quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crítica Técnica: Mayhem: Os Senhores do Caos - quando o abismo se transforma em dramaturgia convencional (Jonas Åkerlund, 2018), por Daniel Esteves de Barros


Crítica Técnica: Mayhem: Os Senhores do Caos - quando o abismo se transforma em dramaturgia convencional (Jonas Åkerlund, 2018), por Daniel Esteves de Barros

Nota: ★★★☆☆


Há algo inevitavelmente sedutor — e simultaneamente perigoso — na ideia de converter a gênese do True Norwegian Black Metal em matéria cinematográfica.

Poucos movimentos musicais modernos construíram ao redor de si uma mitologia tão impermeável à distinção entre documento, testemunho, provocação e folclore quanto a segunda onda do black metal. Entre suicídios, incêndios de igrejas, assassinatos, paganismo, satanismo performático e uma deliberada fabricação de personas, aquilo que aconteceu na Noruega do início dos anos 1990 parece ter sido concebido retrospectivamente para desafiar qualquer representação cinematográfica minimamente interessada na verdade.

É precisamente daí que nasce a primeira virtude — e a primeira contradição — de Lords of Chaos.

Jonas Åkerlund compreende perfeitamente que não está filmando a História, mas uma história já contaminada por sua própria mitologia. O aviso inicial — “baseado em verdades e mentiras” — funciona menos como gracejo do que como declaração metodológica: qualquer tentativa de reconstituição daquele universo inevitavelmente esbarrará na impossibilidade de determinar onde termina o acontecimento e começa sua representação.

Não sabemos com segurança quanto da mitologia envolvendo Euronymous, Dead, Varg Vikernes, Faust, Blackthorn e os demais integrantes daquele círculo corresponde integralmente aos fatos; tampouco quanto foi posteriormente amplificado pelos próprios participantes, pela imprensa norueguesa ou pelo fascínio mórbido produzido pela cena. Histórias envolvendo fragmentos do crânio de Dead transformados em colares, pedaços de seu cérebro supostamente utilizados por Euronymous e a responsabilidade direta do chamado Inner Circle por diferentes incêndios de igrejas sobreviveram durante décadas justamente nessa zona intermediária entre documentação e lenda.

O problema é que Åkerlund encontra nesse território nebuloso uma possibilidade extraordinária de Cinema, enquanto o roteiro de Dennis Magnusson encontra nele apenas uma narrativa.

E essa diferença é fundamental.

Formalmente, Lords of Chaos é muito menos radical do que o universo que pretende representar. Sua estrutura dramática permanece obstinadamente clássica: apresentação, formação do grupo, escalada dos conflitos, radicalização, ruptura e consequência. A montagem, realizada pelo próprio Åkerlund, imprime considerável fluidez à progressão narrativa e impede que o filme seja esmagado pelo peso episódico de sua própria cronologia. Há competência evidente na administração do ritmo, sobretudo nas transições entre o cotidiano quase banal daqueles jovens e as explosões de violência que progressivamente contaminam a diegese.

Mas competência não significa invenção.

Åkerlund — cuja trajetória como realizador de videoclipes poderia sugerir uma abordagem muito mais agressiva da imagem — curiosamente disciplina sua câmera. Em vez de fazer a forma cinematográfica assimilar a aspereza, o primitivismo sonoro e a recusa estética que constituíam parte essencial do black metal norueguês, prefere uma mise-en-scène relativamente convencional, legível e frequentemente domesticada pelas exigências da cinebiografia.

Eis talvez a grande ironia formal de Lords of Chaos: um filme sobre uma contracultura radical realizado através de uma gramática cinematográfica essencialmente convencional.

Quando funciona, porém, funciona justamente porque Åkerlund possui alguma intimidade com aquele universo. A violência não é inteiramente estetizada como espetáculo heroico. Pelo contrário: em seus melhores momentos, ela surge de maneira desagradavelmente física. O corpo deixa de ser ícone e torna-se matéria. Sangue, ferimentos e morte perdem parcialmente a aura romântica construída durante décadas em torno da cena e recuperam algo de sua banalidade biológica.

É uma operação particularmente interessante porque confronta a iconografia do black metal com aquilo que ela frequentemente tenta transcender.

A fotografia, por sua vez, trabalha adequadamente a oposição entre espaços. Há a Noruega aparentemente organizada, limpa, funcional e socialmente estável; e, dentro dela, quartos, porões, lojas, casas e ambientes noturnos nos quais aqueles adolescentes tentam construir uma realidade paralela. A Helvete — loja de Euronymous e centro simbólico daquela cena — poderia ter recebido tratamento espacial ainda mais rigoroso, quase como um organismo fechado ou uma câmara ritualística, mas o filme percebe ao menos sua função dramática: aquele espaço não vende apenas discos; fabrica identidades.

É justamente neste ponto que Lords of Chaos poderia tornar-se extraordinário.

Porque talvez o verdadeiro objeto do filme jamais devesse ter sido o black metal.

Deveria ter sido a fabricação da persona.

Euronymous, Dead e Varg não existem naquele contexto apenas como indivíduos: existem como personagens de si mesmos. Criam nomes, figurinos, discursos, fotografias, gestos e códigos de pertencimento. Produzem uma representação pública de radicalidade e, em determinado momento, tornam-se incapazes de estabelecer com precisão onde termina a performance e começa o indivíduo.

Há, portanto, um filme fascinante escondido dentro de Lords of Chaos: um ensaio sobre jovens que inventaram personagens tão extremas que acabaram aprisionados dentro delas.

