quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

Nota: ★★★☆☆ (3/5)



Há um debate inadiável acerca dos critérios curatoriais contemporâneos da indústria hollywoodiana, especialmente no que concerne às diretrizes institucionais da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A Academia, responsável pela outorga do Oscar, declarou formalmente nos últimos anos sua intenção de privilegiar obras que atendam a parâmetros de diversidade e representatividade. A questão, portanto, não reside na presença de temáticas raciais ou identitárias — historicamente abordadas pelo Cinema com excelência — mas na forma como tais elementos são integrados à estrutura dramatúrgica.

Quando observamos produções como 12 Years a Slave, BlacKkKlansman, Green Book e Moonlight, verificamos abordagens distintas de conflitos raciais e identitários, mas todas sustentadas por coerência interna, domínio da linguagem cinematográfica e articulação narrativa consistente. Em maior ou menor grau, tais obras subordinam o discurso temático à organicidade da mise-en-scène, à progressão dramática e à construção psicológica dos personagens.

É nesse contexto que Pecadores se insere — e também se fragmenta.


Estrutura Narrativa e Direção

Dirigido por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, o filme inicia como um drama histórico ambientado no Mississippi da década de 1930.

A primeira metade apresenta notável coesão formal. A direção de arte reconstitui com precisão o Sul estadunidense pós-Depressão; a paleta cromática privilegia tons quentes e saturados, sugerindo um ambiente simultaneamente árido e pulsante. A fotografia explora contrastes de luminosidade — o sol escaldante como elemento simbólico de opressão estrutural — enquanto a trilha calcada no blues funciona não apenas como ambientação sonora, mas como eixo identitário da narrativa.

Coogler conduz a mise-en-scène com dinamismo. A montagem privilegia ritmo ágil sem comprometer a inteligibilidade espacial. Há domínio técnico inequívoco: enquadramentos estáveis, movimentos de câmera motivados, transições fluidas. Michael B. Jordan entrega performance marcada por cadência verbal acelerada, impostação confiante e presença cênica que estrutura a primeira metade do filme.

Até aqui, a obra demonstra unidade estética e clareza de propósito.


Ruptura Genérica e Problema de Coerência

O ponto de inflexão ocorre quando o drama histórico converte-se abruptamente em horror sobrenatural. Não se trata de uma simples hibridização de gêneros — recurso perfeitamente legítimo na história do Cinema —, mas de uma guinada estrutural insuficientemente preparada em termos de foreshadowing e progressão dramática.

A mudança de registro carece de ancoragem diegética sólida. A narrativa abandona a verossimilhança construída para adotar convenções típicas do horror sem a devida preparação simbólica. O resultado é um desequilíbrio estrutural: dois filmes distintos coexistem no mesmo corpo narrativo.

Como obra de terror, Pecadores é funcional. Entretanto, dentro do gênero, revela execução apenas mediana: desenvolvimento acelerado, arquétipos pouco sofisticados, antagonistas delineados com traços excessivamente esquemáticos. A tensão não amadurece gradualmente; ela é instaurada por imposição estrutural.


Construção de Arquétipos e Discurso

O terceiro ato evidencia simplificação de conflitos raciais por meio da inversão simbólica de papéis sociais. A representação de antagonismos raciais ocorre de maneira pouco ambígua, o que reduz a complexidade dramática. Em vez de explorar a ambivalência moral dos personagens, opta-se por uma configuração arquetípica quase alegórica.

Do ponto de vista formal, quando o discurso precede a dramaturgia, a narrativa perde densidade. Cinema politicamente engajado não é problema; a História da Sétima Arte é pródiga em exemplos de obras militantes esteticamente sofisticadas. O problema surge quando a estrutura dramática se subordina a uma intenção discursiva que se sobrepõe à organicidade do roteiro.

A percepção de alinhamento estratégico aos critérios contemporâneos da Academia decorre não da presença do tema racial, mas da forma como o conflito é estruturado: menos como investigação dramática e mais como afirmação categórica.


Considerações Finais

Pecadores possui méritos inequívocos:

  • Direção de arte rigorosa
  • Fotografia expressiva
  • Trilha sonora identitária
  • Atuação central magnética
  • Primeira metade dramaticamente sólida

Entretanto, padece de:

  • Ruptura genérica abrupta
  • Fragilidade na transição para o horror
  • Simplificação arquetípica no terceiro ato
  • Descompasso entre discurso e dramaturgia

As múltiplas indicações ao Oscar podem ser compreendidas à luz do contexto institucional atual, mas não encontram respaldo proporcional na excelência formal integral da obra.

