Crítica Técnica | Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025), por Daniel Esteves de Barros — Paul Thomas Anderson e a anatomia satírica das utopias fracassadas

Ainda que, do ponto de vista estritamente cinematográfico, este autor considere Marty Supreme o candidato mais sólido — em termos de engenharia narrativa e rigor formal — ao Oscar de Melhor Filme de 2026, é preciso reconhecer que o prêmio da Academia raramente se restringe à excelência técnica. Historicamente, o Oscar funciona também como instrumento de legitimação cultural, premiando obras cujo impacto simbólico ou político projete consequências para além da sala de exibição. Sob esse prisma, Uma Batalha Após a Outra emerge como um concorrente particularmente relevante.
O filme de Paul Thomas Anderson mobiliza a sátira como dispositivo de observação social e política, mirando a polarização ideológica que domina o debate público contemporâneo. Em vez de aderir a um posicionamento ideológico inequívoco, Anderson prefere um gesto mais sofisticado: expor simultaneamente as contradições retóricas da extrema-direita e da extrema-esquerda, desmontando os mecanismos psicológicos que sustentam ambas.
Esse gesto autoral não é exatamente novo em sua filmografia. Desde There Will Be Blood, passando por The Master, Inherent Vice e Licorice Pizza, Anderson demonstra fascínio por personagens ideologicamente deslocados — indivíduos que orbitam projetos grandiosos que acabam inevitavelmente corroídos por contradições internas.
Estética da consequência: fotografia e atmosfera
Do ponto de vista formal, Uma Batalha Após a Outra é quase irrepreensível. A fotografia adota uma paleta deliberadamente desidratada, dominada por tons ocres e pastéis, que evocam um ambiente físico e moral em decomposição.
O deserto não funciona apenas como cenário, mas como metáfora visual para o estado psicológico dos personagens: revolucionários que outrora acreditaram participar de uma transformação histórica e agora vivem o lento esfacelamento dessas utopias.
Anderson constrói, portanto, um cinema das consequências. O filme se interessa menos pelo momento heroico da revolução e mais pelo que resta após o entusiasmo ideológico evaporar. Seus personagens são sobreviventes de suas próprias narrativas românticas.
Esse contraste é reforçado pela fotografia. Nos momentos que evocam o passado militante — ataques noturnos ou episódios de fervor revolucionário — surgem azuis noturnos mais vivos e luminosidades mais vibrantes. No presente narrativo, entretanto, predominam cores esmaecidas, enfatizando o esgotamento dessas utopias.
Trilha sonora e montagem: a arquitetura da urgência
A trilha sonora funciona quase como um dispositivo narrativo independente. Com poucos acordes e estruturas repetitivas, o score cria uma sensação constante de alerta — como uma sirene distante que nunca deixa de tocar.
O resultado é um sentimento de urgência permanente, como se algo terrível pudesse acontecer a qualquer momento.
Essa tensão sonora dialoga diretamente com a montagem, que provavelmente figura entre as mais fortes candidatas ao Oscar de edição em 2026. A edição privilegia fluidez e clareza narrativa, alternando múltiplos núcleos dramáticos sem gerar confusão.
A palavra que melhor descreve esse trabalho é magnetismo: cada corte parece puxar o espectador para o próximo evento dramático, criando uma progressão quase hipnótica.
O elenco: sátira performativa e ambiguidade psicológica
No centro dessa galeria de personagens ideologicamente fragmentados está Leonardo DiCaprio, que interpreta uma espécie de versão paranoica de Jeff Lebowski, o icônico “The Dude” de The Big Lebowski.
Seu personagem é um revolucionário decadente, alguém que ficou preso em um passado ideológico que já não existe. DiCaprio investe fortemente em timing cômico, explorando a dimensão patética do personagem — um homem que outrora acreditou que mudaria o mundo e hoje mal consegue organizar a própria vida.
Sean Penn: ambiguidade vocal e corporal
Outro destaque incontornável é Sean Penn, cujo trabalho aqui é um estudo fascinante de ambiguidade performativa.
O personagem Lockjaw poderia facilmente cair na caricatura. No entanto, Penn constrói algo muito mais sofisticado.
Seu tom de voz deliberadamente abobalhado e quase infantil entra em choque com a rigidez de suas expressões faciais. O resultado é uma tensão constante entre aparência e fragilidade.
Penn trabalha essa contradição com enorme precisão física. Pequenos gestos — o modo como movimenta a boca, a maneira nervosa com que passa a língua pelos lábios — denunciam uma insegurança profunda escondida sob uma masculinidade performática.
É uma atuação que se constrói nas minúcias corporais, e não apenas no texto.
Até recentemente, este autor considerava que o prêmio de ator coadjuvante deveria ir para Stellan Skarsgård, por Valor Sentimental. No entanto, diante desse trabalho e após as vitórias de Penn no BAFTA e no Actors Awards, torna-se difícil imaginar outro resultado na noite do Oscar.