Åkerlund ocasionalmente percebe isso. Magnusson, infelizmente, quase nunca.

O roteiro é o verdadeiro calcanhar de Aquiles da produção porque insiste em psicologizar aquilo que talvez fosse mais interessante manter ambíguo. Em vez de permitir que as contradições das personagens existam autonomamente, frequentemente oferece explicações dramáticas excessivamente simples. A consequência é uma espécie de domesticação narrativa: pessoas contraditórias tornam-se arquétipos; processos ideológicos tornam-se diálogos expositivos; acontecimentos historicamente obscuros ganham relações causais suficientemente organizadas para satisfazer as necessidades do roteiro.

O caso mais evidente é Varg Vikernes.

Sua construção dramática é progressivamente reduzida à figura do jovem inicialmente deslocado que, ao ingressar naquele ambiente, radicaliza-se até tornar-se antagonista quase absoluto da narrativa. Não se trata de defender Vikernes — cujas posições políticas posteriores e declarações públicas dispensam qualquer romantização —, mas justamente do contrário: uma personagem historicamente tão contraditória não necessita ser simplificada para tornar-se perturbadora.

O roteiro parece temer sua complexidade.

A trajetória intelectual e ideológica de Vikernes, independentemente de qualquer juízo sobre suas ideias, era mais elaborada do que a transformação quase mecânica apresentada pelo filme. Sua relação com paganismo, cristianismo, modernidade e sociedade antecede boa parte dos acontecimentos dramatizados. Transformá-lo essencialmente em alguém conduzido pela lógica de radicalização imposta por Euronymous talvez facilite a dramaturgia, mas empobrece consideravelmente a personagem.

E o problema ultrapassa Varg.

Lords of Chaos parece frequentemente interessado em concluir que aqueles jovens eram, em última instância, adolescentes de classe média entediados brincando com forças que não compreendiam inteiramente.

Tal leitura não é necessariamente falsa.

É apenas insuficiente.

Porque justamente aí existia material para um estudo muito mais perturbador: como indivíduos oriundos de uma das sociedades materialmente mais prósperas e institucionalmente estáveis do mundo desenvolveram uma estética fundada na negação, na morte, na misantropia e na destruição?

Essa pergunta jamais exigiria uma resposta simples.

Exigiria Cinema.

Seria possível investigar a contradição entre conforto material e vazio existencial; entre secularização e desejo de transcendência; entre individualismo e necessidade de pertencimento; entre adolescência e fabricação de identidade; entre a rejeição do cristianismo e a tentativa de recuperar uma ancestralidade pagã idealizada.

O filme toca em quase todos esses elementos.

Não desenvolve praticamente nenhum.

Prefere o acontecimento à estrutura que o tornou possível.

É exatamente por isso que Until the Light Takes Us permanece muito mais interessante enquanto objeto cinematográfico e historiográfico sobre aquela cena. Não apenas porque trabalha diretamente com alguns de seus protagonistas, mas porque preserva aquilo que Lords of Chaos tenta incessantemente resolver: a contradição.

O documentário compreende que talvez não exista uma chave psicológica capaz de explicar integralmente aquele fenômeno.

Lords of Chaos procura chaves demais.

Até mesmo sua utilização do humor — frequentemente eficiente e deliciosamente ácido — participa dessa domesticação. A estratégia possui mérito ao retirar daqueles indivíduos parte da aura demoníaca posteriormente construída ao redor deles. Vê-los como jovens ridículos, contraditórios, inseguros e ocasionalmente patéticos é provavelmente muito mais próximo da realidade do que perpetuar a iconografia quase sobrenatural criada pela imprensa e pelos próprios músicos.

Contudo, ao destruir o mito, o filme pouco coloca em seu lugar.

E talvez esteja aí sua deficiência central.

O Cinema poderia desmontar aquelas imagens para revelar os homens por trás delas. Åkerlund desmonta parcialmente as imagens; Magnusson oferece personagens convencionais em substituição.

Ainda assim, Lords of Chaos está longe de ser um fracasso.

Sua montagem é funcional e ritmicamente precisa; a encenação das sequências violentas possui desconfortável materialidade; Rory Culkin constrói um Euronymous suficientemente ambíguo entre arrogância, insegurança, oportunismo e necessidade de reconhecimento; e a própria natureza inacreditável dos acontecimentos garante ao filme uma força narrativa que poucas cinebiografias musicais possuem.

O problema é justamente determinar quanto dessa força pertence ao Cinema e quanto pertence ao extraordinário material histórico que lhe foi entregue.

Talvez muito mais ao segundo.

Ao término, permanece a impressão de que Lords of Chaos recebeu em mãos matéria-prima para um grande filme sobre identidade, niilismo, performance, juventude, morte, religião e fabricação de mitos, mas preferiu transformá-la em uma eficiente cinebiografia sobre músicos que foram longe demais.

É pouco.

Especialmente porque o black metal daquela Noruega nunca pretendeu ser pouco.

O filme é bem realizado, moderadamente divertido, ocasionalmente perturbador e invariavelmente curioso. Informa, embora menos do que poderia; provoca, embora menos do que deveria; e diverte justamente quando seu objeto histórico parece tão absurdo que nenhuma invenção dramatúrgica conseguiria competir com ele.

Jonas Åkerlund filma competentemente o caos.

O que falta a Lords of Chaos é compreender que, cinematograficamente, o mais interessante jamais foi o caos em si, mas aquilo que levou aqueles jovens a desejá-lo.

E é precisamente diante desse abismo que o filme, quando finalmente poderia olhar para baixo, prefere recuar.


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