Crítica Técnica: Star Wars: Episódio VIII: Os Últimos Jedi (Rian Johnson, 2017) — A subversão como linguagem, a desconstrução do mito e a coragem de contrariar o próprio legado, por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★☆
Há uma contradição particularmente fascinante na maneira como o público contemporâneo se relaciona com o Cinema: exige-se incessantemente a novidade, desde que ela não comprometa aquilo que já se conhece. Deseja-se a surpresa, contanto que o resultado corresponda às expectativas. Celebra-se a originalidade, mas condena-se o realizador que ousa alterar os contornos de um mito afetivamente consolidado.
É justamente nessa contradição que se encontra o extraordinário mérito de Star Wars: Episódio VIII — Os Últimos Jedi, produção de 2017 escrita e dirigida por Rian Johnson.
Se uma palavra pudesse sintetizar a experiência cinematográfica proposta pelo realizador, ela seria subversão.
Não a subversão gratuita, reduzida ao mero expediente de contrariar expectativas, tampouco aquela que confunde transgressão com qualidade artística. Trata-se, antes, de uma subversão cuja finalidade consiste em interrogar a própria natureza de uma mitologia cinematográfica que, após quatro décadas, parecia aprisionada pelas convenções responsáveis por sua consagração.
Afinal, o que significa preservar a identidade de uma obra? Reproduzir indefinidamente suas formas reconhecíveis ou recuperar o impulso criativo que originalmente permitiu sua existência?
Essa é, provavelmente, a pergunta fundamental de Os Últimos Jedi.
E a resposta de Johnson, para o desespero de parcela considerável de seu público, é tão desconcertante quanto artisticamente pertinente: a fidelidade ao espírito de Star Wars talvez exija a coragem de contrariar aquilo que se convencionou chamar de Star Wars.
I. A nostalgia como prisão estética
Quando George Lucas lançou Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança, em 1977, sua contribuição ao Cinema não se limitou à sofisticação dos efeitos visuais ou à recuperação dos antigos seriados de aventura.
Sua verdadeira realização consistiu em reorganizar elementos familiares — o faroeste de Sergio Leone, os filmes de samurais à la Akira Kurosawa, as aventuras de capa e espada protagonizadas por Errol Flynn, a ficção científica pós-moderna, claramente inspirada em Duna e Flash Gordon, e os arquétipos mitológicos fantásticos de O Senhor dos Anéis — dentro de uma linguagem cinematográfica capaz de conferir-lhes uma vitalidade singular.
Lucas não inventou os componentes fundamentais de sua narrativa. Reinventou a maneira de articulá-los.
A princesa não precisava permanecer indefesa; o herói não precisava demonstrar absoluta segurança; o aventureiro aparentemente egoísta poderia revelar uma dignidade moral superior àquela de personagens ostensivamente virtuosos.
A própria estrutura do espetáculo hollywoodiano encontrava, assim, uma nova configuração.
Convém recordar que a História da Arte jamais se desenvolveu exclusivamente pela repetição obediente de seus modelos. O romantismo musical não teria adquirido suas características particulares sem o questionamento de convenções anteriores; o rock and roll não poderia ser compreendido sem as profundas transformações culturais e musicais que acompanharam a reelaboração do blues, do rhythm and blues e de outras tradições.
A subversão, evidentemente, não constitui um valor artístico em si. Uma ruptura pode produzir tanto uma obra extraordinária quanto um exercício pretensioso de esterilidade criativa.
Mas existe algo que a repetição, por mais tecnicamente competente que seja, dificilmente consegue oferecer: a possibilidade de transformar nossa percepção sobre aquilo que julgávamos conhecer.
É precisamente nesse ponto que Os Últimos Jedi se distancia de seu antecessor.
O Despertar da Força, dirigido por J. J. Abrams, é uma aventura envolvente, eficiente e frequentemente encantadora. Seus personagens conquistam simpatia, seu ritmo demonstra considerável domínio dos mecanismos narrativos hollywoodianos e sua capacidade de despertar a memória afetiva do espectador é inquestionável.