Teyana Taylor: a guerrilheira como arquétipo
Outro desempenho notável é o de Teyana Taylor, que interpreta Perfidia Beverly Hills — talvez a personagem mais séria do filme.
Taciturna, brutal e quase messiânica, Perfidia representa o arquétipo do revolucionário absoluto. Taylor transmite essa intensidade com impressionante naturalidade.
Seu tempo de tela é relativamente curto, mas sua presença é devastadora. Cada gesto, cada entonação vocal transmite convicção ideológica total.
Ainda que seja forte candidata ao Oscar, a derrota para Amy Madigan no Actors Awards provavelmente reduziu suas chances.
Benicio Del Toro: o revolucionário cansado
Já Benicio del Toro oferece talvez a atuação mais sutil do elenco.
Seu personagem funciona como uma espécie de pai ideológico desencantado. Ele ainda protege os jovens revolucionários, mas já abandonou qualquer crença real na causa.
Esse desencanto aparece nos pequenos gestos.
Em uma cena emblemática, enquanto o personagem de DiCaprio proclama “Viva a revolução!” com entusiasmo quase infantil, Del Toro responde com um lacônico “É… tá bom.”
O contraste entre fervor e ironia sintetiza o espírito do personagem.
Direção: a maturidade de Paul Thomas Anderson
Se existe uma categoria praticamente assegurada para o filme na temporada de premiações, esta é Melhor Direção.
Depois de décadas sendo relativamente negligenciado pela Academia — desde There Will Be Blood, derrotado por No Country for Old Men — Anderson parece finalmente receber o reconhecimento institucional que sua filmografia merece.
Sua direção aqui é marcada por planos-sequência elegantes e travellings verticais precisos, como na sequência inicial em que os revolucionários planejam libertar refugiados.
Esses movimentos de câmera ampliam a sensação de urgência já construída pela trilha sonora e pela montagem.
O resultado é um filme de quase três horas que passa com surpreendente fluidez, sem jamais provocar sensação de cansaço.
A perseguição final
A sequência de perseguição automobilística próxima ao final do filme exemplifica bem a inteligência formal de Anderson.
Utilizando câmera subjetiva, o diretor alterna o ponto de vista entre caçador e presa. Planos do retrovisor, do capô e da estrada ondulada criam suspense sem recorrer a efeitos extravagantes.
É uma sequência relativamente simples em termos de orçamento, mas extremamente eficaz em termos dramáticos.
A leitura política: a sátira dos dois extremos
Talvez o aspecto mais fascinante do filme seja sua leitura política.
À primeira vista, a narrativa parece glorificar um grupo revolucionário que luta contra instituições conservadoras — corporações, leis anti-aborto, políticas anti-imigração.
Entretanto, à medida que a trama avança, Anderson desmonta progressivamente essa aura heroica.
O filme começa a questionar:
Quem financia essas revoluções?
Quem se beneficia delas?
As pessoas que esses revolucionários dizem defender realmente pediram essa defesa?
A personagem de Teyana Taylor torna-se central nesse processo. Ao mesmo tempo em que encarna o discurso humanitário, ela demonstra enorme desprezo pelas consequências humanas de suas ações — chegando a colocar vidas inocentes em risco.
Ela se revela menos uma libertadora e mais uma figura narcísica que busca imortalizar o próprio nome na história.
Por outro lado, Anderson também satiriza a extrema-direita através da “Sociedade dos Aventureiros Natalinos”, um grupo supremacista composto por jovens imaturos incapazes de lidar com frustrações pessoais.
O filme revela esses personagens como indivíduos infantilizados que projetam suas frustrações sociais em teorias conspiratórias raciais.
O único tropeço: um final excessivamente conciliador
Se há uma fraqueza significativa na obra, ela se encontra no epílogo.
Após uma construção narrativa marcada por ambiguidade moral e cinismo político, o filme opta por um final surpreendentemente conciliador — quase um happy ending.
Esse desfecho dilui parte da força satírica acumulada ao longo da narrativa.
Há a sensação de que o filme teria terminado de forma muito mais poderosa se tivesse encerrado logo após a sequência da perseguição.
O epílogo envolvendo DiCaprio, sua filha e uma carta soa excessivamente sentimental — um fechamento quase “disneyano” que destoa do tom ácido da obra.
Conclusão
Apesar desse tropeço final, Uma Batalha Após a Outra permanece como uma das obras mais sofisticadas da temporada.
Paul Thomas Anderson constrói aqui um filme sobre ressaca ideológica — um estudo sobre o que acontece quando grandes narrativas políticas colidem com a realidade.
Tecnicamente impecável, interpretado com precisão cirúrgica e dirigido com maturidade absoluta, o filme se estabelece como um dos pontos altos da carreira do diretor.
Uma obra de quatro estrelas, que poderia facilmente ter sido perfeita se tivesse tido coragem de manter até o fim o cinismo brilhante que a define.
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