito mais angustiante: quando ela vencerá?
Nesse aspecto, a música de Erik Nordgren possui importância fundamental. Seus acordes não se limitam a acompanhar a imagem; frequentemente anunciam, antecipam e tornam sensorial a proximidade do fim. A trilha estabelece uma tensão quase litúrgica, transformando a Morte numa presença que pode ser sentida mesmo quando não ocupa fisicamente o enquadramento. Bergman realiza, assim, algo particularmente difícil: cria suspense a partir de um desfecho conhecido.
Sabemos que todos morreremos.
Isso jamais tornou a proximidade da morte menos assustadora.
É admirável também que Bergman perceba o risco de transformar tamanha densidade metafísica em monotonia tonal. Por isso O Sétimo Selo frequentemente interrompe suas meditações sobre Deus, morte e existência para mergulhar em um humor terreno, farsesco e, por vezes, francamente bobo.
Algumas dessas passagens constituem um dos poucos elementos que envelheceram de maneira perceptível. Determinadas gags, especialmente aquelas relacionadas aos conflitos conjugais, sexuais e às personagens secundárias, podem parecer excessivamente teatrais ao espectador contemporâneo. Alguns diálogos filosóficos também verbalizam ideias que a própria mise-en-scène já havia comunicado com muito maior elegância, aproximando-se ocasionalmente de aforismos excessivamente evidentes diante da sofisticação visual do restante da obra.
Seria injusto, contudo, analisar esse humor ignorando seu contexto.
Aquilo que hoje pode soar datado encontrava correspondência muito mais natural nas convenções cômicas e teatrais assimiladas pelo público da época. Mais importante ainda: essas passagens cumprem uma função estrutural precisa. Bergman necessita oferecer respiração entre momentos de extraordinário peso psicológico. A comicidade impede que a solenidade transforme o filme em um exercício monocórdico e, simultaneamente, introduz uma ironia profundamente humana: mesmo enquanto a peste destrói o continente, as pessoas continuam bebendo, desejando, traindo, discutindo por ciúmes e comportando-se ridiculamente.
A humanidade permanece pateticamente humana mesmo diante do fim do mundo.
E talvez esteja justamente aí uma das ideias centrais de Bergman.
O cineasta aborda, ao longo da narrativa, uma quantidade extraordinária de questões existenciais: Deus existe? E o Diabo? O silêncio de Deus significa sua inexistência? Existe alguma finalidade no relacionamento amoroso entre homem e mulher ou apenas uma sucessão de desejos, dependências e frustrações? O conhecimento pode diminuir nosso medo da morte? A religião consola o homem ou amplifica seu terror? A ambição possui qualquer relevância diante da finitude?
Bergman formula perguntas incessantemente.
Respostas são outra questão.
É justamente por isso que Jof, Mia e seu pequeno filho assumem importância tão extraordinária.
Enquanto Antonius Block procura intelectualmente uma justificativa para continuar existindo, aquela pequena família simplesmente existe.
Eles não elaboram tratados metafísicos. Não exigem que Deus se manifeste. Não precisam compreender o mecanismo do universo. Amam-se, trabalham, representam, cuidam do filho, riem e dividem alimento.
A sequência dos morangos silvestres e do leite constitui, nesse sentido, o verdadeiro centro filosófico de O Sétimo Selo.
Bergman modifica discretamente toda a organização audiovisual da obra. O ritmo desacelera, a agressividade das composições diminui e a ameaça parece momentaneamente suspensa. Depois de tanta peste, flagelação, medo, fanatismo e discussão teológica, aquilo que mais se aproxima de uma manifestação do sagrado não é uma igreja, uma cruz ou uma aparição divina.
São morangos.
Um pouco de leite.
Uma família.
Alguns minutos de paz.
E Antonius Block percebe isso.
Ao dizer que conservará aquele momento em sua memória, o cavaleiro talvez esteja mais próximo de encontrar a resposta que procura do que em qualquer uma de suas discussões sobre Deus.
Block procura o sentido da vida.
Jof e Mia vivem esse sentido.
E essa distinção é fundamental.
É justamente nesse ponto que O Sétimo Selo permite uma aproximação particularmente fecunda com Søren Kierkegaard. Para o filósofo dinamarquês, a fé não nasce da demonstração objetiva capaz de eliminar toda incerteza; ao contrário, sua própria natureza pressupõe uma relação subjetiva com aquilo que não pode ser transformado em certeza racional absoluta. Se Deus pudesse ser demonstrado como se demonstra uma proposição matemática, a dimensão propriamente existencial da fé perderia grande parte de seu significado.
Antonius Block parece incapaz de aceitar essa condição.
Ele não deseja apenas acreditar em Deus.
Deseja saber que Deus existe.
Quer uma prova, uma manifestação, uma resposta objetiva que dissolva definitivamente sua angústia. Seu drama é, portanto, profundamente kierkegaardiano: quanto mais desesperadamente procura converter a transcendência em certeza racional, mais dolorosamente experimenta o silêncio que o separa dela.
Jof e Mia ocupam posição quase oposta.
A família de artistas não procura demonstrar Deus porque sua existência parece não depender dessa demonstração. Jof simplesmente vê. Vê a Virgem Maria caminhando com o Menino Jesus, percebe aquilo que os outros não percebem e aceita essas experiências sem submetê-las ao tribunal racional que atormenta Block. Mia, por sua vez, permanece ligada à concretude da vida: ao marido, ao filho, ao alimento, ao afeto e ao instante presente.
Não seria rigoroso afirmar que Bergman utiliza a família como demonstração da existência de Deus. Mais interessante é perceber que ela representa uma possibilidade kierkegaardiana de existir apesar da impossibilidade da demonstração.