Entretanto, sua principal fragilidade encontra-se justamente nessa dependência da memória.
Abrams constrói um filme que parece constantemente solicitar reconhecimento. Seus acontecimentos, conflitos e resoluções remetem a estruturas já experimentadas pela própria franquia, como se a legitimidade da nova trilogia dependesse da reprodução de um passado glorioso.
A nostalgia deixa de ser uma dimensão afetiva da experiência cinematográfica e transforma-se em princípio organizador da narrativa.
Johnson, por sua vez, compreende algo fundamental: um mito que somente consegue sobreviver pela repetição de si mesmo já começou a perder sua vitalidade.
Assim, enquanto Abrams procura reconduzir o espectador ao conforto daquilo que conhece, Johnson o obriga a confrontar a possibilidade de que suas lembranças não correspondam à verdadeira natureza dos personagens que aprendeu a venerar.
A diferença não é pequena.
É a distância que separa a celebração de uma mitologia de sua investigação crítica.
II. O Império Contra-Ataca e a tradição da ruptura
Não deixa de ser curioso que O Império Contra-Ataca, lançado em 1980 e frequentemente considerado o ponto culminante da saga, seja justamente a produção que melhor demonstra a disposição de Star Wars para contrariar as expectativas de seu público.
Se Uma Nova Esperança estabeleceu um universo mitológico reconhecível, seu sucessor tratou de perturbar as certezas que pareciam sustentá-lo.
Sob a direção de Irvin Kershner, o heroísmo tornou-se menos confortável, as relações familiares adquiriram dimensões inesperadas e a divisão aparentemente transparente entre bem e mal começou a revelar conflitos interiores mais complexos.
A aventura continuava presente, evidentemente. Mas já não era suficiente para explicar a experiência oferecida pelo filme.
O espetáculo passou a conviver com a incerteza.
A tradição da jornada heroica, organizada em torno da evolução progressiva de seu protagonista, tornou-se vulnerável à possibilidade do fracasso, da incompletude e da contradição.
Eis a grandeza de O Império Contra-Ataca: sua disposição para compreender que uma continuação cinematográfica não precisa simplesmente ampliar os acontecimentos anteriores. Pode, sobretudo, modificar retrospectivamente nossa compreensão deles.
É essa herança que Johnson parece interessado em recuperar.
Não por meio da reprodução mecânica de reviravoltas, mas pela assimilação de seu princípio dramático: o desenvolvimento narrativo como instrumento de transformação das expectativas.
Nesse sentido, Os Últimos Jedi aproxima-se muito mais da inquietação criativa de O Império Contra-Ataca do que do exercício nostálgico proposto por O Despertar da Força.
O cineasta compreende que a verdadeira continuidade artística não reside necessariamente na preservação da aparência, mas na permanência de uma disposição para experimentar.
Ser fiel a uma tradição também pode significar recusá-la.
III. Luke Skywalker e a destruição do herói idealizado
É na reconstrução de Luke Skywalker que essa concepção alcança sua expressão mais provocativa.
Durante décadas, o personagem interpretado por Mark Hamill foi convertido em uma espécie de monumento moral. O jovem inseguro da trilogia original, cujas virtudes conviviam com impulsividade, medo e precipitação, transformou-se, no imaginário de muitos espectadores, em um mestre infalível, plenamente reconciliado com sua própria trajetória.
Johnson recusa essa idealização.
Seu Luke não é uma versão rejuvenescida de Yoda. Tampouco representa a realização definitiva do arquétipo do sábio que, após superar todos os conflitos interiores, encontra-se apto a transmitir verdades incontestáveis às gerações seguintes.
É um homem.
E, como tal, permanece vulnerável às contradições que o constituíram.