Trata-se, em síntese, de um filme tecnicamente competente, estruturalmente irregular e tematicamente ambicioso, porém esteticamente inconsistente na totalidade de sua proposta.

Não é uma obra menor — mas tampouco um marco.

Daqui a alguns anos, é plausível que seja lembrado mais pelo contexto de sua recepção do que por sua permanência estética.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: O Morro dos Ventos Uivantes (Emerald Fennell, 2026), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: O Morro dos Ventos Uivantes (Emerald Fennell, 2026), por Daniel Esteves de Barros.


Nota: ★★ (2/5)



A adaptação de 2026 de O Morro dos Ventos Uivantes apresenta-se como um artefato cinematográfico de elevada competência formal e simultânea inconsistência conceitual. Trata-se de uma obra tecnicamente sofisticada, mas dramaticamente desidratada — um exercício estético de alta voltagem plástica que não encontra equivalência na densidade psicológica da matriz literária.


Fidelidade, Liberdade Artística e Compressão Narrativa

Toda adaptação pressupõe tensão entre fidelidade e liberdade criativa. Nos primeiros sessenta minutos, o filme mantém razoável alinhamento estrutural com o romance, especialmente ao enfatizar infância e juventude de Catherine e Heathcliff. Contudo, essa ênfase inicial não amadurece em progressão psicológica consistente.

A compressão de um romance estruturalmente complexo em cerca de 2h15 resulta em fragmentação narrativa. A segunda metade assume ritmo de montagem quase episódica, próxima ao videoclipe sensorial, dissolvendo o arco trágico em sucessão de atmosferas. O estudo ontológico das personagens — elemento central na obra de Brontë — cede lugar a uma dramatização superficial.

O resultado é uma adaptação que preserva eventos, mas esvazia processos internos.


Direção e Construção de Personagens

A direção de Emerald Fennell demonstra competência na condução da tensão inicial, sobretudo no trabalho com os atores mirins. A jovem Catherine captura traços fundamentais de formação psicológica, constituindo um dos momentos mais sólidos da obra.

Entretanto, essa construção não encontra continuidade dramática. A transição para a maturidade emocional ocorre de forma abrupta e pouco orgânica.

A opção por reduzir ou omitir a relevância de Hindley compromete a degradação estrutural da família Earnshaw e enfraquece o eixo de brutalização moral que sustenta a trajetória de Heathcliff.


Heathcliff e a Despotencialização do Arquétipo

A interpretação de Jacob Elordi apresenta um Heathcliff emocionalmente amortecido. Se comparado à performance de Laurence Olivier na adaptação de 1939, observa-se perda significativa de intensidade volitiva.

O Heathcliff literário é movido por vingança como força ontológica. Aqui, a personagem surge romantizada e dramaticamente “nerfada”: menos cruel, menos obsessiva, menos ameaçadora. A monotonia vocal e a contenção expressiva reduzem o impacto trágico.

Mais do que falha interpretativa, trata-se de escolha de roteiro que suaviza a brutalidade moral da obra original.


Catherine: Intensidade e Artificialidade

Margot Robbie, também produtora, alterna momentos de vigor dramático com passagens de artificialidade performativa. Em registros mais densos, sustenta o conflito interno com competência. Contudo, a exacerbação da birra emocional aproxima a personagem de arquétipos melodramáticos reminiscentes de Vivien Leigh em Gone with the Wind, sem atingir a mesma complexidade.

A Catherine apresentada é intensificada na superfície, mas simplificada na estrutura.


Direção de Arte, Figurino e Verossimilhança Sociocultural

Tecnicamente, o filme é irrepreensível em direção de arte e figurino. A recriação da Inglaterra rural vitoriana apresenta rigor plástico e composição visual sofisticada. A paleta cromática — como na já emblemática saia rosada de Catherine — reforça contrastes simbólicos.

Contudo, há discrepância geossocial evidente. A ostentação estética atribuída à residência dos Linton aproxima-se mais do imaginário aristocrático de produções como Bridgerton ou Downton Abbey do que da austeridade histórica do norte da Inglaterra vitoriana.

A estilização supera a contextualização. O resultado é plasticamente belo, porém sociologicamente dissonante.


