Crítica Técnica: Supergirl (2026, Craig Gillespie) – A força da linguagem cinematográfica sobre a fidelidade intertextual,
Por Daniel Esteves de Barros
Nota: ★★★★☆
Desde seu anúncio, Supergirl tornou-se alvo de críticas pela relativa distância em relação à HQ Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely. Trata-se, contudo, de uma discussão frequentemente conduzida por uma premissa equivocada: a de que uma adaptação cinematográfica deva necessariamente reproduzir seu material de origem. A história do cinema demonstra justamente o contrário. Uma obra adaptada deve ser julgada, antes de tudo, como linguagem autônoma, dotada de princípios narrativos, estéticos e dramáticos próprios. Sob essa perspectiva, Supergirl revela-se uma produção significativamente mais consistente do que parte da recepção crítica lhe atribuiu.
Craig Gillespie compreende que seu filme não pretende constituir uma epopeia filosófica, tampouco rivalizar com o peso dramático da graphic novel que o inspira. Seu objetivo é essencialmente o entretenimento, e nesse aspecto a direção demonstra notável consciência de ritmo. As sequências de ação são distribuídas de maneira relativamente uniforme ao longo da projeção, evitando longos intervalos de inércia dramática e mantendo constante o engajamento espectatorial. A decupagem privilegia a inteligibilidade espacial, enquanto a mise-en-scène organiza explosões, movimentos de personagens e deslocamentos de câmera sem comprometer a legibilidade visual, característica cada vez mais rara em blockbusters contemporâneos excessivamente dependentes da montagem fragmentada.
A montagem constitui, simultaneamente, um dos maiores acertos e uma das principais fragilidades do filme. A narrativa opta deliberadamente por uma estrutura não linear para apresentar o passado de Kara Zor-El, recusando a previsibilidade do tradicional primeiro ato expositivo. Essa fragmentação temporal impede que a origem da protagonista assuma caráter episódico ou meramente protocolar, permitindo que sua construção psicológica ocorra progressivamente.
Todavia, essa mesma estratégia revela seus limites. Diversos flashbacks prolongam-se além do necessário e interrompem momentos de crescente tensão dramática, produzindo rupturas perceptíveis na fluidez narrativa. Em determinados segmentos, a montagem sacrifica o ritmo em favor da exposição, comprometendo parcialmente a progressão dramática.
Visualmente, entretanto, o filme apresenta resultados bastante expressivos. A fotografia trabalha predominantemente com tons áridos e dessaturados que remetem simultaneamente ao western clássico e ao imaginário pós-apocalíptico de Mad Max: Fury Road. A paisagem desértica deixa de exercer função meramente decorativa para converter-se em extensão simbólica do estado emocional da protagonista. A ausência de vida, a esterilidade dos ambientes e a predominância cromática terrosa reforçam o sentimento de desolação que acompanha Kara durante praticamente toda a narrativa.
Em contraposição, determinadas passagens introduzem discretas tonalidades esverdeadas cuja função dramática dialoga diretamente com os acontecimentos do terceiro ato. Sem recorrer a explicações excessivamente literais, a direção de fotografia utiliza a cor como elemento narrativo, estabelecendo antecipações visuais que apenas encontram pleno significado na resolução da história.
Entre os momentos plasticamente mais sofisticados está a utilização da contraluz durante uma das aparições centrais da protagonista. Filmada contra o sol, Kara surge envolta por uma silhueta luminosa que transforma seu corpo em signo visual de esperança em meio à devastação. Trata-se de uma composição que evidencia domínio de iluminação, enquadramento e simbologia imagética, dispensando qualquer verbalização para comunicar sua função dramática.
Se a dimensão formal convence, é na construção da protagonista que reside o maior mérito da produção.
Ao contrário do Superman — frequentemente concebido como arquétipo absoluto da virtude e do altruísmo — Kara Zor-El apresenta uma moralidade substancialmente mais ambígua. Não se trata de uma heroína tradicional, mas tampouco de uma vilã. Sua atuação aproxima-se muito mais da tradição do anti-herói cinematográfico.
A personagem não demonstra especial interesse em salvar o mundo por imperativo moral. Move-se por impulsos pessoais, por ressentimentos e pelas cicatrizes de um passado traumático constantemente reintroduzido pela narrativa fragmentada. A frase utilizada na campanha publicitária — “Superman vê bondade em todos. Eu vejo a verdade.” — sintetiza precisamente essa oposição dramática.