Essa escolha não apenas confere extraordinária humanidade ao personagem, como também encontra fundamento em sua própria trajetória cinematográfica.
O Luke de O Império Contra-Ataca jamais foi inteiramente disciplinado. Sua impaciência, suas decisões precipitadas e sua dificuldade em aceitar os limites impostos pelo treinamento sempre fizeram parte de sua personalidade.
Por que, então, pressupor que o envelhecimento eliminaria automaticamente essas características?
A passagem do tempo não transforma necessariamente um indivíduo em uma versão moralmente aperfeiçoada de si mesmo. Em determinadas circunstâncias, pode apenas aprofundar suas inseguranças, conferir maior gravidade aos seus arrependimentos e tornar insuportável o peso das próprias escolhas.
Johnson parece compreender essa dimensão existencial com uma clareza pouco habitual em produções dessa natureza.
Seu Luke não foi concebido para satisfazer a imagem idealizada que o público construiu dele, mas para questionar essa imagem.
É aqui que a mise-en-scène assume papel decisivo.
A figura do antigo herói, agora circunscrita a uma paisagem de pedras, precipícios e horizontes oceânicos, encontra-se visualmente reduzida diante da imensidão do espaço natural.
O isolamento geográfico traduz um isolamento espiritual.
A composição dos enquadramentos frequentemente confronta o corpo humano com a monumentalidade da paisagem, sugerindo que a grandeza do mito não elimina a pequenez existencial daquele que o encarna.
Nas tomadas mais intimistas, a luz e as sombras sobre o rosto de Hamill tornam visível uma tensão moral que dispensaria explicações demasiadamente literais.
O personagem deixa de ser a representação abstrata de uma virtude e passa a existir como presença física, contraditória e dolorosamente humana.
A desconstrução do herói, portanto, não corresponde à sua destruição.
Ao contrário: é justamente quando Luke deixa de representar uma ideia de perfeição que recupera sua dimensão trágica.
E talvez nunca tenha sido tão interessante.
IV. A Força, a moralidade e a impossibilidade das certezas absolutas
Existe uma dimensão filosófica particularmente relevante nessa reconstrução dos arquétipos.
Embora a mitologia de Star Wars estabeleça uma distinção entre o lado luminoso e o lado sombrio da Força, seus personagens mais interessantes raramente conseguem ser compreendidos mediante classificações morais absolutamente rígidas.
Não se trata de afirmar que a narrativa abandone a distinção entre bem e mal, muito menos que todas as escolhas éticas possuam o mesmo valor.
Trata-se de reconhecer que a existência humana — mesmo naquela galáxia muito, muito distante — não se deixa reduzir facilmente a uma oposição entre indivíduos essencialmente virtuosos e indivíduos definitivamente corrompidos.
Rey sente a atração daquilo que teme.
Kylo Ren permanece dividido entre suas convicções declaradas e os vínculos afetivos que procura suprimir.
Poe Dameron demonstra coragem e iniciativa, mas sua confiança excessiva também pode converter-se em imprudência.
Luke, por sua vez, descobre que a experiência não elimina a possibilidade do erro.
O conflito, portanto, desloca-se progressivamente do campo exterior para o interior das personagens.
É menos uma questão de identificar quem representa o bem e quem representa o mal do que compreender de que maneira indivíduos contraditórios respondem às circunstâncias que os desafiam.
Há algo de profundamente nietzschiano nessa recusa da virtude entendida como atributo permanente, ainda que a narrativa continue preservando fundamentos morais que não se confundem integralmente com a filosofia de Nietzsche.
O que Johnson coloca em discussão é a fragilidade das identidades construídas a partir de valores considerados definitivos.
A sabedoria não impede o medo. A bravura não elimina a arrogância. O sofrimento não conduz necessariamente à virtude. E a convicção moral não assegura, por si só, a correção de uma decisão.
A grandeza de Os Últimos Jedi reside em transformar essas ambiguidades em matéria dramática.