Fotografia e Estilização Gótica

A fotografia captura adequadamente o tom gótico da obra, evocando desolação e isolamento. Entretanto, o excesso de estilização — especialmente em cenas de neblina e na reentrada simbólica de Heathcliff nas “trevas” — aproxima a mise-en-scène de um romantismo estetizado excessivo.

A atmosfera flerta com o kitsch, comprometendo a sobriedade emocional da narrativa literária.


Trilha Sonora e Ruptura Diegética

O elemento mais problemático da obra reside na trilha sonora. A inserção de composições pop/tecno-pop rompe a coesão diegética e interfere na imersão histórica.

Não há contraponto irônico consistente nem atualização conceitual justificável. A camada sonora funciona como ruído estrutural, desestabilizando a suspensão da descrença e fragmentando a experiência estética.


Estratégia Mercadológica e Deslocamento Tonal

Percebe-se orientação para público semelhante ao das franquias Twilight e Fifty Shades of Grey: erotização emocional suavizada, voltada ao consumo juvenil.

O filme flerta com erotismo, mas evita radicalidade. Permanece em zona de sugestão calculada, indicando possível preocupação com retorno financeiro (considerando orçamento elevado e negociações de direitos envolvendo a Netflix).

Essa inflexão conduz a obra a um registro tonal oscilante entre o melodrama intensificado e a estetização kitsch.


Considerações Finais

A adaptação de 2026 é formalmente refinada, visualmente exuberante e tecnicamente sólida. Contudo, falha naquilo que constitui o núcleo do romance de Emily Brontë: o mergulho psicológico profundo e a radicalidade moral.

A busca por impacto visual e ampliação de público dilui a tragédia existencial em romance estilizado de pulsão atenuada.

Trata-se, portanto, de um filme esteticamente admirável, mas dramaticamente esvaziado — um espetáculo visual que não alcança a ferocidade ontológica do texto que pretende homenagear.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

Nota: ★★★★ (4/5)



Valor Sentimental, o mais recente trabalho do diretor Joachim Trier, apresenta-se como uma experiência cinematográfica polarizadora, oferecendo aos espectadores uma narrativa que beira o risco de se perder em sua própria ambição estrutural. Desde o princípio, o filme se configura como duas obras distintas que coexistem dentro de um único projeto, gerando uma sensação de desarmonia entre os elementos dramáticos e estilísticos que se entrelaçam na tela.


O ponto de partida do filme, que tenta unir dois gêneros aparentemente antagônicos, é uma decisão criativa que pode ser tanto um charme quanto um desafio, dependendo da paciência do espectador. A direção de Trier, com sua abordagem intimista e controlada, privilegia planos fechados, sublinhando a tensão interna de seus personagens e criando uma atmosfera de claustrofobia emocional. No entanto, quando a película entra em momentos que buscam a grandeza do drama humano, há uma nítida sensação de falta de coesão. A transição entre essas duas abordagens, por vezes, parece artificial, como se o diretor tentasse casar água e óleo.


A atuação de Stellan Skarsgård é, sem dúvida, o grande pilar de Valor Sentimental. Conhecido por interpretar personagens de temperamento mais ríspidos e taciturnos, Skarsgård entrega uma performance complexa e introspectiva, com um personagem que busca redenção e reconciliação. Seu papel é, sem dúvida, mais profundo e intrigante do que o filme inicialmente deixa transparecer. A transformação de Skarsgård de um homem implacável para alguém mais simpático e tocante é convincente e cativante, provando que, mesmo com a tentação de encaixá-lo como coadjuvante, ele é, na verdade, o centro gravitacional da narrativa.


Renate Reinsve e Elle Fanning, embora talentosas, são subaproveitadas, especialmente em um filme que tenta posicioná-las como protagonistas, mas não dá a elas o espaço necessário para expandir suas personagens. Fanning, que já demonstrou seu talento em Super 8 e outros trabalhos, se destaca, especialmente quando interpreta uma atriz dentro do filme que interpreta uma atriz – uma metalinguagem que se torna o auge de sua atuação. Seu domínio sobre as emoções, transitando com facilidade entre momentos de seriedade, vulnerabilidade e até mesmo a leveza cômica, é uma prova de sua maturidade interpretativa.


Já Reinsve oferece uma performance sólida, porém mais comedida. Seu papel, que exige uma construção mais gradual e amadurecida, falta a energia necessária para se destacar, particularmente quando comparado ao brilho de Skarsgård e Fanning. O que falta em seu papel, contudo, não é sua habilidade – mas a ausência de um arco mais dinâmico e provocativo no roteiro, o que faz com que seu personagem, por vezes, passe despercebido.


