Crítica Técnica – Sonhos de Trem (Clint Bentley, 2026), por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★☆ (4/5)

A temporada pré-Oscar raramente se justifica pelo caráter meritocrático da premiação — historicamente atravessada por dinâmicas institucionais e políticas internas da indústria — mas frequentemente funciona como dispositivo de visibilidade. É nesse contexto que Sonhos de Trem emerge: um filme que, não fosse sua indicação à categoria principal, provavelmente teria sido absorvido pelo silêncio do circuito independente.
E seria uma perda considerável.
Estrutura Narrativa e Problemas de Mediação Dramática
Sonhos de Trem se constrói, em sua primeira metade, como um drama contemplativo de baixa fricção dramática. A ausência inicial de antagonismo é deliberada: Bentley aposta na observação do cotidiano, no registro do labor físico e da vida conjugal como motores dramáticos mínimos. O problema não reside na contenção, mas na supermediação.
A narração em off — extradiegética e nunca incorporada organicamente ao universo ficcional — opera como um mecanismo explicativo excessivo. Funciona menos como recurso estilístico e mais como prótese narrativa. Ao verbalizar estados emocionais que poderiam ser inferidos pela mise-en-scène, a obra demonstra certa desconfiança na inteligência do espectador. O resultado é uma artificialidade que compromete a imersão.
Ainda assim, o filme se reorganiza estruturalmente a partir de um ponto de inflexão na segunda metade. O “plot twist” não é apenas um evento narrativo: ele reconfigura o regime estético da obra. A dramaticidade se intensifica, a performance ganha densidade psicológica e a linguagem visual se adensa. Diferentemente de obras que perdem coesão após sua virada tonal, aqui a guinada fortalece o projeto dramático.
Direção e Poética Visual
A direção de Clint Bentley é marcada por discrição formal e rigor simbólico. A obra opera sob um princípio central: a relação ontológica entre homem e natureza.
Desde o plano de abertura — um contra-plongée que monumentaliza as árvores — a mise-en-scène estabelece uma hierarquia visual: a natureza como entidade soberana. A recorrência de enquadramentos verticais enfatiza a escala e a opressão simbólica da paisagem. Quando Bentley inverte para plongées, especialmente em momentos de impacto físico (como a queda do galho), a imagem traduz a violência impessoal da natureza sobre o corpo humano.
O desenho de som é fundamental nessa construção. Sons ambientes — vento, estalos de madeira, o atrito da serra — compõem uma textura sonora que reforça a permanência do ambiente frente à efemeridade humana. O homem trabalha; a natureza permanece.
Fotografia e Regime Cromático
A fotografia de Adolpho Veloso (diretor de fotografia brasileiro frequentemente associado a uma paleta naturalista) estabelece dois regimes cromáticos distintos:
Primeira metade: tons quentes e luz difusa, predominância de verdes e dourados suaves.
Segunda metade: desaturação progressiva, aproximação de tons pastéis frios, sombras mais densas.
A transição cromática acompanha o amadurecimento — ou desgaste — existencial do protagonista. O uso de luz natural reforça o realismo histórico, enquanto a composição espacial frequentemente coloca o personagem em segundo plano diante da paisagem, visualmente reiterando sua insignificância ontológica.
Performance e Construção de Personagem
O centro gravitacional da obra é Joel Edgerton.
Sua atuação é minimalista, construída sobre economia gestual e contenção verbal — coerente com a origem social do personagem. Na primeira metade, a interpretação é quase hermética; após a virada dramática, Edgerton amplia sua expressividade sem abandonar o registro contido. O envelhecimento físico, auxiliado por maquiagem sutil e progressiva, nunca se sobrepõe à construção psicológica.
O arco interpretativo é interno. O sofrimento não explode; sedimenta.
O restante do elenco cumpre função estrutural, orbitando o protagonista como vetores de deslocamento emocional. Não competem com Edgerton — e essa assimetria parece deliberada.
Filosofia Implícita e Eixo Temático
O roteiro — assinado por Bentley e Greg Kwedar — estrutura-se como um estudo sobre permanência e transitoriedade. A narrativa inscreve o indivíduo numa escala temporal que o excede.
A ideia central é clara: o ser humano é contingente; a natureza, estrutural. Incêndios devastam, mas o campo floresce novamente. O homem constrói, a natureza reabsorve. A obra sugere que o único legado possível não é material, mas afetivo.
Há uma dimensão existencial que dialoga com certa tradição filosófica: a vida não como problema a ser resolvido, mas como experiência a ser sentida. O filme abandona qualquer teleologia grandiosa. O sentido reside no gesto mínimo — no toque, na memória, no instante compartilhado.
Considerações Finais
Sonhos de Trem não é um filme perfeito. A narração em off compromete sua confiança estética inicial. A primeira metade flerta com a excessiva placidez dramática.
Mas sua segunda metade reorganiza a obra com força simbólica e maturidade formal. A direção é consistente, a fotografia é expressiva e a performance central sustenta o peso emocional da narrativa.
Se o Oscar raramente representa justiça artística, ao menos aqui funcionou como farol. Sem a indicação, talvez essa obra permanecesse invisível.
E isso teria sido injusto.