A Força continua sendo um elemento espiritual fundamental do universo criado por Lucas. Entretanto, sua relação com os personagens não autoriza uma interpretação simplista de suas experiências.
A luz e a escuridão permanecem como possibilidades distintas, mas os indivíduos que precisam escolher entre elas estão longe de constituir entidades moralmente transparentes.
E é precisamente nessa tensão que o filme encontra parte considerável de sua força narrativa.
V. A imagem como pensamento: Rian Johnson e a mise-en-scène
Seria insuficiente, contudo, elogiar Os Últimos Jedi exclusivamente por suas escolhas narrativas.
Cinema não é apenas aquilo que se conta, mas, fundamentalmente, aquilo que se constrói por meio das imagens.
Uma obra cinematográfica não alcança grandeza simplesmente porque apresenta personagens complexos ou acontecimentos surpreendentes. Sua verdadeira identidade artística depende da maneira como enquadramentos, movimentos de câmera, iluminação, montagem, duração e organização espacial transformam essas ideias em experiências sensíveis.
É nesse aspecto que o trabalho de Rian Johnson adquire relevância.
O realizador demonstra considerável domínio da composição visual, alternando a monumentalidade dos planos gerais com a intimidade de enquadramentos que conferem importância dramática aos menores gestos.
Nas sequências envolvendo Luke e Rey, a paisagem não funciona apenas como cenário exótico.
A ilha de Ahch-To, construída cinematograficamente a partir de locações irlandesas, especialmente Skellig Michael, apresenta uma dimensão simultaneamente primitiva e sagrada.
Suas rochas, escadarias e construções austeras sugerem uma espiritualidade anterior à sofisticação tecnológica que caracteriza grande parte da franquia.
O espaço natural adquire, assim, uma função simbólica.
A ancestralidade da tradição Jedi parece impressa na própria materialidade da paisagem, estabelecendo uma relação entre o nascimento dos mitos e sua permanência na memória coletiva.
Em contrapartida, os ambientes associados à Primeira Ordem são frequentemente organizados por geometrias rígidas, linhas imponentes e contrastes cromáticos intensos.
A arquitetura passa a expressar uma concepção de poder.
Os personagens encontram-se inseridos em espaços que, antes mesmo de qualquer diálogo, comunicam hierarquia, opressão ou vulnerabilidade.
Essa articulação entre dramaturgia e organização visual demonstra que Johnson não se limita a ilustrar o roteiro.
Ele procura pensar cinematograficamente seus conflitos.
A fotografia de Steve Yedlin reforça essa intenção mediante uma concepção cromática que explora o antagonismo entre tonalidades frias, superfícies escuras e vermelhos intensos.
O resultado alcança particular expressividade no planeta Crait.
Inspirado visualmente pelo Salar de Uyuni, na Bolívia, o cenário apresenta uma superfície branca sob a qual repousa uma camada de mineral avermelhado.
Conforme as máquinas de guerra avançam, o branco é violentamente interrompido pelo vermelho.
A imagem adquire uma dimensão quase pictórica.
Não se trata apenas de um efeito visual destinado a conferir espetáculo à batalha, mas de uma composição que aproxima a violência militar da ideia de uma paisagem ferida.
O planeta parece sangrar.
É um daqueles momentos em que a direção de arte, a fotografia e a organização do movimento convergem para produzir uma imagem cujo significado ultrapassa sua função narrativa imediata.
A guerra deixa de constituir somente uma sucessão de acontecimentos e transforma-se em experiência plástica.
Eis o que distingue uma imagem simplesmente espetacular de uma imagem cinematograficamente expressiva.
Também merece destaque a concepção das criaturas, em particular as raposas cristalinas de Crait, cuja aparência encontra uma correspondência visual orgânica com o ambiente que habitam.
Os efeitos visuais, embora não representem uma revolução tecnológica comparável àquela promovida pelo filme original, encontram-se integrados a um universo de notável coerência estética.