A narrativa de Valor Sentimental poderia ser mais bem trabalhada, especialmente no que diz respeito à integração das duas tramas principais. A tentativa de unir a busca de um homem por reconciliação com a figura distante da filha com a carreira artística desta última é uma proposta interessante, mas que demora a engrenar. O ritmo do filme, por vezes lento e introspectivo, exigirá paciência do espectador, que pode se sentir frustrado com a falta de dinamismo. Para aqueles dispostos a esperar, o longa recompensará com um desfecho mais coeso, mas até lá, o sentimento predominante será o de que a película está tentando encontrar seu lugar.


O trabalho de Joachim Trier como diretor é notável, mas também imperfeito. Embora a direção intimista crie uma conexão genuína com os personagens, a falta de ousadia em alguns momentos acaba limitando o impacto emocional do filme. As escolhas de plano são bem pensadas, mas a estrutura narrativa se beneficiaria de uma maior fluidez. A trilha sonora, que é um elemento crucial em filmes intimistas, falha em se conectar com a obra como um todo. A opção por uma música estrangeira e não-diegética enfraquece o sentido de autenticidade, especialmente em uma produção que se passa na Noruega e poderia explorar melhor sua identidade cultural.


O longa poderia ter sido mais dinâmico em seu roteiro, mas a conclusão, embora tardia, entrega um encaixe satisfatório das tramas. A presença de Trier como diretor é evidente em sua busca pela profundidade emocional dos personagens, mas o filme peca ao não conseguir equilibrar melhor suas duas narrativas. A escolha de tornar a história mais palatável para o público de streaming, embora compreensível, não se alinha com o tom mais contemplativo que o cinema exige. A obra encontra sua recompensa na paciência do espectador, que, se souber esperar, será agraciado com uma conclusão que justifica o ritmo mais arrastado.


Valor Sentimental é, portanto, uma obra que se destaca principalmente pelo desempenho excepcional de seu elenco, em particular de Skarsgård e Fanning, e por sua abordagem intimista que, apesar de sua falta de coesão estrutural, reflete a complexidade emocional de seus personagens. É uma produção que exige paciência, mas que, para aqueles dispostos a embarcar na jornada, oferece uma recompensa que, embora não impecável, é autêntica e satisfatória. É um filme que, embora falho em sua execução, permanece impactante e merece ser visto com atenção.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Chloé Zhao, 2025), por Daniel Esteves de Barros

🎬 Crítica Técnica: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Chloé Zhao, 2025)

por Daniel Esteves de Barros


Nota: ★★★★☆ (4/5)



Aqueles que se dedicam a escrever sobre Cinema, via de regra, concentram-se na obra analisada em si, mas raramente se detêm sobre o propósito maior da Arte.

Afinal, a que se propõe o Cinema? A que deveria se propor? Existe, de fato, um propósito a ser seguido? Ou a Arte deve simplesmente existir, livre de qualquer amarra conceitual?

Este que vos escreve tenderia a afirmar que o Cinema deve, antes de tudo, funcionar como um registro fiel de sua época e de seus costumes. Outros, contudo, defenderão que sua função primordial reside na transmissão de uma mensagem específica, ou no aprofundamento psicológico de seus personagens, ou ainda no desenvolvimento minucioso de uma narrativa complexa e autocontida. Há, igualmente, quem sustente que o Cinema deva limitar-se ao entretenimento puro e simples — distração legítima e, diga-se, não menos nobre. Poucos, entretanto, retornam ao berço do teatro na Grécia Antiga, onde Comédia e Tragédia tinham como objetivo central provocar, da forma mais intensa possível, uma emoção específica em seus espectadores.

É justamente sob este último prisma que o Cinema alcançado por Chloé Zhao em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet cumpre o seu propósito com uma maestria digna de aplausos em pé.

Infelizmente, o subtítulo nacional — A Vida Antes de Hamlet — pode induzir o espectador desavisado (como este que vos escreve) a acreditar que se trata de uma prequela direta da célebre tragédia shakespeariana imortalizada pela sentença “Ser ou não ser? Eis a questão.” Ledo engano.

Uma leitura prévia da sinopse — hábito que o autor deste texto raramente adota, preferindo degustar as obras sem expectativas prévias — esclarece que o longa se propõe a uma biografia livremente inspirada na vida de William Shakespeare, sem qualquer compromisso absoluto com a fidelidade histórica.

