quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

🎬 Crítica Técnica: Pecadores (Ryan Coogler, 2025), por Daniel Esteves de Barros.

Nota: ★★★☆☆ (3/5)



Há um debate inadiável acerca dos critérios curatoriais contemporâneos da indústria hollywoodiana, especialmente no que concerne às diretrizes institucionais da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A Academia, responsável pela outorga do Oscar, declarou formalmente nos últimos anos sua intenção de privilegiar obras que atendam a parâmetros de diversidade e representatividade. A questão, portanto, não reside na presença de temáticas raciais ou identitárias — historicamente abordadas pelo Cinema com excelência — mas na forma como tais elementos são integrados à estrutura dramatúrgica.

Quando observamos produções como 12 Years a Slave, BlacKkKlansman, Green Book e Moonlight, verificamos abordagens distintas de conflitos raciais e identitários, mas todas sustentadas por coerência interna, domínio da linguagem cinematográfica e articulação narrativa consistente. Em maior ou menor grau, tais obras subordinam o discurso temático à organicidade da mise-en-scène, à progressão dramática e à construção psicológica dos personagens.

É nesse contexto que Pecadores se insere — e também se fragmenta.


Estrutura Narrativa e Direção

Dirigido por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, o filme inicia como um drama histórico ambientado no Mississippi da década de 1930.

A primeira metade apresenta notável coesão formal. A direção de arte reconstitui com precisão o Sul estadunidense pós-Depressão; a paleta cromática privilegia tons quentes e saturados, sugerindo um ambiente simultaneamente árido e pulsante. A fotografia explora contrastes de luminosidade — o sol escaldante como elemento simbólico de opressão estrutural — enquanto a trilha calcada no blues funciona não apenas como ambientação sonora, mas como eixo identitário da narrativa.

Coogler conduz a mise-en-scène com dinamismo. A montagem privilegia ritmo ágil sem comprometer a inteligibilidade espacial. Há domínio técnico inequívoco: enquadramentos estáveis, movimentos de câmera motivados, transições fluidas. Michael B. Jordan entrega performance marcada por cadência verbal acelerada, impostação confiante e presença cênica que estrutura a primeira metade do filme.

Até aqui, a obra demonstra unidade estética e clareza de propósito.


Ruptura Genérica e Problema de Coerência

O ponto de inflexão ocorre quando o drama histórico converte-se abruptamente em horror sobrenatural. Não se trata de uma simples hibridização de gêneros — recurso perfeitamente legítimo na história do Cinema —, mas de uma guinada estrutural insuficientemente preparada em termos de foreshadowing e progressão dramática.

A mudança de registro carece de ancoragem diegética sólida. A narrativa abandona a verossimilhança construída para adotar convenções típicas do horror sem a devida preparação simbólica. O resultado é um desequilíbrio estrutural: dois filmes distintos coexistem no mesmo corpo narrativo.

Como obra de terror, Pecadores é funcional. Entretanto, dentro do gênero, revela execução apenas mediana: desenvolvimento acelerado, arquétipos pouco sofisticados, antagonistas delineados com traços excessivamente esquemáticos. A tensão não amadurece gradualmente; ela é instaurada por imposição estrutural.


Construção de Arquétipos e Discurso

O terceiro ato evidencia simplificação de conflitos raciais por meio da inversão simbólica de papéis sociais. A representação de antagonismos raciais ocorre de maneira pouco ambígua, o que reduz a complexidade dramática. Em vez de explorar a ambivalência moral dos personagens, opta-se por uma configuração arquetípica quase alegórica.

Do ponto de vista formal, quando o discurso precede a dramaturgia, a narrativa perde densidade. Cinema politicamente engajado não é problema; a História da Sétima Arte é pródiga em exemplos de obras militantes esteticamente sofisticadas. O problema surge quando a estrutura dramática se subordina a uma intenção discursiva que se sobrepõe à organicidade do roteiro.

A percepção de alinhamento estratégico aos critérios contemporâneos da Academia decorre não da presença do tema racial, mas da forma como o conflito é estruturado: menos como investigação dramática e mais como afirmação categórica.


Considerações Finais

Pecadores possui méritos inequívocos:

  • Direção de arte rigorosa
  • Fotografia expressiva
  • Trilha sonora identitária
  • Atuação central magnética
  • Primeira metade dramaticamente sólida

Entretanto, padece de:

  • Ruptura genérica abrupta
  • Fragilidade na transição para o horror
  • Simplificação arquetípica no terceiro ato
  • Descompasso entre discurso e dramaturgia

As múltiplas indicações ao Oscar podem ser compreendidas à luz do contexto institucional atual, mas não encontram respaldo proporcional na excelência formal integral da obra.

Trata-se, em síntese, de um filme tecnicamente competente, estruturalmente irregular e tematicamente ambicioso, porém esteticamente inconsistente na totalidade de sua proposta.

Não é uma obra menor — mas tampouco um marco.

Daqui a alguns anos, é plausível que seja lembrado mais pelo contexto de sua recepção do que por sua permanência estética.

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