O verdadeiro mérito do espetáculo, contudo, não reside na capacidade de exibir aquilo que a tecnologia permite realizar, mas em conferir sentido às possibilidades que ela oferece.
VI. A montagem, o ritmo e os limites da subversão
Naturalmente, reconhecer as virtudes de Os Últimos Jedi não significa ignorar suas fragilidades.
O núcleo narrativo envolvendo Finn, Rose e BB-8 constitui o exemplo mais evidente de um desequilíbrio estrutural.
Embora apresente ideias interessantes, especialmente no que se refere às relações entre exploração econômica, neutralidade política e indústria da guerra, esse segmento nem sempre alcança a mesma intensidade dramática dos conflitos envolvendo Rey, Luke e Kylo Ren.
Há, inclusive, uma ironia nessa escolha.
Johnson, tão interessado em questionar convenções narrativas, desenvolve nesse arco uma estrutura de aventura relativamente convencional, marcada por deslocamentos sucessivos, obstáculos episódicos e momentos de comicidade que nem sempre correspondem à densidade temática do restante da produção.
A longa passagem por Canto Bight, embora visualmente exuberante e conceitualmente pertinente, acaba produzindo uma diluição temporária da tensão.
A montagem de Bob Ducsay procura estabelecer conexões rítmicas entre os diferentes núcleos, mas não consegue eliminar completamente a sensação de que determinadas passagens poderiam ser condensadas.
Em uma obra construída sobre conflitos de grande intensidade psicológica, essa dispersão torna-se especialmente perceptível.
Não é uma falha desprezível.
Entretanto, tampouco compromete o conjunto.
O importante é perceber que a duração excessiva de um segmento narrativo não invalida a inteligência formal e dramática de toda a produção.
A montagem, no restante do filme, demonstra notável competência ao organizar a alternância entre momentos contemplativos e situações de urgência.
Johnson compreende que a tensão cinematográfica não depende exclusivamente do movimento.
Em determinadas circunstâncias, um silêncio, uma hesitação ou uma composição estática podem produzir consequências dramáticas superiores às de uma sequência inteiramente dedicada à ação.
É justamente essa capacidade de reconhecer o valor expressivo da pausa que distingue sua direção de uma abordagem puramente funcional do espetáculo.
VII. A interpretação como extensão da forma
A subversão proposta pelo roteiro encontra correspondência particularmente feliz no trabalho dos intérpretes.
Mark Hamill oferece uma de suas atuações mais interessantes como Luke Skywalker, beneficiado por um personagem que finalmente lhe permite explorar uma variedade de registros dramáticos pouco presentes na caracterização original.
Seu Luke abandona a retidão quase permanente do herói juvenil e adquire uma expressividade marcada pelo cansaço, pela ironia, pela frustração e pela melancolia.
Não é necessário concordar com todas as escolhas do personagem para reconhecer a riqueza de sua construção.
Adam Driver, por sua vez, confirma a excepcional pertinência de sua escalação.
Seu Kylo Ren não possui a monumentalidade imperturbável de Darth Vader, tampouco pretende reproduzi-la.
A força de sua interpretação encontra-se justamente na instabilidade.
O olhar carregado de ressentimento contrasta com uma voz frequentemente contida, quase delicada, revelando a dificuldade do personagem em conciliar sua agressividade com a vulnerabilidade que procura ocultar.
Driver interpreta menos um vilão plenamente constituído do que um indivíduo empenhado em convencer a si próprio de que efetivamente se tornou um.
Daisy Ridley apresenta uma Rey mais orgânica, cuja determinação convive com a insegurança diante da descoberta de sua própria identidade.
Oscar Isaac, beneficiado por maior relevância dramática, imprime energia e impulsividade a Poe Dameron, afastando-o da condição de simples aventureiro carismático.
O interessante é perceber que essas interpretações não funcionam isoladamente.