E a expressão “livremente inspirada” não poderia ser mais adequada. Apesar de Shakespeare figurar, sem exagero, entre as personalidades mais influentes da história da humanidade, pouco se sabe de forma concreta sobre sua vida pessoal. Não por acaso, surgiram teorias — hoje desacreditadas — que questionavam sua própria existência, sugerindo tratar-se de um pseudônimo coletivo, à maneira do mito arturiano.

Pesquisas mais recentes, entretanto, comprovam que Shakespeare de fato existiu. Há registros cartoriais, documentos matrimoniais que atestam sua união com Anne Hathaway (citada como Agnes no testamento de seu pai, detalhe corretamente incorporado pelo filme) e o nascimento de seus três filhos — entre eles, Hamnet, cujo destino trágico é historicamente confirmado. O que se segue a esse evento, contudo, é fruto da imaginação sensível de Maggie O’Farrell, autora do romance que inspira o longa.

Narrativamente, Hamnet inicia-se como um típico — e bastante agradável — romance de época. Um artesão de um vilarejo conhece uma jovem do campo, rotulada como “bruxa” pela comunidade. Surge o interesse romântico; ela, mais conectada à natureza do que às convenções sociais, inicialmente o repele. Ele insiste, o público antecipa a rendição inevitável, a família demonstra preconceito, o tempo apazigua os conflitos. Casamento, filhos, estabilidade. Temos, assim, um primeiro ato previsível, ainda que conduzido com notável delicadeza.

A Direção de Arte é simplesmente irrepreensível ao recriar com precisão rara os ambientes da Dinastia Tudor, compondo cenários de uma verossimilhança pouco comum mesmo entre produções de grande orçamento. A Fotografia, por sua vez, dialoga intimamente com os estados emocionais da narrativa: nos momentos de felicidade familiar, a luz natural e os tons quentes predominam; após o evento trágico que marca a virada dramática da obra, o trabalho de Łukasz Żal mergulha em paletas dessaturadas, sombras densas e interiores opressivos.

Na direção, Chloé Zhao captura com absoluta precisão a essência do material. Se o roteiro — assinado por ela própria em parceria com O’Farrell — apresenta certa previsibilidade em seus momentos iniciais, a cineasta compensa com sua já conhecida sensibilidade ao enquadrar a natureza como extensão emocional dos personagens, permitindo que os conflitos se desenvolvam de maneira orgânica, tal como já havia feito no belíssimo Nomadland.

É, contudo, após a grande reviravolta do roteiro que Zhao demonstra sua plena maturidade autoral. Os planos abertos cedem espaço a enquadramentos fechados, intimistas, quase claustrofóbicos, como se a câmera invadisse a vida dos personagens e obrigasse o espectador a compartilhar, de forma visceral, sua dor.

E é justamente nesse terreno emocional que Hamnet encontra sua maior força: a atuação absolutamente soberba de Jessie Buckley. Ainda que relativamente recente no imaginário do grande público, a atriz irlandesa já acumula reconhecimento expressivo, incluindo uma vitória no Globo de Ouro em 2026 — prêmio mais do que merecido por este trabalho. Pouquíssimas vezes na história do Cinema uma intérprete conseguiu traduzir com tamanha verossimilhança o luto em sua forma mais crua e devastadora.

Buckley transita com impressionante naturalidade entre a histeria e o esvaziamento emocional, alternando explosões de dor com uma rouquidão quase sufocada que comunica impotência absoluta. Sua transformação de mãe plena de expectativas para uma figura abatida e desiludida é uma verdadeira aula de atuação. Ainda que o autor desta crítica não tenha conferido o desempenho de todas as concorrentes ao Oscar, é seguro afirmar que uma eventual vitória de Buckley seria plenamente justa.

No restante do elenco, Paul Mescal demora a convencer, apresentando certa rigidez nos primeiros atos. Contudo, após o ponto de virada, o ator encontra o tom adequado para seu William Shakespeare, incorporando a dramaticidade esperada. Emily Watson entrega uma performance sólida e carismática, suavizando com sua experiência um papel que poderia facilmente resvalar na caricatura. O destaque adicional, porém, fica para os irmãos Noah e Jacobi Jupe. O primeiro emociona ao interpretar essencialmente o segundo, enquanto o mais jovem, com apenas 12 anos, surpreende pela maturidade e consistência de sua atuação.

