Crítica Técnica: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Chloé Zhao, 2025)
por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★☆ (4/5)
Aqueles que se dedicam a escrever sobre Cinema, via de regra, concentram-se na obra analisada em si, mas raramente se detêm sobre o propósito maior da Arte.
Afinal, a que se propõe o Cinema? A que deveria se propor? Existe, de fato, um propósito a ser seguido? Ou a Arte deve simplesmente existir, livre de qualquer amarra conceitual?
Este que vos escreve tenderia a afirmar que o Cinema deve, antes de tudo, funcionar como um registro fiel de sua época e de seus costumes. Outros, contudo, defenderão que sua função primordial reside na transmissão de uma mensagem específica, ou no aprofundamento psicológico de seus personagens, ou ainda no desenvolvimento minucioso de uma narrativa complexa e autocontida. Há, igualmente, quem sustente que o Cinema deva limitar-se ao entretenimento puro e simples — distração legítima e, diga-se, não menos nobre. Poucos, entretanto, retornam ao berço do teatro na Grécia Antiga, onde Comédia e Tragédia tinham como objetivo central provocar, da forma mais intensa possível, uma emoção específica em seus espectadores.
É justamente sob este último prisma que o Cinema alcançado por Chloé Zhao em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet cumpre o seu propósito com uma maestria digna de aplausos em pé.
Infelizmente, o subtítulo nacional — A Vida Antes de Hamlet — pode induzir o espectador desavisado (como este que vos escreve) a acreditar que se trata de uma prequela direta da célebre tragédia shakespeariana imortalizada pela sentença “Ser ou não ser? Eis a questão.” Ledo engano.
Uma leitura prévia da sinopse — hábito que o autor deste texto raramente adota, preferindo degustar as obras sem expectativas prévias — esclarece que o longa se propõe a uma biografia livremente inspirada na vida de William Shakespeare, sem qualquer compromisso absoluto com a fidelidade histórica.
E a expressão “livremente inspirada” não poderia ser mais adequada. Apesar de Shakespeare figurar, sem exagero, entre as personalidades mais influentes da história da humanidade, pouco se sabe de forma concreta sobre sua vida pessoal. Não por acaso, surgiram teorias — hoje desacreditadas — que questionavam sua própria existência, sugerindo tratar-se de um pseudônimo coletivo, à maneira do mito arturiano.
Pesquisas mais recentes, entretanto, comprovam que Shakespeare de fato existiu. Há registros cartoriais, documentos matrimoniais que atestam sua união com Anne Hathaway (citada como Agnes no testamento de seu pai, detalhe corretamente incorporado pelo filme) e o nascimento de seus três filhos — entre eles, Hamnet, cujo destino trágico é historicamente confirmado. O que se segue a esse evento, contudo, é fruto da imaginação sensível de Maggie O’Farrell, autora do romance que inspira o longa.
Narrativamente, Hamnet inicia-se como um típico — e bastante agradável — romance de época. Um artesão de um vilarejo conhece uma jovem do campo, rotulada como “bruxa” pela comunidade. Surge o interesse romântico; ela, mais conectada à natureza do que às convenções sociais, inicialmente o repele. Ele insiste, o público antecipa a rendição inevitável, a família demonstra preconceito, o tempo apazigua os conflitos. Casamento, filhos, estabilidade. Temos, assim, um primeiro ato previsível, ainda que conduzido com notável delicadeza.
A Direção de Arte é simplesmente irrepreensível ao recriar com precisão rara os ambientes da Dinastia Tudor, compondo cenários de uma verossimilhança pouco comum mesmo entre produções de grande orçamento. A Fotografia, por sua vez, dialoga intimamente com os estados emocionais da narrativa: nos momentos de felicidade familiar, a luz natural e os tons quentes predominam; após o evento trágico que marca a virada dramática da obra, o trabalho de Łukasz Żal mergulha em paletas dessaturadas, sombras densas e interiores opressivos.
Na direção, Chloé Zhao captura com absoluta precisão a essência do material. Se o roteiro — assinado por ela própria em parceria com O’Farrell — apresenta certa previsibilidade em seus momentos iniciais, a cineasta compensa com sua já conhecida sensibilidade ao enquadrar a natureza como extensão emocional dos personagens, permitindo que os conflitos se desenvolvam de maneira orgânica, tal como já havia feito no belíssimo Nomadland.
É, contudo, após a grande reviravolta do roteiro que Zhao demonstra sua plena maturidade autoral. Os planos abertos cedem espaço a enquadramentos fechados, intimistas, quase claustrofóbicos, como se a câmera invadisse a vida dos personagens e obrigasse o espectador a compartilhar, de forma visceral, sua dor.
E é justamente nesse terreno emocional que Hamnet encontra sua maior força: a atuação absolutamente soberba de Jessie Buckley. Ainda que relativamente recente no imaginário do grande público, a atriz irlandesa já acumula reconhecimento expressivo, incluindo uma vitória no Globo de Ouro em 2026 — prêmio mais do que merecido por este trabalho. Pouquíssimas vezes na história do Cinema uma intérprete conseguiu traduzir com tamanha verossimilhança o luto em sua forma mais crua e devastadora.
Buckley transita com impressionante naturalidade entre a histeria e o esvaziamento emocional, alternando explosões de dor com uma rouquidão quase sufocada que comunica impotência absoluta. Sua transformação de mãe plena de expectativas para uma figura abatida e desiludida é uma verdadeira aula de atuação. Ainda que o autor desta crítica não tenha conferido o desempenho de todas as concorrentes ao Oscar, é seguro afirmar que uma eventual vitória de Buckley seria plenamente justa.
No restante do elenco, Paul Mescal demora a convencer, apresentando certa rigidez nos primeiros atos. Contudo, após o ponto de virada, o ator encontra o tom adequado para seu William Shakespeare, incorporando a dramaticidade esperada. Emily Watson entrega uma performance sólida e carismática, suavizando com sua experiência um papel que poderia facilmente resvalar na caricatura. O destaque adicional, porém, fica para os irmãos Noah e Jacobi Jupe. O primeiro emociona ao interpretar essencialmente o segundo, enquanto o mais jovem, com apenas 12 anos, surpreende pela maturidade e consistência de sua atuação.
Como se toda essa carga emocional já não fosse suficiente para levar o espectador às lágrimas, a trilha sonora — merecidamente indicada ao Oscar — atua como elemento catalisador, conduzindo o público pela mão e aprofundando ainda mais o impacto sentimental da narrativa.
E, afinal, a que propósito serve o Cinema? Não há resposta definitiva. Mas, se depender de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, ele serve para emocionar. E nisso, apesar de pequenos percalços, a obra é absolutamente bem-sucedida.



