Crítica Técnica: Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025), por Daniel Esteves de Barros.
Nota: ★★★★ (4/5)
Valor Sentimental, o mais recente trabalho do diretor Joachim Trier, apresenta-se como uma experiência cinematográfica polarizadora, oferecendo aos espectadores uma narrativa que beira o risco de se perder em sua própria ambição estrutural. Desde o princípio, o filme se configura como duas obras distintas que coexistem dentro de um único projeto, gerando uma sensação de desarmonia entre os elementos dramáticos e estilísticos que se entrelaçam na tela.
O ponto de partida do filme, que tenta unir dois gêneros aparentemente antagônicos, é uma decisão criativa que pode ser tanto um charme quanto um desafio, dependendo da paciência do espectador. A direção de Trier, com sua abordagem intimista e controlada, privilegia planos fechados, sublinhando a tensão interna de seus personagens e criando uma atmosfera de claustrofobia emocional. No entanto, quando a película entra em momentos que buscam a grandeza do drama humano, há uma nítida sensação de falta de coesão. A transição entre essas duas abordagens, por vezes, parece artificial, como se o diretor tentasse casar água e óleo.
A atuação de Stellan Skarsgård é, sem dúvida, o grande pilar de Valor Sentimental. Conhecido por interpretar personagens de temperamento mais ríspidos e taciturnos, Skarsgård entrega uma performance complexa e introspectiva, com um personagem que busca redenção e reconciliação. Seu papel é, sem dúvida, mais profundo e intrigante do que o filme inicialmente deixa transparecer. A transformação de Skarsgård de um homem implacável para alguém mais simpático e tocante é convincente e cativante, provando que, mesmo com a tentação de encaixá-lo como coadjuvante, ele é, na verdade, o centro gravitacional da narrativa.
Renate Reinsve e Elle Fanning, embora talentosas, são subaproveitadas, especialmente em um filme que tenta posicioná-las como protagonistas, mas não dá a elas o espaço necessário para expandir suas personagens. Fanning, que já demonstrou seu talento em Super 8 e outros trabalhos, se destaca, especialmente quando interpreta uma atriz dentro do filme que interpreta uma atriz – uma metalinguagem que se torna o auge de sua atuação. Seu domínio sobre as emoções, transitando com facilidade entre momentos de seriedade, vulnerabilidade e até mesmo a leveza cômica, é uma prova de sua maturidade interpretativa.
Já Reinsve oferece uma performance sólida, porém mais comedida. Seu papel, que exige uma construção mais gradual e amadurecida, falta a energia necessária para se destacar, particularmente quando comparado ao brilho de Skarsgård e Fanning. O que falta em seu papel, contudo, não é sua habilidade – mas a ausência de um arco mais dinâmico e provocativo no roteiro, o que faz com que seu personagem, por vezes, passe despercebido.
A narrativa de Valor Sentimental poderia ser mais bem trabalhada, especialmente no que diz respeito à integração das duas tramas principais. A tentativa de unir a busca de um homem por reconciliação com a figura distante da filha com a carreira artística desta última é uma proposta interessante, mas que demora a engrenar. O ritmo do filme, por vezes lento e introspectivo, exigirá paciência do espectador, que pode se sentir frustrado com a falta de dinamismo. Para aqueles dispostos a esperar, o longa recompensará com um desfecho mais coeso, mas até lá, o sentimento predominante será o de que a película está tentando encontrar seu lugar.
O trabalho de Joachim Trier como diretor é notável, mas também imperfeito. Embora a direção intimista crie uma conexão genuína com os personagens, a falta de ousadia em alguns momentos acaba limitando o impacto emocional do filme. As escolhas de plano são bem pensadas, mas a estrutura narrativa se beneficiaria de uma maior fluidez. A trilha sonora, que é um elemento crucial em filmes intimistas, falha em se conectar com a obra como um todo. A opção por uma música estrangeira e não-diegética enfraquece o sentido de autenticidade, especialmente em uma produção que se passa na Noruega e poderia explorar melhor sua identidade cultural.
O longa poderia ter sido mais dinâmico em seu roteiro, mas a conclusão, embora tardia, entrega um encaixe satisfatório das tramas. A presença de Trier como diretor é evidente em sua busca pela profundidade emocional dos personagens, mas o filme peca ao não conseguir equilibrar melhor suas duas narrativas. A escolha de tornar a história mais palatável para o público de streaming, embora compreensível, não se alinha com o tom mais contemplativo que o cinema exige. A obra encontra sua recompensa na paciência do espectador, que, se souber esperar, será agraciado com uma conclusão que justifica o ritmo mais arrastado.
Valor Sentimental é, portanto, uma obra que se destaca principalmente pelo desempenho excepcional de seu elenco, em particular de Skarsgård e Fanning, e por sua abordagem intimista que, apesar de sua falta de coesão estrutural, reflete a complexidade emocional de seus personagens. É uma produção que exige paciência, mas que, para aqueles dispostos a embarcar na jornada, oferece uma recompensa que, embora não impecável, é autêntica e satisfatória. É um filme que, embora falho em sua execução, permanece impactante e merece ser visto com atenção.
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