Crítica Técnica: O Diabo Veste Prada (David Frankel, 2006), por Daniel Esteves de Barros
Por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★☆☆ (3/5)

Sob uma análise que transcende a superfície diegética e adentra o campo da filosofia aplicada à linguagem cinematográfica, O Diabo Veste Prada se apresenta como uma obra que instrumentaliza o universo da moda não como fim, mas como meio — um pano de fundo simbólico para a investigação da natureza humana enquanto ente essencialmente emocional, e não racional.
A premissa inicial — a moda enquanto manifestação fútil — é imediatamente tensionada por uma leitura quase nietzschiana da realidade. A noção de que o “parecer” sobrepõe-se ao “ser” ecoa não apenas no comportamento social contemporâneo, mas encontra paralelos diretos na própria natureza, em consonância com observações etológicas. Tal construção dialoga implicitamente com o pensamento de Friedrich Nietzsche, sobretudo em sua crítica à racionalização excessiva da existência, frequentemente associada à tradição socrática de Sócrates.
Nesse sentido, o filme articula-se como um estudo de personagens, e não como uma obra sobre moda per se. A estrutura narrativa privilegia a construção psicológica de Andrea Sachs (Anne Hathaway), configurando-a como uma personagem esférica — conceito clássico da teoria literária — cuja trajetória revela um arco de transformação, regressão e ressignificação identitária. Em contraposição, personagens como Emily (Emily Blunt) operam dentro de uma lógica mais linear, ainda que com nuances de densidade dramática.
Do ponto de vista formal, o longa se destaca particularmente pela montagem. A sequência inicial evidencia uma montagem sintática de forte influência do cinema soviético, especialmente do efeito Kuleshov, ao estabelecer relações de sentido por meio de cortes rápidos e associações visuais paralelas. A alternância entre personagens em contextos distintos — a sofisticação da alta-costura versus a simplicidade cotidiana — constrói, por justaposição, uma antecipação narrativa eficiente e uma imersão imediata no universo ficcional.
A direção, entretanto, revela-se convencional. Falta-lhe ousadia autoral no emprego de recursos de linguagem mais expressivos. A ausência de planos plongée ou contra-plongée mais elaborados impede que a mise-en-scène explore com maior potência a opressão espacial da cidade sobre a protagonista — recurso que cineastas como Terrence Malickexploram magistralmente em A Árvore da Vida. Tal limitação evidencia uma abordagem excessivamente hollywoodiana, pouco inclinada à experimentação estética.
No campo das atuações, o elenco apresenta elevada coesão. Anne Hathaway, ainda em fase inicial de carreira, constrói uma personagem marcada por ingenuidade vocal e expressiva, coerente com sua origem diegética. Embora se perceba uma lacuna na transição tonal que deveria acompanhar sua evolução narrativa, sua performance sustenta o eixo emocional da obra.
Emily Blunt, por sua vez, transita habilmente entre a caricatura e a verossimilhança, imprimindo à sua personagem uma tensão constante entre sarcasmo e insegurança. Já Stanley Tucci oferece uma atuação precisa, livre de estereótipos fáceis, sustentada por presença cênica e controle gestual.
Entretanto, é Meryl Streep quem eleva o filme a outro patamar. Sua Miranda Priestly poderia facilmente sucumbir à caricatura, dado o roteiro, mas Streep subverte essa expectativa ao construir uma persona marcada por contenção, elegância e frieza calculada. Sua voz aveludada contrasta com a rigidez de suas ações, criando uma dissonância performática que complexifica a personagem. Trata-se de um exemplo clássico de como um intérprete experiente transcende limitações textuais — à semelhança do que Johnny Depp realizou ao transformar Jack Sparrow em ícone cultural.
No plano temático, o filme propõe uma reflexão contundente sobre determinismo social. A trajetória de Andrea não é apresentada como fruto de escolha livre, mas como consequência de um sistema que impõe padrões de sobrevivência — uma leitura que dialoga com estruturas capitalistas e com a própria lógica da natureza. A analogia entre o comportamento humano e o comportamento animal reforça a tese central: a crueldade não é opcional, mas estrutural.
Contudo, essa construção filosófica é parcialmente comprometida pelo desfecho. Ao recorrer a um final conciliatório, tipicamente hollywoodiano, a obra abdica de sua potência crítica em favor de um fechamento emocionalmente confortável. O gesto final da protagonista, ainda que simbolicamente significativo, dilui a densidade teórica previamente estabelecida, resultando em uma resolução que privilegia o apelo comercial em detrimento da coerência temática.
Em síntese, O Diabo Veste Prada é uma obra que oscila entre profundidade e convenção. Seu valor reside na construção de personagens e na atuação magistral de Meryl Streep, bem como em sua montagem eficiente. Contudo, sua direção conservadora e seu desfecho complacente impedem que alcance um estatuto mais elevado dentro da crítica cinematográfica.

