Crítica Técnica: Michael (Antoine Fuqua, 2025), por Daniel Esteves de Barros
Por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★☆☆ (3/5)
A análise de Michael deve, antes de qualquer juízo axiológico, partir de sua arquitetura narrativa — isto é, da forma como a obra estrutura diegeticamente sua progressão dramática e articula os dispositivos da linguagem cinematográfica para a construção de sentido. Trata-se de uma cinebiografia que, desde sua campanha promocional, delimita claramente sua proposta: recortar os aproximadamente vinte primeiros anos da trajetória de Michael Jackson, do período do Jackson 5 até a era do álbum Bad, evitando deliberadamente zonas de maior fricção biográfica.
Sob essa perspectiva, a obra não pode ser criticada por omissão temática — uma vez que tal omissão é constitutiva de sua proposta estética —, mas sim pela eficácia (ou ineficácia) com que realiza essa mesma proposta. E é precisamente nesse ponto que emergem suas fragilidades estruturais.
O roteiro opta por uma abordagem marcadamente linear e cronológica, configurando aquilo que se convencionou chamar de “cinebiografia de Wikipédia”: uma sucessão episódica de eventos que privilegia a completude informativa em detrimento da densidade dramática. A narrativa progride de forma previsível, sem rupturas temporais, elipses significativas ou estratégias de montagem que tensionem a recepção do espectador. Em contraste com obras como Rocketman, que operam com estruturas não lineares e simbólicas para acessar a subjetividade do biografado, Michael adota um paradigma expositivo, didático e, em última instância, pouco inventivo.
No plano da construção de personagens, observa-se uma dicotomia simplificadora: o protagonista é delineado como uma figura quase hagiográfica, enquanto o antagonista — Joseph Jackson — oscila entre a caricatura e a tentativa frustrada de complexificação. O principal problema reside no uso reiterado de diálogos expositivos como mecanismo de justificação psicológica, em detrimento da construção por ações, subtexto e mise-en-scène. A tridimensionalidade dos personagens, quando ensaiada, emerge de forma artificial, mediada por verbalizações explícitas que subestimam a inteligência interpretativa do espectador.
Paradoxalmente, é na dimensão formal que o filme encontra seus momentos de maior potência. A direção de Antoine Fuqua demonstra domínio da gramática cinematográfica, sobretudo na utilização expressiva dos enquadramentos. Em sequências-chave da infância do protagonista, o uso de planos plongée e contra-plongée estabelece uma dialética visual entre opressão e projeção — o peso da autoridade paterna e a iminência da exposição pública —, configurando uma mise-en-scène que traduz plasticamente estados psicológicos. A articulação entre câmera, atuação e espaço cênico revela um entendimento sofisticado da imagem como vetor narrativo.
No campo performático, o filme atinge seu ápice. O ator mirim Juliano Valdi, que interpreta Michael na infância, entrega uma composição de notável organicidade, equilibrando doçura, vulnerabilidade e tensão interna. Já o intérprete de Joseph Jackson, Colman Domingo, ainda que limitado por um arco dramático esquemático, consegue imprimir ambivalência por meio de modulações vocais e presença cênica. Destaca-se, contudo, a atuação de Jaafar Jackson, cuja incorporação mimética de trejeitos, gestualidade e cadência vocal de seu tio atinge um grau impressionante de verossimilhança — um trabalho de composição corporal raro em cinebiografias contemporâneas.
Do ponto de vista técnico, a obra apresenta elevado nível de acabamento: direção de arte, figurino e coreografias convergem para a recriação do espetáculo jacksoniano com considerável fidelidade. As sequências musicais, em particular, aproximam-se de uma lógica de reencenação performática, evocando a experiência sensorial dos shows originais — ainda que sem o rigor quase documental observado, por exemplo, na recriação do Live Aid em Bohemian Rhapsody.
Todavia, esse esmero técnico não é suficiente para compensar a ausência de uma abordagem dramatúrgica mais ousada. A narrativa, ao optar pela linearidade e pela assepsia temática, abdica de explorar zonas de ambiguidade que poderiam conferir maior densidade à figura retratada. O resultado é uma obra que cumpre sua proposta, mas raramente a transcende.
Em síntese, Michael configura-se como uma cinebiografia funcional, tecnicamente competente em sua dimensão formal e performática, mas limitada por um roteiro excessivamente expositivo e por uma estrutura narrativa convencional.
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