🎬 Crítica Técnica: O Morro dos Ventos Uivantes (Emerald Fennell, 2026), por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★☆☆☆ (2/5)
A adaptação de 2026 de O Morro dos Ventos Uivantes apresenta-se como um artefato cinematográfico de elevada competência formal e simultânea inconsistência conceitual. Trata-se de uma obra tecnicamente sofisticada, mas dramaticamente desidratada — um exercício estético de alta voltagem plástica que não encontra equivalência na densidade psicológica da matriz literária.
Fidelidade, Liberdade Artística e Compressão Narrativa
Toda adaptação pressupõe tensão entre fidelidade e liberdade criativa. Nos primeiros sessenta minutos, o filme mantém razoável alinhamento estrutural com o romance, especialmente ao enfatizar infância e juventude de Catherine e Heathcliff. Contudo, essa ênfase inicial não amadurece em progressão psicológica consistente.
A compressão de um romance estruturalmente complexo em cerca de 2h15 resulta em fragmentação narrativa. A segunda metade assume ritmo de montagem quase episódica, próxima ao videoclipe sensorial, dissolvendo o arco trágico em sucessão de atmosferas. O estudo ontológico das personagens — elemento central na obra de Brontë — cede lugar a uma dramatização superficial.
O resultado é uma adaptação que preserva eventos, mas esvazia processos internos.
Direção e Construção de Personagens
A direção de Emerald Fennell demonstra competência na condução da tensão inicial, sobretudo no trabalho com os atores mirins. A jovem Catherine captura traços fundamentais de formação psicológica, constituindo um dos momentos mais sólidos da obra.
Entretanto, essa construção não encontra continuidade dramática. A transição para a maturidade emocional ocorre de forma abrupta e pouco orgânica.
A opção por reduzir ou omitir a relevância de Hindley compromete a degradação estrutural da família Earnshaw e enfraquece o eixo de brutalização moral que sustenta a trajetória de Heathcliff.
Heathcliff e a Despotencialização do Arquétipo
A interpretação de Jacob Elordi apresenta um Heathcliff emocionalmente amortecido. Se comparado à performance de Laurence Olivier na adaptação de 1939, observa-se perda significativa de intensidade volitiva.
O Heathcliff literário é movido por vingança como força ontológica. Aqui, a personagem surge romantizada e dramaticamente “nerfada”: menos cruel, menos obsessiva, menos ameaçadora. A monotonia vocal e a contenção expressiva reduzem o impacto trágico.
Mais do que falha interpretativa, trata-se de escolha de roteiro que suaviza a brutalidade moral da obra original.
Catherine: Intensidade e Artificialidade
Margot Robbie, também produtora, alterna momentos de vigor dramático com passagens de artificialidade performativa. Em registros mais densos, sustenta o conflito interno com competência. Contudo, a exacerbação da birra emocional aproxima a personagem de arquétipos melodramáticos reminiscentes de Vivien Leigh em Gone with the Wind, sem atingir a mesma complexidade.
A Catherine apresentada é intensificada na superfície, mas simplificada na estrutura.
Direção de Arte, Figurino e Verossimilhança Sociocultural
Tecnicamente, o filme é irrepreensível em direção de arte e figurino. A recriação da Inglaterra rural vitoriana apresenta rigor plástico e composição visual sofisticada. A paleta cromática — como na já emblemática saia rosada de Catherine — reforça contrastes simbólicos.
Contudo, há discrepância geossocial evidente. A ostentação estética atribuída à residência dos Linton aproxima-se mais do imaginário aristocrático de produções como Bridgerton ou Downton Abbey do que da austeridade histórica do norte da Inglaterra vitoriana.
A estilização supera a contextualização. O resultado é plasticamente belo, porém sociologicamente dissonante.
Fotografia e Estilização Gótica
A fotografia captura adequadamente o tom gótico da obra, evocando desolação e isolamento. Entretanto, o excesso de estilização — especialmente em cenas de neblina e na reentrada simbólica de Heathcliff nas “trevas” — aproxima a mise-en-scène de um romantismo estetizado excessivo.
A atmosfera flerta com o kitsch, comprometendo a sobriedade emocional da narrativa literária.
Trilha Sonora e Ruptura Diegética
O elemento mais problemático da obra reside na trilha sonora. A inserção de composições pop/tecno-pop rompe a coesão diegética e interfere na imersão histórica.
Não há contraponto irônico consistente nem atualização conceitual justificável. A camada sonora funciona como ruído estrutural, desestabilizando a suspensão da descrença e fragmentando a experiência estética.
Estratégia Mercadológica e Deslocamento Tonal
Percebe-se orientação para público semelhante ao das franquias Twilight e Fifty Shades of Grey: erotização emocional suavizada, voltada ao consumo juvenil.
O filme flerta com erotismo, mas evita radicalidade. Permanece em zona de sugestão calculada, indicando possível preocupação com retorno financeiro (considerando orçamento elevado e negociações de direitos envolvendo a Netflix).
Essa inflexão conduz a obra a um registro tonal oscilante entre o melodrama intensificado e a estetização kitsch.
Considerações Finais
A adaptação de 2026 é formalmente refinada, visualmente exuberante e tecnicamente sólida. Contudo, falha naquilo que constitui o núcleo do romance de Emily Brontë: o mergulho psicológico profundo e a radicalidade moral.
A busca por impacto visual e ampliação de público dilui a tragédia existencial em romance estilizado de pulsão atenuada.
Trata-se, portanto, de um filme esteticamente admirável, mas dramaticamente esvaziado — um espetáculo visual que não alcança a ferocidade ontológica do texto que pretende homenagear.

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