Como se toda essa carga emocional já não fosse suficiente para levar o espectador às lágrimas, a trilha sonora — merecidamente indicada ao Oscar — atua como elemento catalisador, conduzindo o público pela mão e aprofundando ainda mais o impacto sentimental da narrativa.

E, afinal, a que propósito serve o Cinema? Não há resposta definitiva. Mas, se depender de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, ele serve para emocionar. E nisso, apesar de pequenos percalços, a obra é absolutamente bem-sucedida.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Marty Superme (Josh Safdie, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: Marty Supreme (Josh Safdie, 2025)

por Daniel Esteves de Barros

Nota: ★★★★★ (5/5)


Marty Supreme não apenas reúne absolutamente tudo aquilo que uma cinebiografia precisa oferecer, como também se impõe como uma prova contemporânea de que o Cinema ainda carece — e muito — de narrar histórias desconhecidas do grande público.

Há poucos dias, por exemplo, este que vos escreve dedicava-se a pesquisar a figura histórica que dá nome à canção que mais tem ouvido nos últimos anos — Carolus Rex, da banda sueca de power metal Sabaton — e constatou, com certo espanto, a completa ausência de qualquer registro relevante no Cinema falado acerca da vida do rei guerreiro sueco Carlos XII.

Contudo, não é necessário ser um monarca coroado por vitórias memoráveis (e derrotas igualmente vexatórias, uma vez que o declínio do Império Sueco foi protagonizado por sucessivos fracassos militares de Carlos XII) para merecer ter sua trajetória narrada nas telas de forma competente, digna e, sobretudo, eternizada pela Sétima Arte.

Assim como o monarca supracitado, Marty Mauser — inspirado na figura real de Marty Reisman — seria um excelente exemplo a ser citado em uma aula introdutória de filosofia nietzschiana sobre a Vontade de Poder. A diferença crucial é que, ao contrário do Carolus Rex, o mesa-tenista, ao menos segundo o que o filme nos apresenta, parece ser um colecionador contumaz de fracassos, sempre recorrendo a embustes e subterfúgios para escapar de uma armadilha apenas para, logo em seguida, cair em outra, ainda mais engenhosa, fruto direto de suas próprias tramoias.

Mauser não está distante do arquétipo clássico do anti-herói picaresco. Aproxima-se, em essência, do Leonardinho de Manuel Antônio de Almeida — o eterno Sargento de Milícias — ou, em registro mais contemporâneo e nacional, do inesquecível Agostinho Carrara, de A Grande Família. Não por acaso, a identificação do público brasileiro com o personagem se dá de maneira quase imediata, uma vez que muitas das características que compõem o estereótipo do “malandro simpático” encontram-se profundamente enraizadas em sua personalidade.

Trata-se, portanto, de um tipo de figura dramática com a qual Josh Safdie já havia trabalhado de maneira notável em Joias Brutas. Ao lado de seu irmão Ben Safdie, o cineasta conseguiu ali extrair uma atuação surpreendentemente convincente daquele que por muito tempo foi o calcanhar de Aquiles de Hollywood: Adam Sandler. Sendo assim, é inevitável imaginar o que Safdie seria capaz de fazer ao dirigir um ator do quilate de Timothée Chalamet — que, embora ainda distante de uma carreira plenamente consolidada, já demonstrara enorme potencial em trabalhos como Me Chame Pelo Seu Nome e Duna: Parte Um e Parte Dois.

Postergando, por ora, os mais do que merecidos elogios a Chalamet, faz-se necessário discorrer previamente sobre o trabalho de Josh Safdie, que em Marty Supreme atua quase como um discípulo confesso de Martin Scorsese.

Aliada a uma montagem extremamente eficaz e dinâmica — assinada pelo próprio Safdie em parceria com Ronald Bronstein —, sua direção se configura como uma verdadeira aula de como se fazer Cinema. Seja nos cortes rápidos que intercalam saques e golpes nas poucas, porém intensas, cenas de tênis de mesa, seja no fluxo narrativo conduzido por movimentos de câmera ágeis, precisos e cirurgicamente calculados, o filme jamais resvala na desordem visual que, por vezes, emergia em Joias Brutas.