Elas participam de um projeto estético e narrativo interessado em desconstruir identidades previamente estabilizadas.
Luke não precisa corresponder a Yoda.
Kylo Ren não precisa corresponder a Darth Vader.
Rey não precisa repetir Luke Skywalker.
E Poe não precisa funcionar como uma nova encarnação de Han Solo.
A importância desses personagens reside precisamente na possibilidade de existirem para além das figuras que parecem destinados a substituir.
Uma mitologia que se limita a produzir sucessores de seus próprios arquétipos corre o risco de transformar a continuidade em redundância.
Johnson compreende isso.
VIII. O cinema de autor diante da tirania das expectativas
A controvérsia envolvendo Os Últimos Jedi revela, sobretudo, uma questão que ultrapassa os limites da própria franquia.
Qual é o espaço reservado à autoria cinematográfica dentro de uma indústria cultural organizada em torno de propriedades intelectuais de enorme valor comercial?
Até que ponto um realizador pode transformar uma mitologia sem provocar a resistência daqueles que acreditam possuir uma espécie de autoridade afetiva sobre ela?
Essas perguntas não pressupõem que toda crítica dirigida ao filme seja ilegítima.
Existem objeções narrativas pertinentes, discussões justificáveis sobre o desenvolvimento dos personagens e problemas estruturais que merecem reconhecimento.
A liberdade artística não torna uma obra imune à contestação.
Mas é igualmente necessário reconhecer que uma parcela da recepção negativa parece decorrer menos de uma análise rigorosa de sua linguagem cinematográfica e mais da frustração diante daquilo que o filme deliberadamente se recusa a oferecer.
O espectador deseja determinado Luke Skywalker.
Johnson apresenta outro.
O espectador antecipa uma configuração específica para os conflitos.
Johnson questiona essa configuração.
O espectador espera que o passado ofereça as respostas necessárias para o futuro.
Johnson sugere que a dependência excessiva desse passado constitui parte do problema.
É justamente nessa tensão que se manifesta uma das questões centrais do cinema contemporâneo: a transformação da expectativa do consumidor em parâmetro de legitimidade artística.
A indústria frequentemente incentiva essa lógica ao oferecer produtos concebidos para assegurar a permanência de experiências previamente aprovadas.
O reconhecimento converte-se em satisfação.
A familiaridade passa a ser confundida com qualidade.
E o risco artístico torna-se uma ameaça comercial.
Os Últimos Jedi não rompe inteiramente com essa estrutura. Continua sendo uma superprodução hollywoodiana, submetida às exigências de uma franquia bilionária, organizada em torno de personagens populares e de uma mitologia universalmente reconhecida.
Sua subversão, portanto, acontece dentro de limites industriais bastante definidos.
Mas isso não diminui necessariamente sua relevância.
Pelo contrário.
É justamente no interior dessas limitações que Johnson consegue estabelecer um diálogo entre a tradição do espetáculo popular e a inquietação própria do cinema de autor.
Seu filme não procura abandonar Star Wars.
Procura impedir que Star Wars se transforme exclusivamente em um museu de si mesmo.
IX. O mito somente permanece vivo quando pode ser questionado
Talvez o aspecto mais fascinante de Os Últimos Jedi seja sua compreensão de que os mitos não precisam permanecer imutáveis para conservar sua importância.
Ao contrário: sua capacidade de atravessar diferentes gerações depende, em grande medida, de sua disponibilidade para novas interpretações.
O heroísmo não desaparece quando o herói demonstra medo.
A sabedoria não perde sua importância quando o mestre reconhece seus fracassos.
A esperança não deixa de existir quando os acontecimentos parecem contrariá-la.
Esses valores apenas abandonam uma dimensão abstrata e passam a adquirir significado por meio das contradições da experiência humana.
Johnson compreende que a força de uma narrativa mitológica não reside exclusivamente na preservação de seus símbolos, mas na possibilidade de submetê-los a novas perguntas.