Block exige que Deus justifique sua existência para que então possa justificar a própria.
Jof e Mia parecem inverter a equação.
Vivem, amam e creem — ainda que essa crença permaneça ambígua — sem exigir previamente que o universo lhes apresente suas credenciais.
É precisamente por isso que Jof, e não Block, recebe as visões.
O homem que exige uma prova encontra silêncio.
O homem que aceita a possibilidade da fé enxerga o transcendente.
Bergman jamais esclarece se aquilo que Jof contempla existe objetivamente, e essa ambiguidade é indispensável. Confirmar suas visões destruiria justamente a tensão filosófica que sustenta o filme. O espectador, assim como os personagens, permanece impossibilitado de converter fé em conhecimento.
Nesse sentido, a família não comprova Deus.
Ela demonstra que talvez seja possível viver sem exigir essa comprovação.
E essa distinção modifica profundamente a leitura do filme.
Talvez Bergman esteja sugerindo que a tragédia de Block não reside apenas na ausência de respostas, mas na própria insistência em acreditar que a vida somente poderá adquirir significado depois que essas respostas forem encontradas. A família de artistas opera segundo lógica inversa: a existência não precisa ser filosoficamente explicada antes de poder ser experimentada.
Amar alguém pode bastar.
Criar alguma coisa pode bastar.
Alimentar uma criança pode bastar.
Dividir morangos pode bastar.
Crer, talvez, também possa bastar.
Há uma deliciosa ironia no fato de Jof, justamente o artista, ser também aquele que consegue enxergar aquilo que permanece invisível aos demais. Ele vê a Virgem Maria, percebe a presença da Morte e antecipa acontecimentos. Bergman jamais estabelece definitivamente se essas visões são manifestações sobrenaturais ou produtos de sua imaginação. E talvez essa distinção sequer importe.
O artista vê.
É nesse momento que a partida de xadrez encontra sua resolução filosófica mais bela. Block compreende que não poderá vencer, mas percebe que ainda pode utilizar os movimentos restantes. Ao distrair a Morte e possibilitar a fuga de Jof, Mia e do filho, finalmente realiza algo concretamente significativo.
Não encontra Deus.
Não descobre o que existe depois da morte.
Não resolve o mistério da existência.
Não vence a partida.
Salva uma família.
E isso basta.
Existe aqui uma aproximação inevitável com Camus — e uma tensão fascinante entre Camus e Kierkegaard. Ambos partem, por caminhos radicalmente distintos, do homem confrontado com uma existência cuja verdade última não lhe é racionalmente acessível. Kierkegaard responde ao abismo mediante a fé; Camus recusa o salto transcendente e responde por meio da revolta, da consciência e da própria experiência de viver.
Bergman parece colocar ambas as possibilidades dentro do mesmo enquadramento sem conceder vitória definitiva a nenhuma delas.
Jof pode representar a possibilidade kierkegaardiana: viver e crer sem exigir que a fé seja transformada em prova.
Block aproxima-se da angústia do homem que não consegue realizar esse salto.
E, contudo, sua ação final encontra uma resposta que também poderia satisfazer Camus: diante de um universo que permanece silencioso, ainda é possível agir concretamente em favor de outro ser humano.
A inexistência de uma resposta absoluta não elimina necessariamente os sentidos particulares que construímos enquanto estamos vivos.
A sequência final da Dança da Morte condensa tudo isso numa das composições mais extraordinárias já produzidas pelo Cinema. Bergman reduz seus personagens a silhuetas sobre o horizonte, praticamente eliminando suas individualidades. Cavaleiro, escudeiro, ferreiro, mulher, rico ou pobre: diante da morte, todas as hierarquias desaparecem.
Todos pertencem à mesma coreografia.
Mas existe um detalhe extraordinário.
Jof observa a dança.
O artista permanece para vê-la.
E depois a transforma em narrativa.
Talvez aí esteja uma última provocação bergmaniana: a arte não derrota biologicamente a morte, mas possui a capacidade de registrar aquilo que ela destrói. Jof vê os mortos e conta aquilo que viu a Mia. Bergman vê Jof e conta aquilo que ele viu a nós. E nós, décadas depois, continuamos contemplando aquela dança.
É uma forma pequena, imperfeita e extraordinariamente humana de desafiar a Morte uma vez mais.
Por tudo isso, O Sétimo Selo ultrapassa em muito a celebridade de sua partida de xadrez. Bergman utiliza uma Suécia medieval devastada pela peste para formular uma das questões mais antigas da humanidade: como viver sabendo que morreremos e sem possuir garantia alguma de que existe uma resposta para nossa existência?
Sua conclusão não vem exclusivamente das Cruzadas.
Não vem exclusivamente da Igreja.
Não vem exclusivamente da filosofia.
Talvez nem sequer venha exclusivamente de Deus.
Vem de uma criança dormindo, de dois artistas que se amam, de alguns morangos acompanhados por leite e de um homem que, sabendo que perderá inevitavelmente sua partida, decide utilizar os últimos movimentos para que outras pessoas possam continuar jogando.
Talvez Bergman jamais encontre o sentido universal da vida em O Sétimo Selo.
Talvez sua grandeza esteja precisamente em perceber que não precisava encontrá-lo.
Kierkegaard oferece a possibilidade da fé diante da incerteza. Camus, a possibilidade de viver apesar dela. Bergman parece posicionar-se no espaço angustiante existente entre ambos e perguntar se, no final das contas, essas respostas precisam realmente excluir uma à outra.
Se a Morte inevitavelmente dará o xeque-mate, resta decidir o que faremos com as peças enquanto a partida ainda estiver em andamento.
Antonius Block perde para a Morte.
Mas, finalmente, encontra uma razão para ter jogado.