Agilidade, aliás, é a palavra-chave de Marty Supreme e o principal elemento que o distingue da maioria das cinebiografias contemporâneas. Em diversos momentos, o espectador é remetido à competência demonstrada por Scorsese e Thelma Schoonmaker em O Lobo de Wall Street. Tal como no longa de 2013, a eficiência narrativa faz com que seus quase cento e oitenta minutos transcorram com notável fluidez, tornando-se levemente cansativos apenas em breves instantes do terço final.

O desenho de produção não fica atrás. A Nova Iorque dos anos 1950 é retratada como suja, ruidosa e economicamente hostil à maior parte de seus habitantes — sem recorrer, contudo, a qualquer tipo de panfletagem política. O excesso de lixo nas ruas, a poluição visual dos cartazes e o ruído urbano constante dissolvem a imagem romantizada dos “anos dourados”, tão frequentemente associada ao período, e desmontam a estética higienizada vista em produções como Não Se Preocupe, Querida.

O figurino, além de respeitar com rigor os trajes característicos da década, chama atenção por um desfile relojoeiro irrepreensível. O Elgin 1951, referência 6728A, com caixa banhada a ouro 10 quilates, utilizado por Mauser, ilustra com precisão sua ambição desmedida e orgulho deslocado, em contraste com sua falência econômica — reforçada, inclusive, pelos sapatos de couro de crocodilo. Em oposição, o Patek Philippe Hourglass, referência 2468, de Milton Rockwell, simboliza de maneira quase didática o poder absoluto do antagonista.

A trilha sonora também merece destaque. Quando evocada de forma diegética, ela dialoga diretamente com o espírito dos Estados Unidos daquele período. Já as canções inseridas na pós-produção — majoritariamente oitentistas — cumprem função dramática precisa: Forever Young reflete a eterna imaturidade do protagonista, enquanto Everybody Wants to Rule the World parece encerrar, de maneira quase irônica, seu ciclo de ambição desenfreada.

Se por trás das câmeras Marty Supreme é inequivocamente um filme de Josh Safdie, diante delas Timothée Chalamet assume o controle absoluto. Seu carisma é magnético, quase hipnótico, levando o espectador a se questionar por que não odeia aquele anti-herói desprezível, arrogante e moralmente questionável. Psicologicamente, Mauser é um sujeito desprovido de recursos financeiros que tenta triunfar a qualquer custo — condição que, como já sugeria Sigmund Freud, tende a gerar empatia mesmo diante da indignidade.

Ainda assim, arrisca-se dizer que o verdadeiro “culpado” por essa empatia seja o próprio Chalamet, provável futuro vencedor do Oscar — e, se houver justiça, capaz até mesmo de desbancar Wagner Moura na categoria de Melhor Ator. Seu desempenho é verborrágico, afiado, milimetricamente calibrado em tom e ritmo. Sem exagero, trata-se do melhor desempenho masculino visto no Cinema desde Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, cuja atuação guarda paralelos evidentes com a apresentada aqui.

O elenco de apoio desempenha funções sólidas, ainda que, em sua maioria, atue como suporte para o brilho de Chalamet. Tyler, the Creator surpreende pelo carisma e pela química imediata com o protagonista. Kevin O’Leary constrói um antagonista cínico e amorfo sem jamais resvalar na caricatura. Gwyneth Paltrow entrega um trabalho competente, embora aquém do potencial que seu papel poderia explorar. Odessa A’zion, por sua vez, destaca-se como a única capaz de rivalizar em cena com Chalamet, evoluindo de uma insegurança inicial para uma presença dramática robusta e consistente — desempenho que merecia, sem sombra de dúvida, uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante.

Por fim, pode causar estranheza ao espectador a relativa escassez de partidas de tênis de mesa no desenrolar da narrativa. Tal escolha se justifica pelo foco do roteiro na vida pessoal do protagonista, em abordagem semelhante à de Touro Indomável. A diferença crucial reside no fato de que, enquanto o clássico de Scorsese retrata o declínio de um atleta corroído por sua indisciplina, Marty Supreme concentra-se nas dificuldades iniciais de Mauser e nos métodos moralmente questionáveis que adota para sobreviver — deixando ao público o julgamento final.

Se o roteiro parece inconclusivo quanto ao destino definitivo de Mauser (Reisman, na vida real), isso se deve justamente à recusa consciente de abraçar os clichês das cinebiografias convencionais.

Como afirmado no início deste texto, o Cinema ainda precisa narrar muitas histórias desconhecidas. E, ocasionalmente, não há motivo algum para fazê-lo de maneira previsível.