Seu filme é, nesse sentido, uma reflexão sobre o peso das heranças.
Sobre a dificuldade de corresponder às expectativas daqueles que vieram antes.
Sobre o perigo de transformar ensinamentos em dogmas.
E, especialmente, sobre a necessidade de reconhecer que a continuidade de uma tradição não exige obediência irrestrita às suas formas anteriores.
Há algo profundamente cinematográfico nessa concepção.
Afinal, o Cinema desenvolveu sua linguagem justamente porque sucessivas gerações de realizadores se recusaram a aceitar que os procedimentos consagrados representavam os limites definitivos de sua expressão.
Da montagem soviética às rupturas da Nouvelle Vague, passando pelas transformações narrativas da Nova Hollywood, a História do Cinema é também a história de cineastas que compreenderam a insuficiência das convenções herdadas.
Seria um exagero situar Os Últimos Jedi no mesmo patamar revolucionário desses movimentos.
O filme de Johnson não reinventa a linguagem cinematográfica.
Mas apresenta algo cada vez menos comum no universo das grandes franquias: a disposição de utilizar os recursos dessa linguagem para interrogar criticamente a própria identidade da obra à qual pertence.
E isso, em tempos de nostalgia industrializada, está longe de constituir uma realização insignificante.
Conclusão — A coragem de deixar o passado para trás
Star Wars: Episódio VIII — Os Últimos Jedi não é uma obra cinematográfica isenta de problemas.
Seu desenvolvimento narrativo apresenta irregularidades, determinadas passagens carecem de concisão e nem todas as ideias recebem tratamento dramático equivalente.
Entretanto, poucas produções contemporâneas de orçamento semelhante demonstraram tamanha disposição para confrontar as expectativas de seu público sem abandonar os fundamentos de sua identidade.
Rian Johnson compreende que a grandeza de Star Wars jamais esteve exclusivamente nos sabres de luz, nas batalhas espaciais ou na oposição entre cavaleiros virtuosos e tiranos malignos.
Esses elementos constituem a aparência reconhecível de sua mitologia.
Sua essência encontra-se em algo mais profundo: nas contradições que definem seus personagens, na tensão entre destino e liberdade, na ambiguidade das escolhas individuais e na possibilidade permanente de transformação.
Ao desconstruir a imagem idealizada de Luke Skywalker, ao recusar a reprodução mecânica dos antigos arquétipos e ao conferir às imagens uma expressividade que ultrapassa sua função espetacular, Johnson realiza uma das obras mais ambiciosas da saga.
E talvez seja precisamente por isso que seu filme tenha provocado tamanha resistência.
Porque o público pode aceitar que uma galáxia inteira seja destruída diante de seus olhos, desde que ninguém ouse destruir a imagem idealizada de seus heróis.
A verdadeira audácia de Os Últimos Jedi não consiste em negar a tradição criada por George Lucas.
Consiste em compreender que essa tradição nasceu, ela própria, de um gesto de reinvenção.
No fim das contas, Johnson não parece interessado em destruir o mito.
Deseja libertá-lo da obrigação de permanecer eternamente igual a si mesmo.
E se há algo que o Cinema nos ensinou ao longo de sua história, é que nenhuma expressão artística permanece verdadeiramente viva quando se converte em simples reprodução de suas antigas glórias.
A tradição pode conservar um mito. Mas somente a coragem de transformá-lo permite que ele continue a produzir novos significados.
Talvez seja justamente isso que uma parcela do público tenha se recusado a compreender.
E talvez seja justamente por isso que Os Últimos Jedi, com todas as suas imperfeições, represente uma das manifestações mais legítimas do espírito criativo que deu origem a Star Wars.
Não porque oferece aquilo que desejávamos encontrar.
Mas porque tem a coragem de nos confrontar com aquilo que ainda não havíamos aprendido a desejar.