Essa configuração aproxima Kara de figuras clássicas como o Homem Sem Nome de Sergio Leone ou mesmo de Max Rockatansky, cuja atuação decorre menos de altruísmo do que de circunstâncias específicas e interesses individuais. São personagens moralmente independentes, cuja humanidade emerge justamente de suas contradições.
Essa tridimensionalidade psicológica torna Kara significativamente mais interessante que seu célebre primo. Sua personalidade oscila entre cinismo, sarcasmo, vulnerabilidade e afeto reprimido, produzindo uma protagonista dramaticamente muito mais rica do que o tradicional idealismo kryptoniano.
As influências estéticas também aparecem de forma bastante evidente. Além da iconografia visual herdada do western e da franquia Mad Max, percebe-se clara inspiração no humor irreverente estabelecido por Guardiões da Galáxia. Entretanto, Gillespie evita transformar o longa em mera reprodução de modelos anteriores, incorporando essas referências sem comprometer uma identidade relativamente própria.
Nem todos os personagens recebem tratamento equivalente.
O Lobo, interpretado por Jason Momoa, funciona como excelente contraponto dramático à protagonista. Sua presença incorpora irreverência, brutalidade e humor físico em doses equilibradas. Momoa demonstra absoluto domínio do timing cômico sem perder a imponência física que caracteriza o personagem, construindo um coadjuvante extremamente carismático.
Já o antagonista Krem representa a maior deficiência estrutural do roteiro.
Não se trata simplesmente de um vilão essencialmente maligno — o cinema está repleto de grandes antagonistas cuja perversidade prescinde de justificativas psicológicas complexas. O problema reside na ausência quase completa de elaboração dramática. O personagem surge em cena, exerce sua função narrativa e desaparece sem que o espectador compreenda suas motivações, sua trajetória ou qualquer dimensão mais profunda de sua personalidade.
Sua função limita-se à de obstáculo mecânico para a protagonista, permanecendo completamente unidimensional durante toda a projeção. É um problema recorrente do cinema de super-heróis contemporâneo: protagonistas cada vez mais sofisticados convivendo com antagonistas dramaticamente descartáveis.
Problema semelhante ocorre com a jovem companheira de Kara. Sua busca por vingança inicia-se de maneira emocionalmente convincente, mas rapidamente degenera numa repetição incessante do mesmo conflito dramático. A insistência do roteiro em reiterar o discurso moralizante acerca dos efeitos destrutivos da vingança torna diversas interações excessivamente didáticas e previsíveis, aproximando-se de um didatismo que empobrece a construção psicológica da personagem.
No campo das interpretações, Milly Alcock entrega uma atuação bastante segura. Sua composição vocal alterna cinismo, ironia, fragilidade emocional e momentos de agressividade com admirável naturalidade. A atriz evita qualquer tentativa de reproduzir versões anteriores da personagem, preferindo construir uma Kara absolutamente própria.
Essa decisão revela-se particularmente acertada. Em vez de recorrer ao peso da tradição iconográfica da personagem, Alcock oferece uma interpretação original, sustentada por pequenas variações de olhar, postura corporal, entonação e ritmo de fala que conferem autenticidade à protagonista.
Sua química com Jason Momoa funciona de maneira surpreendentemente eficiente, permitindo que os momentos de humor jamais comprometam a dimensão dramática da narrativa.
Naturalmente, Supergirl está distante de representar uma revolução dentro do gênero. Seu roteiro não alcança a densidade filosófica da obra que lhe serve de inspiração, tampouco propõe reinvenções significativas da estrutura narrativa do cinema de super-heróis. Ainda assim, demonstra rara competência em compreender exatamente aquilo que pretende oferecer.
É um blockbuster formalmente competente, visualmente elegante, ritmicamente eficiente e conduzido por uma protagonista cuja complexidade psicológica supera com folga a de boa parte dos heróis contemporâneos da DC.
Mesmo com antagonistas frágeis e ocasionais desequilíbrios de montagem, Craig Gillespie entrega uma produção coesa, divertida e esteticamente consistente. Talvez não seja a adaptação definitiva de Woman of Tomorrow, mas funciona plenamente enquanto obra cinematográfica autônoma, reafirmando que fidelidade ao espírito do cinema frequentemente importa mais do que fidelidade literal ao material original.
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